Banco do Brasil (BBAS3) vê 2026 ainda desafiador, com melhora no agronegócio apenas no 2º semestre
As ações do Banco do Brasil (BBAS3) dispararam mais de 8% nesta quinta-feira (12), após mostrar um lucro acima do esperado no quarto trimestre, mas o cenário para 2026 permanece desafiador, destacaram executivos do banco, em meio a uma pressão ainda proveniente da carteira de crédito do agronegócio.
“2025 foi desafiador, 2026 será desafiador”, afirmou a presidente-executiva da instituição, Tarciana Medeiros, em teleconferência com analistas sobre os resultados do banco, acrescentando que são desafios que o BB aprendeu como lidar.
De acordo com o vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar, Gilson Bittencourt, a carteira de agro deve continuar com inadimplência elevada no primeiro trimestre do ano, “beliscando” abril, reflexo de operações realizadas na safra anterior, na metodologia antiga, que estão vencendo agora.
“A expectativa é que com a nova metodologia, com a nova forma de concessão, a nossa matriz de resiliência…(o BB) comece a ver o resultado a partir do segundo trimestre…e a partir do segundo semestre tende a ter uma queda bem mais expressiva na inadimplência”, afirmou em coletiva de imprensa sobre o balanço.
De acordo com o executivo, o Banco do Brasil mudou a sua forma de analisar o crédito e de exigir mais garantias, basicamente a partir do início do Plano Safra 25/26.
Uma das estratégias do BB no trabalho para lidar com a elevada inadimplência no segmento foi a linha BB Regulariza Agro, que passou a operar em outubro de 2025, oferecendo condições especiais para a renegociação de dívidas de produtores rurais afetados por eventos climáticos.
De acordo com o banco, até o último dia 10, essa linha somava R$35,5 bilhões, sendo R$32,2 bilhões em recursos livres e R$3,3 bilhões de fontes supervisionadas.
No quarto trimestre, a inadimplência acima de 90 dias do Banco do Brasil atingiu 5,17%, de 4,51% no terceiro trimestre e 3,16% um ano antes. Na carteira de crédito para o agronegócio, a inadimplência acima de 90 dias alcançou 6,09%, de 4,84% três meses antes e 2,23% um ano antes.
Pessoa física
Medeiros também destacou na apresentação a analistas estratégia de gestão de crédito do Banco do Brasil para 2026, afirmando que o banco buscará crescer em qualidade e rebalancear o mix da sua carteira, mirando linhas cada vez mais seguras.
No caso de pessoa física, ela afirmou que o BB buscará fortalecer sua liderança no crédito consignado, mas também crescer no crédito não consignado, mirando público estratégico, com histórico de adimplência, além de linhas com garantias de imóveis, previdência e investimentos.
No cartão de crédito, o BB buscará crescer observando o perfil do cliente, a capacidade de pagamento, mas também os segmentos de clientes. “A tendência é que o BB realmente expanda e aumente a carteira do cartão de crédito.”
No quarto trimestre do ano passado, carteira de pessoa física cresceu 1,8% no trimestre e 7,6% ano a ano, com a inadimplência atingindo 6,56%, de 6,01% no terceiro trimestre e 4,66% um ano antes.
Roe
De acordo com o vice-presidente de Gestão Financeira e de Relações com Investidores, Geovanne Tobias, o BB trabalha para continuar entregando retorno sobre o patrimônio de dois dígitos e afirmou que uma expectativa “cautelosa” seria um percentual na região dos 15% em 2026.
“Temos sido cautelosamente otimistas… porque não é que a situação simplesmente se resolveu num passe de mágica. Há muito suor, muito trabalho… mas, olhando para 2026, estamos mirando no famoso ‘mid teens’, naquela região dos 15%”, afirmou a jornalistas na coletiva em São Paulo.
“Pode ser 14%, pode ser 16%. Isso vai também depender muito do quão rápido se recuperam esses agricultores que conseguiram alongar suas dívidas. Vai depender muito de nós na eficiência da cobrança. Vai depender muito também do estancamento das recuperações judiciais”, acrescentou.
FGC
O BB estima em R$5 bilhões o aporte que precisará fazer no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que entre as regras aprovadas recentemente para recomposição do caixa após efeito da liquidação do Banco Master está a antecipação de cinco anos de contribuição dos bancos neste ano.
“Anualmente, o banco, considerando a média das suas captações, contribui R$1 bilhão… Arredondando, vou antecipar R$5 bilhões”, afirmou o executivo, citando que a operação terá um efeito caixa.
Outra regra aprovada pelo FGC inclui uma alíquota extraordinária equivalente a 50% da alíquota tradicional, o que, segundo Tobias, significará provavelmente uns R$450 milhões a R$500 milhões a mais nas despesas financeiras por ano.
Ao comentar o caso, Medeiros destacou que há muitos aprendizados para ajuste da legislação, para ajuste de regulação, se for o caso, mas é algo que não é corriqueiro. E acrescentou que é preciso verificar exatamente quais foram as falhas que desencadearam tal desfecho.
“Elas ocorreram e (precisa) corrigir. Acredito que aqui é um trabalho adiante, é de muito diálogo entre os agentes nesse processo, para que se chegue aos ajustes que são necessários para que não ocorra”, acrescentou.
Qualidade fragilizada
Na bolsa paulista, as ações do BB subiam 2,37%, a R$25,50, desacelerando em relação à máxima, quando chegou a saltar quase 8%, com o lucro do quarto trimestre somando R$5,7 bilhões, superando previsões no mercado. Projeções compiladas pela LSEG apontavam lucro de R$4,5 bilhões.
De acordo com o analista Eduardo Nishio, da Genial Investimentos, apesar do lucro ter vindo substancialmente acima das expectativas, a qualidade do resultado segue fragilizada. Ele também avaliou que o guidance 2026 sinalizou que a recuperação será mais lenta e menos intensa que o esperado.
Conforme as projeções para 2026, o BB estima lucro líquido ajustado de R$22 bilhões a R$26 bilhões. Em todo o ano de 2025, o lucro líquido somou R$20,7 bilhões.