Banco vê economia mais quente e joga balde de água fria em quem espera queda dos juros
A economia brasileira continua desafiando as previsões de desaceleração. Diante de uma atividade mais resiliente do que o esperado, estímulos fiscais e de crédito em curso e uma inflação que segue pressionada, o BNP Paribas revisou para cima suas projeções para crescimento econômico, inflação e juros no Brasil.
Em relatório divulgado nesta semana, o banco elevou sua estimativa para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2026 de 2,0% para 2,3%, ao mesmo tempo em que aumentou sua projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 5,2% para 5,6%. Para a Selic, a expectativa passou de 13,5% para 14% ao final do próximo ano.
Segundo os economistas Fernanda Guardado e Laiz Carvalho, que assinam o relatório, o desempenho da atividade econômica tem sido sustentado principalmente pelo consumo das famílias, favorecido por medidas de estímulo adotadas pelo governo federal.
“A atividade e a inflação brasileiras estão mais resilientes do que amplamente esperado”, afirmam no documento.
Os dados do primeiro trimestre reforçaram essa percepção. O PIB cresceu 1% na comparação com os três meses anteriores e 1,8% em relação ao mesmo período de 2025. O destaque ficou com o consumo das famílias, que voltou a acelerar após a fraqueza observada no fim do ano passado.
Além disso, o mercado de trabalho segue apresentando expansão do emprego e crescimento da renda real, ainda que em ritmo mais moderado.
Estímulos do governo devem impulsionar consumo
Na avaliação do BNP Paribas, boa parte do impulso econômico ainda está por vir. O banco estima que as medidas anunciadas pelo governo nos últimos meses terão seu pico de impacto entre o segundo e o terceiro trimestres de 2026, fortalecendo a renda disponível das famílias e ampliando o acesso ao crédito.
Entre os fatores apontados estão a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para trabalhadores com rendimentos de até R$ 5 mil mensais, programas voltados ao crédito habitacional, linhas para reforma de imóveis, iniciativas de renegociação de dívidas e expansão de financiamentos para empresas.
Somadas, as medidas representam um impulso equivalente a cerca de 1,3% do PIB, segundo cálculos da instituição.
Diante desse cenário, o BNP elevou sua projeção para o crescimento do consumo das famílias de 1,3% em 2025 para 2,1% em 2026.
Inflação segue preocupando
Se por um lado a atividade econômica surpreende positivamente, por outro a inflação continua sendo motivo de preocupação.
O banco destaca que os últimos indicadores vieram acima das expectativas do mercado, impulsionados principalmente pelos preços dos alimentos e pelos serviços relacionados ao mercado de trabalho.
Os economistas observam que a inflação de serviços permanece elevada em razão do mercado de trabalho aquecido, enquanto os alimentos têm sido impactados por fatores climáticos e pelo aumento dos custos globais associados ao conflito no Oriente Médio.
Como resultado, o BNP Paribas elevou sua projeção para a inflação de alimentos consumidos no domicílio para 8,5% em 2026.
Um dos fatores que motivaram a revisão das projeções foi o aumento da probabilidade de ocorrência de um forte fenômeno El Niño entre o final de 2026 e o início de 2027.
Segundo o relatório, os modelos climáticos passaram a indicar maior risco de secas em importantes regiões agrícolas brasileiras, especialmente no MATOPIBA e no Norte do país, além de alterações no regime de chuvas em áreas produtoras do Sul.
Na avaliação do banco, o evento climático pode pressionar ainda mais os preços dos alimentos, justamente em um momento em que a inflação já se encontra acima da meta.
Com isso, a projeção para o IPCA foi elevada para 5,6% em 2026 e 4,6% em 2027, níveis que permanecem acima do teto da meta perseguida pelo Banco Central.
Menos espaço para cortes da Selic
O cenário de crescimento resiliente e inflação persistente também levou o BNP Paribas a rever sua expectativa para a política monetária.
A instituição ainda espera um corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para junho, o que levaria a Selic para 14,25%.
No entanto, os economistas avaliam que o Banco Central deverá interromper o ciclo de flexibilização logo em seguida.
Segundo o relatório, os dados recentes de atividade, a inflação de serviços resistente, a deterioração das expectativas e os riscos associados ao cenário externo tornam difícil justificar novos cortes de juros nos meses seguintes.
“O Banco Central não pode mais se dar ao luxo de continuar reduzindo juros sem correr o risco de desancorar as expectativas de inflação”, afirmam os economistas.
Dessa forma, o BNP Paribas projeta uma pausa prolongada nos cortes até dezembro, quando poderia ocorrer uma redução adicional de apenas 0,25 ponto percentual. O movimento deixaria a Selic em 14% ao final de 2026, patamar superior ao previsto anteriormente e que reforça a percepção de que o processo de convergência da inflação para a meta será mais lento do que o esperado.