BBAS3, ITUB4, BBDC4, SANB11: Na corrida dos bancões, uma certeza e um ponto de interrogação
A temporada de resultados está só começando, mas não para os bancões. Na última quinta-feira (12), o Banco do Brasil (BBAS3) abriu seus números, depois de Santander Brasil (SANB11) e Itaú Unibanco (ITUB4), no dia 4, e Bradesco (BBDC4), no dia 5.
Com exceção do BB, todos registraram alta no lucro. A rentabilidade também acompanhou (mais detalhes no quadro abaixo). Como no trimestre passado, o Bradesco foi quem mais viu o lucro avançar: 20%.
Segundo a Elos Ayta, o lucro líquido consolidado somou R$ 86,55 bilhões em 2025, o maior valor nominal da série histórica, iniciada em 2006. Em dois anos, o avanço acumulado foi de 50,6%.
Mesmo ajustando pelo IPCA até dezembro de 2025, o número muda pouco: o lucro real do ano é o segundo maior da série, atrás apenas de 2019, quando atingiu R$ 88,14 bilhões em valores reais.
O retrato é claro: os bancos seguem driblando a Selic elevada, hoje em 15%. ‘Outros indicadores, como eficiência operacional, diversificação de receitas e modelo de negócios ganham peso e entraram na equação’, conclui o estudo.
Veja o quadro abaixo:
| Banco | Lucro | Variação A/A | ROE | Variação A/A |
|---|---|---|---|---|
| Itaú Unibanco | R$ 12,3 bi | 13% | 24,40% | 0 pp |
| Banco do Brasil | R$ 5,7 bi | -40% | 12,40% | -8,4 pp |
| Bradesco | R$ 6,5 bi | 20,60% | 15,20% | 2,5 pp |
| Santander Brasil | R$ 4 bi | 6% | 17,60% | 0,1 pp |
Itaú, uma certeza
O Itaú continua, mais uma vez, tratado como compra quase consensual entre analistas.
Para o BTG Pactual, o destaque do trimestre foi a qualidade dos ativos, com métricas melhores ou estáveis, ‘permitindo ao banco iniciar novamente o ano com um balanço saudável’.
‘No geral, o Itaú mais uma vez entregou resultados acima de expectativas já elevadas. Permanecemos construtivos com a tese e seguimos vendo o banco bem posicionado para superar o mercado no médio prazo’, escreveram os analistas.
O BTG ainda classificou 2025 como ‘outro ano excepcional’. No acumulado, o Itaú lucrou R$ 46,8 bilhões, alta de 13% na comparação anual. O ROE ficou em 23,4%.
O UBS BB destacou as tendências operacionais, especialmente na carteira de crédito, que cresceu 6,3% no trimestre (4,5% sem efeito cambial).
‘A carteira avançou de forma relevante na comparação sequencial, apesar de alguma compressão nas margens com clientes, receitas de tarifas sólidas, boa qualidade dos ativos e leve melhora no índice de eficiência (cost to income)’, afirmaram os analistas.
A margem financeira (NII) cresceu 1,5% na base trimestral, sustentada por volumes maiores, mas limitada por um mix mais conservador.
O JPMorgan avaliou que os números vieram em linha, mas reforçou visão positiva sobre a execução da estratégia, principalmente em PMEs.
Com o balanço, o Itaú também divulgou o guidance de 2026. A carteira de crédito pode crescer até 9,5%. O banco projeta lucro médio de R$ 51,1 bilhões no próximo ano — em linha com o consenso da Bloomberg, mas 2% abaixo das estimativas do próprio JPMorgan.
O Banco Safra classificou o guidance como ‘neutro’, chamando atenção para o opex, com alta projetada entre 1,5% e 5,5%.
‘Embora as projeções de opex indiquem disciplina em eficiência, o crescimento mais fraco da receita, de cerca de 7% ao ano, limita um re-rating mais relevante’, avaliou a casa.
Para o BTG, o menor crescimento das despesas já reflete a agenda de eficiência dos próximos anos.
Banco do Brasil, uma dúvida
Apesar de o BB ter superado as expectativas, parte dos analistas prefere cautela antes de falar em recuperação consistente.
O Safra afirma que o resultado foi beneficiado por menores despesas de captação, contribuição do Banco Patagonia, provisões inferiores à formação de novas perdas e efeito tributário favorável.
A medida do governo para renegociação de dívidas do agronegócio também trouxe alívio. Os R$ 22 bilhões renegociados elevaram o Índice de Capital Principal em 144 pontos-base.
Ainda assim, o sentimento com a ação pode melhorar apenas gradualmente, mesmo com investidores reconhecendo que o banco ganhou tempo para lidar com ativos problemáticos antes do ciclo de afrouxamento monetário previsto para março.
A XP. lembra que o lucro foi inflado por efeito tributário positivo de R$ 1,8 bilhão, enquanto os custos de crédito seguem elevados, em R$ 18 bilhões.
‘O índice de cobertura continua em queda, e as tendências no agronegócio seguem pressionando’, dizem os analistas.
O Bradesco BBI aponta fraqueza nas tarifas e deterioração da qualidade dos ativos, com inadimplência acima de 90 dias avançando para 5,2%.
As provisões ficaram em linha, mas a cobertura recuou cerca de 20 pontos percentuais, pressionada por um caso corporativo específico.
Já o JPMorgan adotou tom mais construtivo, destacando que o lucro antes de impostos superou as estimativas. O ROE de 12,6% está longe de ser excepcional, ‘mas, considerando as baixas expectativas e o guidance em linha, o resultado foi construtivo’.
Para o BTG, mesmo com a melhora pontual, a normalização da exposição ao agro — tanto em prazo quanto em rentabilidade — ainda é incerta.
O resultado pode dar suporte às ações no curto prazo, especialmente porque os papéis têm mostrado resiliência. Mas a normalização dos lucros deve ser gradual e cercada de dúvidas sobre o crédito rural.
A própria CEO, Tarciana Medeiros, reconheceu o cenário desafiador para 2025 e 2026.
Bradesco, no meio do caminho
No Bradesco, o sentimento é misto. Há consenso de que o banco entregou bons números, mas o guidance para 2026 frustrou.
O Citigroup reduziu as estimativas de lucro para 2026 e 2027 em 3% e 4%, para R$ 27,8 bilhões e R$ 31,2 bilhões. O ROE projetado ficou em 15,4% e 15,8%. Ainda assim, manteve recomendação de compra e elevou o preço-alvo de R$ 22 para R$ 24.
‘Apesar de o guidance indicar cautela no crédito, vemos vetores estruturais bem posicionados para sustentar o avanço gradual do ROE’, afirmou o Citi.
O JPMorgan também cortou projeções: lucro estimado de R$ 27,5 bilhões em 2026, 4,5% abaixo do consenso.
Mesmo reconhecendo que o Bradesco não é pouco atrativo — dividend yield em torno de 7,6% e crescimento de lucro de cerca de 12% em 2026 e 2027 — o JP vê relação risco-retorno equilibrada e prefere nomes como o Itaú, que justificariam prêmio maior.
Se parte do mercado acha que o papel (BBDC4) atingiu um teto após subir 70% em 12 meses, o UBS BB discorda. A casa elevou o preço-alvo de R$ 25 para R$ 27.
O banco negocia a 1,2 vez o P/VP e 7,6 vezes o lucro. O resultado de R$ 6,5 bilhões veio em linha com o consenso.
A qualidade de ativos foi destaque positivo: inadimplência inicial (15 a 90 dias) e NPL acima de 90 dias ficaram estáveis, em 3,4% e 4,1%, respectivamente — patamar mantido desde o primeiro trimestre de 2025.
Santander, qualidade questionada
No Santander Brasil, os números vieram dentro do esperado, mas a qualidade do resultado levantou dúvidas.
Para o Safra, o lucro antes de impostos (EBT) ficou 5% abaixo do consenso, enquanto o lucro antes das provisões caiu 7% frente às estimativas, pressionado pela queda do NII e alta do opex.
A redução de 10% nas provisões acompanhou a queda na cobertura. Embora parte do movimento decorra de mudança no mix para exposições menos arriscadas, o cenário ainda inspira cautela.
Houve piora nos NPLs, especialmente em PMEs, com avanço dos atrasos entre 15 e 90 dias. No segmento de pessoas físicas, os NPLs acima de 90 dias subiram 40 pontos-base no trimestre.
O Safra vê possível relação com a extensão de períodos de baixa contábil, que levou a alta sequencial de 9% no portfólio renegociado. Ainda assim, mantém postura cautelosa diante do ambiente macro.
O Citi também apontou a qualidade dos ativos como desafio central, tanto em pessoas físicas quanto em empresas. A inadimplência segue em alta, as renegociações ganharam peso e as recuperações recuaram.
‘No geral, os resultados parecem mais estáveis em receitas e rentabilidade. Ainda assim, a postura cautelosa em um ambiente desafiador pode limitar novas expansões do ROE no curto prazo’, escreveram os analistas.