Brasil pode perder nota de crédito antes mesmo das eleições, avalia ASA
O Brasil não tem segurança de que conseguirá escapar de um eventual rebaixamento da sua nota de crédito até 2027, avalia Jefferson Bittencourt, head de Macroeconomia do ASA.
Para o economista, embora as agências de classificação de risco possam evitar mudanças de rating durante períodos eleitorais, não há garantia de que elas esperarão o fim das eleições brasileiras para revisar a avaliação sobre o país.
“Eu não tenho essa segurança de que as agências de rating segurariam até o próximo ano”, afirmou Bittencourt durante coletiva de imprensa do ASA nesta segunda-feira (4).
Atualmente o Brasil tem nota Ba1 pela Moody’s, BB pela S&P Global e BB pela Fitch, todas com perspectiva estável. Nenhuma das três classificações coloca o país no chamado grau de investimento, selo concedido a emissores considerados de menor risco de calote.
O grau de investimento é relevante porque amplia a base de investidores que podem comprar a dívida do país, especialmente fundos e instituições com restrições a ativos especulativos, além de contribuir para reduzir o prêmio de risco e, potencialmente, o custo de financiamento do governo.
A avaliação de Bittencourt contrasta com a percepção de parte do mercado de que uma eventual revisão negativa só ocorreria após as eleições de 2026. Bittencourt reconhece que existe uma dimensão política nas decisões das agências, que procuram evitar movimentos capazes de interferir diretamente em processos eleitorais, mas ressalta que isso não significa que o Brasil esteja protegido de uma revisão antes de 2027.
Segundo ele, as agências costumam espaçar suas decisões justamente para evitar que uma mudança de rating seja interpretada como uma interferência no processo político. Com isso, poderiam optar por aguardar alguns meses e apresentar sua avaliação depois das eleições.
“Não vamos esperar ali mais um, dois, três meses para acabar esse processo eleitoral e aí a gente dá o nosso veredito”, explicou, ao descrever a lógica que poderia levar as agências a postergar uma decisão.
O problema é que, na avaliação do ASA, a situação fiscal brasileira se deteriorou ao longo de 2026. Bittencourt afirma que o país continua apresentando pontos fortes reconhecidos pelas agências, como o elevado nível de reservas internacionais, a capacidade de financiar o balanço de pagamentos com investimento direto e a diversificação da economia e dos destinos das exportações.
A vulnerabilidade fiscal, porém, continua sendo o principal obstáculo para uma melhora da nota de crédito. E, segundo o economista, esse risco aumentou neste ano não apenas pelo lado fiscal tradicional, mas também pelas operações parafiscais.
“Essa vulnerabilidade aumentou ao longo desse ano. A gente teve […] aumento não só no fiscal, mas aumentou também no parafiscal”, afirmou.
Fiscal será decisivo para o rating
Um dos pontos de preocupação está nas operações de crédito realizadas pelo governo, que podem ter impacto limitado sobre o resultado primário, mas afetam o resultado nominal e a trajetória de endividamento. Bittencourt citou estimativas de R$ 140 bilhões a R$ 160 bilhões em operações desse tipo.
O economista também chamou atenção para a deterioração da dívida líquida do setor público, que, segundo ele, vem ocorrendo em ritmo mais rápido que a dívida bruta. A retomada de operações de crédito que geram ativos para a União, mas com baixa rentabilidade, contribui para esse movimento.
Para Bittencourt, portanto, o risco de rebaixamento não depende apenas de uma fotografia do resultado fiscal corrente, mas da percepção sobre a trajetória de solvência do país. É nesse ponto que o pacote de ajuste que o governo poderá apresentar no fim do ano ganha importância.
“Eu entendo que a reação mais rápida das agências pode também estar vinculada a esse pacote de medidas que pode ser anunciado no final do ano”, afirmou.
O conteúdo desse pacote será determinante, na avaliação do executivo. Um ajuste considerado tímido ou frustrante pode não ser suficiente para alterar a percepção das agências. Caso as medidas de contenção de gastos venham acompanhadas de decisões que aumentem a pressão sobre as contas públicas, o efeito sobre a credibilidade pode ser negativo.
Bittencourt citou como referência o pacote anunciado no fim de 2024. Na ocasião, as medidas de ajuste eram aguardadas pelo mercado, mas acabaram acompanhadas pela desoneração do Imposto de Renda, o que, segundo ele, “minou consideravelmente” a credibilidade da proposta e elevou o ruído em torno da política fiscal.
O mesmo risco poderia aparecer novamente caso o governo anuncie medidas de contenção e, ao mesmo tempo, avance com pautas que aumentem as despesas. O economista mencionou, por exemplo, mudanças em regimes de Previdência de determinados segmentos como um possível fator de frustração para o mercado.
A experiência de 2022 também serve de alerta. Bittencourt lembrou que, após a eleição daquele ano, foi aprovado o piso nacional da enfermagem, com custos fiscais relevantes. Para ele, medidas desse tipo mostram que a trajetória das contas públicas não termina com o anúncio de um pacote de ajuste e pode ser afetada por decisões tomadas posteriormente.
Nesse cenário, o timing das agências dependerá tanto do calendário eleitoral quanto da evolução concreta da política fiscal. Se o governo apresentar um pacote consistente, a pressão poderia ser reduzida. Caso contrário, uma deterioração adicional das contas ou medidas que comprometam a trajetória de solvência podem antecipar uma reação das agências.