Brasil precisa ajustar as contas antes da “tempestade” fiscal global, diz ASA
O Brasil precisa aproveitar o atual ambiente de maior tolerância dos mercados com a situação fiscal para ajustar as contas públicas antes que essa condição mude, avalia Jeferson Bittencourt, head de Macroeconomia do ASA.
Para o economista, uma eventual onda global de disciplina fiscal deixaria o país em uma posição mais vulnerável, já que o Brasil tem menos espaço para fazer ajustes do que outras economias. “É fundamental para o Brasil fazer o ajuste enquanto a tempestade não está vindo”, afirmou Bittencourt durante coletiva de imprensa do ASA, nesta segunda-feira (4).
Na avaliação do economista, o mundo vem sendo mais leniente com a situação fiscal desde a pandemia. Esse comportamento, porém, não é necessariamente permanente. Países podem começar individualmente a buscar uma melhora das contas públicas ou até mesmo coordenar esforços para reduzir déficits e recuperar espaço para enfrentar um cenário de juros elevados.
Bittencourt citou como exemplo os Estados Unidos, que possuem uma parcela maior de despesas discricionárias e, portanto, teriam mais margem para promover cortes.
Entre os países emergentes, o espaço de manobra também seria maior em alguns casos. Segundo o economista, economias com carga tributária inferior à brasileira ainda poderiam elevar a arrecadação para ajudar no processo de consolidação das contas.
“A gente tem países emergentes com uma carga tributária muito menor que a nossa, com espaço para criar, para aumentar a carga tributária e facilitar o ajuste”, disse.
O Brasil, por outro lado, enfrenta uma combinação mais difícil. A carga tributária elevada reduz o espaço para novos aumentos de impostos, enquanto o peso das despesas obrigatórias limita a capacidade do governo de compensar a falta de receitas por meio de cortes. Previdência, benefícios assistenciais e outras despesas vinculadas comprimem a parcela do orçamento sobre a qual o governo tem maior liberdade de decisão.
“O mundo em geral tem algum espaço melhor para fazer ajuste do que a gente”, afirmou Bittencourt.
É justamente essa diferença que preocupa o economista. Se outros países começarem a corrigir suas contas enquanto o Brasil permanecer em uma posição fiscal mais frágil, o esforço necessário para acompanhar o movimento será maior.
“Se todos os outros países decidem ‘não, agora a gente vai melhorar no fiscal’, o passo para a gente que a gente tem que dar é muito maior, porque a gente larga de uma posição muito pior”, disse.
A mudança no ambiente internacional poderia aparecer primeiro no mercado de câmbio. Bittencourt afirmou que o dólar funcionaria como um dos principais canais de transmissão de uma eventual redução da tolerância global com a situação fiscal. Com uma percepção maior de risco, o real poderia sofrer pressão justamente quando outras economias estivessem avançando em direção a uma maior disciplina das contas públicas.
“Se a gente tem, por exemplo, um processo de ajuste nos Estados Unidos, é razoável imaginar no mundo que, numa trajetória menos leniente com a situação fiscal, a gente vai ver o reflexo disso no Brasil via câmbio”, afirmou.
O economista considera possível que essa mudança aconteça tanto por decisões individuais dos países quanto por meio de discussões multilaterais. Bittencourt citou o G20 como exemplo de fórum em que governos já discutiram, no passado, a necessidade de uma postura fiscal mais forte para superar os efeitos de crises econômicas.
“A gente está sendo leniente desde a pandemia. Não seria desconectado da história a gente imaginar que em conjunto os países também discutiram ajuste fiscal”, afirmou.
Nesse cenário, o desafio brasileiro seria não esperar a mudança das condições externas para começar a reagir. Para Bittencourt, o país precisa utilizar o período de maior tolerância para reduzir sua vulnerabilidade e diminuir a distância em relação a outras economias.
“Por que é tão fundamental para o Brasil fazer o ajuste enquanto a tempestade não está vindo? Porque a gente precisa tirar uma diferença”, afirmou.