Carlos Lopes: Por que os economistas não gostam do Bitcoin?

Carlos Lopes
29/11/2021 - 16:30
Carlos Lopes, economista do BV
Ceticismo: maioria dos economistas não encontra sinais de credibilidade nas criptomoedas, lembra Lopes (Imagem: Divulgação/ BV)

As criptomoedas são uma realidade. Há tempos dominam uma grande parcela das notícias e conversas sobre investimentos. E o sistema financeiro tem acompanhado esse desenvolvimento. Por isso, cada dia mais, o investidor comum é inundado com ofertas e análises sobre o assunto na internet. Mas é difícil encontrar economistas que enxerguem tamanho valor nas criptomoedas, justamente por não encontrar nelas as características de uma moeda crível, e sim um ativo especulativo.

Há anos que Prêmios Nobel como Robert Shiller, Paul Krugman, Eric Maskin, Richard Thaler, Jean Tirole, entre muitos outros economistas de renome na academia, têm alertado para os perigos da euforia com o novo ativo. Particularmente sobre uma moeda digital que é muito pouco compreendida pelo público em geral, principalmente, pela complexidade da tecnologia envolvida. Embora a ciência do blockchain tenha aplicações interessantes em várias áreas, a criação de novas moedas privadas parece um mal uso dessa inovação.

Inovações vêm para solucionar algum problema, e o principal apelo das criptomoedas é a promessa libertária de possuir um ativo digital confiável, anônimo e que independe da regulação de terceiros, como governos e Bancos Centrais.

A confiabilidade é garantida pelo blockchain. A tecnologia garante que a transação aconteceu e é continuamente verificada e armazenada por um registro independente. Mas isso tem um custo. O processamento computacional necessário é imenso, razão pela qual apenas o Bitcoin consome aproximadamente 0,5% da produção de eletricidade global, mais que países como Holanda e Paquistão.

Regulação

E o Bitcoin, por exemplo, pode ser rastreado. Um estudo recente de pesquisadores do MIT e da LSE conclui que 80% do volume negociado de Bitcoin pode ser rastreado até suas respectivas corretoras. O Departamento de Justiça americano recuperou só no ano passado cerca de US$ 1 bilhão em bitcoins através de investigações. No entanto, o anonimato dificulta bastante esse rastreio. Cada comprador é identificado por um token, ou uma carteira denominada por uma sequência de números e letras. A identificação do usuário acaba sendo feita quando há a transação da criptomoeda para uma moeda usual, como o dólar.

Já a regulação ainda está no início, mas deve avançar bastante. Os principais Bancos Centrais têm estudado ações nessa área, inclusive o Banco Central do Brasil deve regular primeiramente os criptoativos como investimentos e, posteriormente, como meio de pagamento. Já há a obrigatoriedade de declaração e o pagamento de imposto sobre ganho de capital acima de certos valores, o que ajuda a elevar a transparência.

Mas nenhum desses tem sido o principal apelo das criptomoedas para o investidor comum, que tem investido com a esperança de ter grandes retornos como os que aconteceram nos últimos anos. Hoje, esses ativos não têm valor intrínseco e ainda não conseguem ser propriamente classificadas como moedas.

Desafios

A utilização como meio de pagamento tem desafios importantes. Uma transação de Bitcoin demora, em média, 10 minutos para ser confirmada e o custo médio de uma operação tem ficado em torno de US$ 2,5. O Ethereum, a segunda moeda mais negociada, tem custo de transação estimado em 50 dólares. Transacionar em reais, por exemplo, passou a ser gratuito e imediato com o PIX.

O uso como unidade de conta também tem sido limitado, já que poucos produtos têm preços definidos em criptomoedas. Por fim, sua função como reserva de valor é precária. Um ativo escasso, sem valor intrínseco e sem um agente que garanta sua estabilidade a longo prazo, como um Banco Central, sugere uma elevada volatilidade a longo prazo. A escassez por si só não gera riqueza, e dada a dificuldade de utilização desses ativos como moeda, o valor depende do quanto as pessoas acreditam ser um bom investimento.

Isso não significa necessariamente que o Bitcoin não deva ter valor algum ou que essas moedas não vão se conservar no tempo. O ouro mantém grande parte do seu valor por razões similares. Os avanços tecnológicos devem e vão trazer mais eficiência para o sistema financeiro. Por essa razão, os Bancos Centrais têm estudado a emissão das próprias moedas digitais. Mas a má alocação de recursos da sociedade em algo completamente especulativo tem e terá custos importantes.

Aviso: “Esse artigo não é recomendação de investimento.”

Carlos Lopes é economista no banco BV desde 2013 e já passou por instituições financeiras como Itaú BBA, Banco Fibra e WestLB. É formado pela Universidade de São Paulo e tem mestrado no Insper.

Última atualização por Márcio Juliboni - 29/11/2021 - 17:08

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