AgroTimes

China colocará o ‘pé no freio’ para compras de soja e carne do Brasil? Entenda o movimento e saiba o que dizem especialistas

10 jun 2026, 12:32 - atualizado em 10 jun 2026, 12:32
china soja brasil carne
(iStock.com/JJ Gouin)

Como se o agronegócio brasileiro já não enfrentasse uma espécie de “tempestade perfeita” — marcada por margens comprimidas, juros elevados, barreiras comerciais, fertilizantes mais caros para a próxima safra, casos de inadimplência e a chegada iminente do que especialistas chamam de “Super El Niño” —, um novo debate ganhou força: a possibilidade de a China reduzir suas compras do Brasil.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O país asiático, principal destino das exportações do agronegócio brasileiro, sinalizou em seu 15º Plano Quinquenal (2026-2030), divulgado em março, que pretende reduzir sua dependência das importações de alimentos.

A estratégia passa pelo fortalecimento da segurança alimentar, com aumento da produção doméstica de grãos como arroz e trigo, de culturas voltadas à alimentação animal — incluindo a soja —, além da expansão da produção de proteínas animais e da exploração de recursos florestais e oceânicos.

O movimento acendeu um sinal de alerta no setor. Desde 2000, as exportações brasileiras para a China cresceram cerca de 20% ao ano e já movimentam aproximadamente US$ 50 bilhões anuais. Atualmente, o Brasil responde por cerca de 60% da soja e 40% da carne bovina importadas pelos chineses.

Segundo o relatório China’s Food Future, elaborado pela consultoria global Systemiq, a China poderá reduzir em 25% — o equivalente a 23,5 milhões de toneladas — suas importações de soja até 2030. Em 2040, a queda chegaria a 30%. O estudo também projeta que entre 35% e 55% da demanda doméstica por proteínas animais será atendida por proteínas alternativas.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Para Marcos Jank, professor do Insper e coordenador do Insper Agro Global, o Plano Quinquenal prevê o aumento de 25 milhões de toneladas na produção chinesa de grãos, elevando o total para 725 milhões de toneladas.

Esse avanço está diretamente ligado à corrida tecnológica promovida pelo país, com destaque para a adoção de sementes transgênicas, especialmente em soja e milho. Segundo Jank, a produção chinesa de milho já alcançou cerca de 300 milhões de toneladas.

“As previsões feitas pela Systemiq consideram premissas relacionadas a outros setores da economia chinesa. Isso não está explicitamente no Plano Quinquenal. O país quer reduzir a dependência externa, mas não estabeleceu metas específicas. Além disso, a China enfrenta limitações importantes de terra arável e disponibilidade de água”, afirmou ao Money Times.

Outro obstáculo, na avaliação do especialista, é a estrutura da produção agrícola chinesa. O país conta com cerca de 180 milhões de pequenos produtores, o que pode dificultar a adoção em larga escala de novas tecnologias.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“Essa redução de 25% é difícil de acontecer. Nem sei se a China precisa fazer isso, já que possui um abastecimento estável vindo do Brasil, da Argentina e dos Estados Unidos, ainda que em menor escala por causa da guerra comercial. Eu não apostaria em uma redução drástica nos próximos cinco anos”, disse.

Redução de compras é cenário exagerado?

Na avaliação de Hsia Hua Sheng, vice-presidente do Bank of China (Brasil) e professor associado de finanças na FGV-EAESP, a projeção de uma queda de 25% nas compras chinesas de soja brasileira até 2030 é precipitada e exagerada.

Segundo o economista, a busca chinesa por maior segurança alimentar e autossuficiência está longe de ser uma novidade do 15º Plano Quinquenal. A diretriz aparece nos documentos estratégicos do país há pelo menos 15 anos e vem sendo reforçada sucessivamente pelos governos chineses.

Hsia destaca que a preocupação com a produção de alimentos tem raízes históricas. Ao longo das últimas décadas, a China enfrentou episódios de quebra de safra, escassez e dificuldades de abastecimento, tornando a segurança alimentar uma questão estratégica para o país.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“A segurança alimentar é prioridade na China, assim como em muitos outros países. Eles falam sobre isso há 15 ou 20 anos. A China certamente tem capacidade para avançar nesse objetivo, mas continuará precisando importar alimentos”, afirmou.

O economista ressalta ainda que o agronegócio brasileiro conhece há muito tempo os planos chineses de ampliar sua autossuficiência e vem se adaptando a essa realidade por meio da abertura de novos mercados, ganhos de produtividade e maior agregação de valor à cadeia produtiva.

“Não haverá uma ruptura. Não vejo motivo para que a cooperação entre China e Brasil deixe de existir. Não é algo alarmante. Se houver alguma redução, ela será gradual, e o Brasil já vem se preparando para isso ao diversificar seus mercados.”

Hsia reconhece, porém, que o setor atravessa um momento mais delicado.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Segundo ele, os conflitos geopolíticos recentes elevaram os custos de produção, principalmente de fertilizantes, insumos agrícolas, logística e crédito. Com margens mais apertadas, os produtores dependem cada vez mais do aumento de volume para sustentar a rentabilidade.

Nesse cenário, qualquer notícia que sugira uma eventual redução da demanda chinesa acaba gerando apreensão adicional entre os agentes do mercado.

Ainda assim, o economista avalia que a reação está mais ligada ao contexto econômico atual do agronegócio do que a uma mudança estrutural na política chinesa.

Biocombustíveis podem absorver parte da produção

Para Jank, caso a China realmente reduza suas compras de soja brasileira ao longo dos próximos anos, parte da produção poderá ser direcionada para a fabricação de biocombustíveis.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O especialista destaca que o aumento da demanda por biodiesel cria uma alternativa relevante para países agrícolas como Brasil e Índia.

“Já vemos o Brasil ampliando os percentuais de mistura dos biocombustíveis, e esse continuará sendo um caminho importante para nós. Mas essa não é uma solução global. A China prioriza a produção de alimentos e aposta fortemente em fontes renováveis, como energia solar e eólica, além da eletrificação dos transportes.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Compartilhar

WhatsAppTwitterLinkedinFacebookTelegram
Repórter
Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu. Atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por pouco mais de 3 anos no Canal Rural. Em 2024 e 2025, ficou entre os 100 jornalistas + Admirados da Imprensa do Agronegócio.
Linkedin
Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu. Atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por pouco mais de 3 anos no Canal Rural. Em 2024 e 2025, ficou entre os 100 jornalistas + Admirados da Imprensa do Agronegócio.
Linkedin
Quer ficar por dentro de tudo que acontece no mercado agro?

Editoria do Money Times traz tudo o que é mais importante para o setor de forma 100% gratuita

OBS: Ao clicar no botão você autoriza o Money Times a utilizar os dados fornecidos para encaminhar conteúdos informativos e publicitários.

Usamos cookies para guardar estatísticas de visitas, personalizar anúncios e melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossas políticas de cookies.

Fechar