China colocará o ‘pé no freio’ para compras de soja e carne do Brasil? Entenda o movimento e saiba o que dizem especialistas
Como se o agronegócio brasileiro já não enfrentasse uma espécie de “tempestade perfeita” — marcada por margens comprimidas, juros elevados, barreiras comerciais, fertilizantes mais caros para a próxima safra, casos de inadimplência e a chegada iminente do que especialistas chamam de “Super El Niño” —, um novo debate ganhou força: a possibilidade de a China reduzir suas compras do Brasil.
O país asiático, principal destino das exportações do agronegócio brasileiro, sinalizou em seu 15º Plano Quinquenal (2026-2030), divulgado em março, que pretende reduzir sua dependência das importações de alimentos.
A estratégia passa pelo fortalecimento da segurança alimentar, com aumento da produção doméstica de grãos como arroz e trigo, de culturas voltadas à alimentação animal — incluindo a soja —, além da expansão da produção de proteínas animais e da exploração de recursos florestais e oceânicos.
O movimento acendeu um sinal de alerta no setor. Desde 2000, as exportações brasileiras para a China cresceram cerca de 20% ao ano e já movimentam aproximadamente US$ 50 bilhões anuais. Atualmente, o Brasil responde por cerca de 60% da soja e 40% da carne bovina importadas pelos chineses.
Segundo o relatório China’s Food Future, elaborado pela consultoria global Systemiq, a China poderá reduzir em 25% — o equivalente a 23,5 milhões de toneladas — suas importações de soja até 2030. Em 2040, a queda chegaria a 30%. O estudo também projeta que entre 35% e 55% da demanda doméstica por proteínas animais será atendida por proteínas alternativas.
Para Marcos Jank, professor do Insper e coordenador do Insper Agro Global, o Plano Quinquenal prevê o aumento de 25 milhões de toneladas na produção chinesa de grãos, elevando o total para 725 milhões de toneladas.
Esse avanço está diretamente ligado à corrida tecnológica promovida pelo país, com destaque para a adoção de sementes transgênicas, especialmente em soja e milho. Segundo Jank, a produção chinesa de milho já alcançou cerca de 300 milhões de toneladas.
“As previsões feitas pela Systemiq consideram premissas relacionadas a outros setores da economia chinesa. Isso não está explicitamente no Plano Quinquenal. O país quer reduzir a dependência externa, mas não estabeleceu metas específicas. Além disso, a China enfrenta limitações importantes de terra arável e disponibilidade de água”, afirmou ao Money Times.
Outro obstáculo, na avaliação do especialista, é a estrutura da produção agrícola chinesa. O país conta com cerca de 180 milhões de pequenos produtores, o que pode dificultar a adoção em larga escala de novas tecnologias.
“Essa redução de 25% é difícil de acontecer. Nem sei se a China precisa fazer isso, já que possui um abastecimento estável vindo do Brasil, da Argentina e dos Estados Unidos, ainda que em menor escala por causa da guerra comercial. Eu não apostaria em uma redução drástica nos próximos cinco anos”, disse.
Redução de compras é cenário exagerado?
Na avaliação de Hsia Hua Sheng, vice-presidente do Bank of China (Brasil) e professor associado de finanças na FGV-EAESP, a projeção de uma queda de 25% nas compras chinesas de soja brasileira até 2030 é precipitada e exagerada.
Segundo o economista, a busca chinesa por maior segurança alimentar e autossuficiência está longe de ser uma novidade do 15º Plano Quinquenal. A diretriz aparece nos documentos estratégicos do país há pelo menos 15 anos e vem sendo reforçada sucessivamente pelos governos chineses.
Hsia destaca que a preocupação com a produção de alimentos tem raízes históricas. Ao longo das últimas décadas, a China enfrentou episódios de quebra de safra, escassez e dificuldades de abastecimento, tornando a segurança alimentar uma questão estratégica para o país.
“A segurança alimentar é prioridade na China, assim como em muitos outros países. Eles falam sobre isso há 15 ou 20 anos. A China certamente tem capacidade para avançar nesse objetivo, mas continuará precisando importar alimentos”, afirmou.
O economista ressalta ainda que o agronegócio brasileiro conhece há muito tempo os planos chineses de ampliar sua autossuficiência e vem se adaptando a essa realidade por meio da abertura de novos mercados, ganhos de produtividade e maior agregação de valor à cadeia produtiva.
“Não haverá uma ruptura. Não vejo motivo para que a cooperação entre China e Brasil deixe de existir. Não é algo alarmante. Se houver alguma redução, ela será gradual, e o Brasil já vem se preparando para isso ao diversificar seus mercados.”
Hsia reconhece, porém, que o setor atravessa um momento mais delicado.
Segundo ele, os conflitos geopolíticos recentes elevaram os custos de produção, principalmente de fertilizantes, insumos agrícolas, logística e crédito. Com margens mais apertadas, os produtores dependem cada vez mais do aumento de volume para sustentar a rentabilidade.
Nesse cenário, qualquer notícia que sugira uma eventual redução da demanda chinesa acaba gerando apreensão adicional entre os agentes do mercado.
Ainda assim, o economista avalia que a reação está mais ligada ao contexto econômico atual do agronegócio do que a uma mudança estrutural na política chinesa.
Biocombustíveis podem absorver parte da produção
Para Jank, caso a China realmente reduza suas compras de soja brasileira ao longo dos próximos anos, parte da produção poderá ser direcionada para a fabricação de biocombustíveis.
O especialista destaca que o aumento da demanda por biodiesel cria uma alternativa relevante para países agrícolas como Brasil e Índia.
“Já vemos o Brasil ampliando os percentuais de mistura dos biocombustíveis, e esse continuará sendo um caminho importante para nós. Mas essa não é uma solução global. A China prioriza a produção de alimentos e aposta fortemente em fontes renováveis, como energia solar e eólica, além da eletrificação dos transportes.