Trabalho

CLT ou PJ? Migração de 5,5 milhões de trabalhadores traz rombo previdenciário e pauta discussão no STF

19 jun 2026, 12:14 - atualizado em 19 jun 2026, 12:14
carteira de trabalho clt mt
Migração do regime com carteira de trabalho assinada para PJ pauta discussão (Imagem: iStock.com/FG Trade)

Entre 2022 e 2025 o Brasil registrou a migração de 5,5 milhões de profissionais com carteira assinada no regime da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) para o de prestador de serviços via pessoa jurídica (PJ), segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O movimento já pressiona a arrecadação do governo e a discussão sobre o tema chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF).

O avanço da chamada pejotização foi associado a um déficit previdenciário de R$ 61,42 bilhões e a uma perda de R$ 24,2 bilhões na arrecadação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) no período, segundo o governo e ampliou o debate sobre impacto fiscal e proteção social.

O tema motivou audiência pública no STF com 48 especialistas para discutir os efeitos da pejotização. O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, alertou para os riscos da expansão do modelo. O que está em jogo é o futuro do trabalho no Brasil. Os riscos da contratação por pessoas jurídicas afetam diretamente a proteção social, o FGTS e a Previdência”, afirmou.

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Dados da migração trabalhista

O comportamento do mercado acompanha a transição entre regimes. Levantamento da plataforma Catho indica que as vagas CLT para profissionais PJ cresceram 19% no primeiro trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025, de 11.531 para 13.751 anúncios.

Ao mesmo tempo, o regime CLT ainda mantém maior volume absoluto. Dados do InfoJobs/Redarbor apontam alta de 16% nas vagas formais, com mais de 530 mil postos abertos. A pesquisa também mostra que 56% dos profissionais PJ afirmam desejar retorno à carteira assinada, de olho na estabilidade como principal fator.

A divisão entre os dois regimes varia de forma significativa conforme o setor da economia. Na tecnologia da informação, o modelo PJ domina 90,3% dos profissionais. Os salários para desenvolvedores variam entre R$ 8 mil e R$ 15 mil por mês.

Na comunicação e no marketing, a presença do PJ avançou de 49% das vagas, em 2021, para 68% em 2026. Na saúde e no setor jurídico, médicos plantonistas, psicólogos, engenheiros civis e advogados também recorrem amplamente ao CNPJ em contratos específicos, com rendimentos entre R$ 5 mil e R$ 25 mil.

Já a CLT segue predominante em setores estruturais como varejo, comércio, logística, serviços administrativos, transporte público, limpeza urbana e construção civil.

A oferta de vagas mantém concentração no Sudeste e no Sul do país. São Paulo lidera com mais de 290 mil vagas CLT e 15 mil vagas PJ. Em seguida aparecem Rio Grande do Sul, com 47 mil vagas CLT e 2,5 mil PJ, e Minas Gerais, com 37 mil CLT e 1,7 mil PJ.

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A diferença entre os regimes

No regime CLT, os descontos são feitos diretamente na folha, incluindo impostos com alíquotas que chegam a 27,5%. O trabalhador tem direito a décimo terceiro salário, férias remuneradas com adicional de um terço, seguro-desemprego e o FGTS de 8%. A partir de 2026, rendimentos de até R$ 5.000 mensais passaram a ter isenção de Imposto de Renda (IR).

Já no modelo PJ, o profissional atua como empresa e paga tributos entre 6% e 15% pelo Simples Nacional, sobre a receita bruta. Os custos de manutenção do CNPJ, como contador e outras taxas, ficam sob responsabilidade do trabalhador. Benefícios dependem de negociação contratual. Para equivaler a renda líquida da CLT, a remuneração PJ precisa ser entre 30% e 50% maior.

Judicialização do trabalho

A fronteira entre contratação legítima de PJ e fraude trabalhista é alvo de análise nos tribunais. A pejotização é considerada irregular quando há subordinação hierárquica, jornada fixa, pessoalidade e salário fixo, critérios previstos no artigo 3º da CLT.

A jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho (TST) mantém entendimento de que a existência de CNPJ não elimina vínculo empregatício quando há subordinação comprovada.

O tema também tem posicionamentos divergentes entre as instituições. O Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, emitiu parecer favorável à constitucionalidade dos contratos PJ. Já o STF suspendeu nacionalmente processos relacionados ao tema até o julgamento do Tema 1.389, que vai definir a regra geral sobre o modelo no País.

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*Sob orientação de Gustavo Porto

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Amanda Cristina de Souza é estudante de jornalismo no IESB. Ela atua como estagiária em um núcleo de conteúdo mantido pelo Money Times, em Brasília (DF), em parceria com outros veículos de informação.
Amanda Cristina de Souza é estudante de jornalismo no IESB. Ela atua como estagiária em um núcleo de conteúdo mantido pelo Money Times, em Brasília (DF), em parceria com outros veículos de informação.
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