Como guerra no Irã e alta do petróleo impactam Copom hoje? Veja projeções das principais casas
O que era dado como praticamente certo já não é mais consenso no mercado. Até poucas semanas atrás, a expectativa dominante era de que o Comitê de Política Monetária (Copom) iniciaria o ciclo de cortes neste mês com uma redução de 0,50 ponto percentual na taxa Selic. Agora, o cenário mudou de forma relevante: a aposta majoritária migrou para um corte mais tímido, de 0,25 ponto percentual, levando a taxa a 14,75% ao ano.
Há ainda quem vá além. Diante da piora recente no ambiente macroeconômico, algumas casas já não descartam sequer a manutenção dos juros no patamar atual, em 15% ao ano, adiando o início da flexibilização monetária.
Essa virada de humor não aconteceu por acaso, e tem nome e sobrenome: inflação e cenário global.
Relatórios recentes indicam que o pano de fundo para a decisão do Banco Central se deteriorou desde a última reunião. A XP Investimentos, por exemplo, afirma que “o fluxo de dados e notícias desde a última reunião do Copom piorou o cenário para a inflação”.
Os economistas da XP sinalizam que, apesar de o comitê ter sinalizado que poderia dar início ao ciclo de flexibilização monetária, o panorama atual não é o “cenário esperado” para que o movimento se concretize.
Um dos principais vetores dessa mudança é a guerra no Oriente Médio, que fez o preço do petróleo disparar. Segundo a casa, enquanto o BC trabalhava com preços ao redor de US$ 60 por barril, a commodity voltou a se aproximar dos US$ 100, elevando significativamente as projeções de inflação no horizonte.
O UBS BB também chama atenção para o ambiente externo mais instável, destacando que “o aumento das incertezas no cenário internacional e o recrudescimento de tensões geopolíticas […] tornaram o ambiente para a atuação dos bancos centrais mais complexo”.
Além do choque externo, o cenário doméstico também contribui para a cautela. A economia brasileira segue resiliente, com mercado de trabalho aquecido e avanço da renda real, o que sustenta a demanda interna. Para a XP, esse movimento já aparece nos dados recentes, com indicação de aceleração da atividade no início de 2026.
Ao mesmo tempo, a inflação segue longe de um conforto pleno. O UBS ressalta que “a inflação de serviços permaneceu mais elevada e com desinflação apenas gradual”, refletindo uma dinâmica ainda pressionada nos componentes mais persistentes.
O que importa: a inflação de 2027
Mais do que a decisão desta quarta-feira (18), o mercado deve voltar os olhos para um ponto específico da comunicação do Banco Central: as projeções de inflação, especialmente para 2027.
Esse horizonte é considerado o mais relevante para a política monetária e funciona como uma espécie de bússola do Copom. É ali que o BC sinaliza se acredita, de fato, na convergência da inflação para a meta. Qualquer revisão nesse número pode mudar completamente a leitura da decisão.
O Itaú BBA já trabalha com esse cenário de mudança. Segundo o banco, considerando o câmbio ao redor de R$ 5,20 e o petróleo próximo de US$ 85 por barril, a projeção de inflação para o horizonte relevante (3T27) deve subir de 3,2% para 3,4%.
Na avaliação da casa, “essa piora não inviabiliza o início da flexibilização”, mas deixa o cenário no limite do que seria confortável, o que reforça a expectativa de um corte mais comedido — no caso, de 0,25 ponto percentual.
Outras leituras caminham na mesma direção. O UBS destaca que “diferentes medidas de núcleo e, sobretudo, os serviços subjacentes continuam apresentando ritmo elevado”, o que sugere uma convergência mais lenta da inflação.
Já a XP observa que “as expectativas inflacionárias se estabilizaram acima da meta de 3,0%”, indicando que a ancoragem ainda não está totalmente consolidada.
Na prática, o mercado quer entender se o Banco Central continua confortável com a trajetória da inflação no médio prazo, ou se os recentes choques, como a alta do petróleo, já começam a contaminar esse cenário.
Se a projeção de 2027 subir, mesmo que marginalmente, o recado tende a ser de que o espaço para cortes de juros pode ser menor do que o esperado.
BC pode ignorar o próprio “forward guidance”
Outro ponto central da decisão será a comunicação do Copom, especialmente após o uso recente de forward guidance – ferramenta que, desde a entrada de Gabriel Galípolo, atual presidente do BC, não está sendo muito utilizada.
Em teoria, esse instrumento ajuda a sinalizar os próximos passos da política monetária e também serve, mesmo que de forma empírica, para dar mais confiança ao BC. Na prática, porém, o cenário atual pode exigir justamente o oposto: menos compromisso e mais flexibilidade.
O UBS chama atenção para esse risco ao afirmar que, em momentos de maior incerteza, “compromissos antecipados sobre a trajetória futura dos juros podem limitar desnecessariamente a flexibilidade da política monetária”.
A leitura do BBA vai na mesma linha. Para a entidade, o Banco Central deve reforçar que o momento exige “cautela e serenidade na implementação da estratégia”, deixando claro que o ritmo e a magnitude do ciclo dependerão da evolução dos choques inflacionários.
Diante desse quadro, os analistas avaliam que o Banco Central deve evitar se prender a um roteiro pré-definido e reforçar uma comunicação baseada em “dependência de dados”.
No fim, a mensagem implícita deve ser de que o Copom até pode começar a cortar os juros, mas não está disposto a apostar o controle da inflação em um cenário ainda tão instável.
Vejas as principais apostas para a reunião do Copom desta quarta-feira (18)
| Casa | Corte março |
|---|---|
| XP Investimentos | manutenção |
| Genial Investimentos | 0,50 p.p |
| Citi | 0,25 p.p |
| BB Investimentos | 0,50 p.p |
| BTG Pactual | 0,25 p.p |
| Ágora Investimentos | 0,50 p.p |
| Santander | 0,25 p.p |
| Bradesco BBI | 0,50 p.p |
| Itaú BBA | 0,25 p.p |
| UBS BB | 0,25 p.p |
| JP Morgan | 0,25 p.p |
| BofA | 0,25 p.p |
| Goldman Sachs | 0,25 p.p |
| Warren | 0,50 p.p |
| C6 Bank | 0,25 p.p |
| Inter | 0,25 p.p |
| Safra | 0,25 p.p |
| Asa | 0,25 p.p |