Cotações por TradingView
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Como os criptoativos vão modelar o futuro da geopolítica?

08/12/2019 - 15:00
Traduzido e editado por Daniela Pereira do Nascimento
Quando a China lançar seu yuan digital, será esse o maior mercado de criptoativos? (Imagem: Brave New Coin)

O estado de reserva global do dólar norte-americano está se tornando precário por conta de superpotências como China, Rússia e Europa estarem competindo por alternativas ao sistema SWIFT e acordos comerciais.

A China está se aproveitando da tecnologia de blockchain e está próxima de lançar um criptoativo que vai ser integrado à vigilância nacional. Seria esse o maior mercado para as moedas privadas?

Assim como petróleo e urânio terem sido usado como ferramentas há anos na geopolítica, os criptoativos nacionais e o blockchain vão servir na futura corrida armamentista para a próxima moeda de reserva global.

O desenvolvimento chinês de um yuan digital, junto com o desejo de criar uma moeda de reserva global alternativa ao dólar, sugere que o futuro da tecnologia de blockchain vai ter um papel na rivalidade entre as superpotências.

Claude Juncker, presidente do Banco Central Europeu, externalizou sua frustração com a condição atual:

“É um absurdo que a Europa pague por 80% de sua conta de energia importada (equivalente a € 300 bilhões por ano) em dólares quando apenas 2% de nossas importações energéticas vêm dos Estados Unidos. É absurdo, ridículo que as empresas europeias comprem aviões europeus em dólares em vez de em euro. Isso tudo precisa mudar.”

Países tentam contornar as sanções impostas pelos EUA ao optar os alternativas baseadas nos criptoativos (Imagem: More Than Shipping)

Guerras comerciais e tarifas

A hegemonia norte-americana nos mercados globais monetários, de dívida e de commodities está chegando a um ponto crítico já que a unidade de acordo de solução universal (em termos de EUA e dólar) leva os países a sanções indesejadas com parceiros comerciais que estão na lista negra do presidente Trump.

As guerras comerciais recentes dos EUA com a Rússia, Turquia, China, Venezuela, Irã, entre outros, gerou revolta contra os sistemas de dominação americanos como a rede SWIFT e o sistema “petrodólar”.

Além disso, destacam a necessidade de uma criptomoeda como o bitcoin como uma unidade de acordo internacional e agnóstica, que não tenha relação com os interesses de uma economia com um monopólio no comércio global.

Não é coincidência que a China se tornou o mais produtor/minerador de criptoativos e, apesar de a negociação e o uso serem formalmente ilegais, acelerou a pesquisa do governo sobre os criptoativos em relação a qualquer outro país.

Agora, o Laboratório de Pesquisa de Criptomoedas do Banco do Povo da China está expandindo seus centros de pesquisa para além de Pequim.

Rússia também está trabalhando ostensivamente com a tecnologia de blockchain com Sergei Glazyev, conselheiro econômico do presidente Putin. Ele esteve em conferências de blockchain ao redor do mundo e já se encontrou com o fundador da corretora chinesa de criptoativos Huobi.

Atualmente, o dólar não é mais sustentável como reserva mundial; criptoativos são a lacuna para esse sistema (Imagem: Pixabay)

A nova corrida armamentista para uma moeda de reserva global

A China está bem insatisfeita com o estado de reserva do dólar, que se mantém desde 1944, e pede ao FMI que faça uma reformulação do sistema comercial internacional há anos.

Em 2009, com o surgimento da crise financeira global, o então governador do Banco do Povo da China, Dr. Zhou Xiaochuan, nomeou o dólar como a raíz da crise econômica em seu discurso, intitulado “A Reforma do Sistema Monetário Internacional”:

“O objetivo desejável de reformular o sistema monetário internacional é, portanto, para criar uma moeda de reserva internacional que seja desligada de nações individuais e se mantenha estável a longo prazo, assim removendo as deficiências inerentes causadas ao usar moedas nacionais baseadas em crédito.”

Ele diz que o critério principal de uma moeda de reserva deveria ser:

1. ancorada a um índice de referência estável e emitida de acordo com um conjunto evidente de regras;

2. oferta deve ser flexíveis para permitir o ajuste para alteração de demanda;

3. deve ser desligada de condições econômicas e de interesses soberanos de qualquer país.

Também existem funções principais do bitcoin e de diversos outros projetos de stablecoins, incluindo Basis, o “banco central algorítmico”, e Saga, uma stablecoin fixada à cesta de direitos especiais de saque (XDR, na sigla em inglês) do FMI com as principais moedas.

China anunciou a expansão do uso dos XDRs para o comércio internacional e até para usá-lo como uma moeda de reserva global

O “Dilema de Triffin”, termo criado pelo economista Robert Triffin em 1959, foi uma substituição ao sistema de Bretton Woods, que afirma que a adesão de uma moeda de reserva gera um paradoxo, pois é impossível ter fontes baratas de capital e balanços comerciais positivos ao mesmo tempo; um não ocorre junto com o outro (Imagem: IMF)

Um “Bancor” Digital: solucionando o Dilema de Triffin

Na década de 1960, o economista Robert Triffin descreveu o conflito inerente de interesse que surgiu entre as políticas monetárias doméstica dos países, cuja moeda é a reserva global, e a demanda externa por suas moedas como reserva, conhecido como Dilema de Triffin.

Isso levou a uma dicotomia nas políticas monetárias norte-americanas nacionais e globais, já que alguns objetivos necessitam de uma entrada de dólares enquanto outros necessitam de uma saída.

Na década de 1940, o economista John Maynard Keynes antecipou esse dilema e propôs uma unidade de reserva supranacional de conta chamada “Bancor”, um tipo de precursor aos XDRs do FMI.

Apesar de não ser tecnicamente uma moeda, serviu como uma unidade de conta no comércio internacional que poderia ser estabelecida em um sistema multilateral, para ser chamada de União Transparente Internacional, um sistema distribuído.

Em seu discurso de 2009, Zhou Xiaochuan pediu pela “criação de uma unidade de moeda internacional, baseada na proposta keynesiana, uma iniciativa corajosa que requer uma visão política extraordinária e coragem”, apesar de ele também ter afirmado que “o reestabelecimento de uma moeda de reserva nova e amplamente aceitável, com uma referência de valoração estável, vai demorar muito tempo”.

A Iniciativa Cinturão e Rota foi criada a fim de transformar a conectividade entre Ásia, Europa e África, em uma promessa de remodelar as cadeias de fornecimento mundiais e fornecer compreensão contínua sobre oportunidades significativas (Imagem: ACCA Global)

Projeto chinês “Cinturão e Rota” expande seu alcance

Logo após a desafixação do padrão de ouro em 1971, os EUA chegaram a um acordo com a Arábia Saudita, e agora as nações da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) para denominar seu comércio de petróleo em dólares, criando o “petrodólar” e efetivamente apoiando a “verdinha” com reservas de petróleo em países estrangeiros.

Como uma moeda de reserva global, os EUA aproveitaram o “privilégio exorbitante” de serviço de dívida em sua própria moeda, e que podem imprimi-la para tal fim, permitindo que execute grandes déficits e dívidas comerciais sem risco de predefinição.

Esse contexto está sendo desafiado pelo projeto chinês “Um Cinturão, uma Rota” — modernas rotas marítimas e terrestres de “seda” para assegurar os recursos junto com antigas rotas comerciais da China à Europa Ocidental.

Amplamente financiado pela China, espera-se que as nações associadas à iniciativa Cinturão e Rota vai gerar 80% do PIB mundial até 2050.

China é a maior importadora de petróleo do mundo e parte de sua estratégia da iniciativa é tanto de assegurar o petróleo como expandir o uso de sua moeda globalmente.

China deu um grande passo nessa direção ao emitir os primeiros contratos de futuro de petróleo denominados em yuan na corretora de Shanghai, a primeira adversária de futuros de petróleo do “petrodólar”.

No momento, parece que o “petroyuan” está bem distante de usurpar o “petrodólar”, mas já é uma alternativa para os países na lista negra dos EUA, como Rússia e Irã, negociarem seu petróleo, e esses são dois países importantes na Iniciativa Cinturão e Rota da China.

Irã e Rússia têm um histórico longo e turbulento com os EUA, e o Ocidente em geral. Ambos estão mais alinhados com as políticas chinesas, então eles preferem ver o centro global de poder voltar para o Ocidente.

A emissão do “petroyuan” é o primeiro empenho de outro país em destronar o monopólio norte-americano no mercado petrolífero nos últimos 46 anos. No futuro, é bem possível que petróleo vai perder seu estado como a unidade de produtividade econômica e o dólar vai perder seu estado de moeda de reserva global.

A tecnologia de blockchain/criptoativos permite que os países contornem as sanções norte-americanas em vez de ter que usar o sistema interbancário mundial SWIFT, denominada pelo dólar americano (Imagem: ihodl)

Evitando a rede SWIFT: União Europeia, China e Rússia

Alemanha e França estão trabalhando para criar um novo mercado de transferência interbancário europeu fora da rede global SWIFT, denominada pelo dólar americano, para evitar sofrerem sanções dos EUA com parceiros de comércio com os quais não possuem embargo.

SWIFT, Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Globais, é uma rede denominada em dólar, a qual o governo americano têm acesso especial a dados e direito de veto.

China e Rússia também anunciaram uma nova rede de comércio internacional como uma alternativa à SWIFT, que usa o rublo e o yuan em acordos comerciais.

Na Europa, por conta da Alemanha e França, uma nova rede comercial está sendo criada para evitar a influência norte-americana. Claude Juncker, presidente da União Europeia, afirmou:

“Os acontecimentos recentes trouxeram à tona a necessidade de aprofundamento de nossa união econômica e monetária e de construção de mercados de capital profundos e líquidos. A Comissão fez uma série de propostas para tal, que agora esperam por adesão.”

Ripple
Ripple é uma adversária direta da rede SWIFT e promete desbancar a dominância do dólar americano no Ocidente (Imagem: Pixabay)

Hoje, alguns criptoativos estão prontos para preencher essa lacuna. Ripple se considera em competição direta com SWIFT e está estendendo uma rede bancária global impressionante e focando no Ocidente.

Já que as superpotências (EUA, Rússia e China) estão competindo para ser a próxima moeda de reserva mundial, e nenhuma quer ceder, uma unidade neutra e descentralizada de comércio como o bitcoin é uma solução já pronta.

Um yuan digital baseado em ouro

Há não muito tempo, a proposta da China em emitir um “criptoyuan” parecia conspiratória, mas agora é iminente. Para dar credibilidade nos mercados, deve ser apoiado por um ativo subjacente com o ouro. Junto com a Rússia, os chineses vêm comprando grandes quantidades de ouro nos últimos anos.

Padrões comerciais nos mercados de ouro em dólar e yuan também foram bem diferentes nos últimos dois anos, em que o preço de ação do yuan parece ter sido por conta de um grande comprador, fornecendo um forte preço-base de cerca de 8,2 mil.

Bitcoin China
Por conta da supervigilância do governo chinês, pode ser que a adesão de uma criptomoeda seja algo inovador, mas restritivo para a população (Imagem: REUTERS/Dado Ruvic/Ilustração)

Moedas privadas e a luta por anonimidade na China

A preocupação do governo chinês com a vigilância de capital e de cidadãos aumentou constantemente em seu empenho de criar um sistema de créditos social que rastreia cidadãos em condutas sociais e financeiras e dá uma pontuação em relação a credibilidade e comportamento, que podem afetar sua capacidade de conseguir empréstimos.

O sistema usa reconhecimento facial para monitorar os cidadãos por meio de câmeras de vigilância e de trânsito, aplicativos de celulares e redes sociais, para que qualquer comportamento “ilegal” seja registrado e acrescentado à identidade social de uma pessoa.

Fora a proibição nacional de negociação de criptoativos, o governo continua a restringir a tecnologia de blockchain.

O país requer que todos os serviços de blockchain armazenem e forneçam os detalhes de seus clientes ao regulador de internet, enfraquecendo a doutrina principal da anonimidade cripto Isso é uma extensão de uma regra já implementada, em que plataformas de dinheiro digital como WeChat Pay necessitam de um número de identificação nacional na hora do cadastramento.

Os cidadãos chineses encontraram diversas formas de evitar os controles de capital do governo, afuniladas em mercados mobiliários na Austrália, Canadá e Nova Zelândia, e a China é possivelmente um grande mercado para criptoativos com foco em privacidade, como Monero e Zcash, como uma alternativa aos cidadãos de manterem sua renda privada.

Mercados de commodities usam uma variante do bitcoin como reserva de valor, já que o valor cobrado em dólares é muito acima do aceitável (Imagem: Pixabay)

Mercados emergentes usando bitcoin como commodity de energia

Apesar de muitos terem zombado da tentativa da Venezuela em emitir sua criptomoeda de petróleo, a ideia de países exportadores de commodity criarem sua própria versão do “petrodólar” está se tornando uma realidade.

Irã reconheceu a mineração de criptoativos como uma indústria oficial a ser vista pelo Banco Central Iraniano e existe especulação que o governo vai emitir um criptoativo estatal para evitar sanções dos EUA.

O que podemos ver é a conversão de uma commodity de energia em outra (petróleo para bitcoin) em uma nova commodity sem fricção, que seja mais transferível e bem mais fungível do que petróleo e ouro.

Pode-se dizer que a China tem feito a mesma coisa há anos, minerando criptoativos com o excedente de seu carvão e energia hidrelétrica.

Com os embargos comerciais e sanções dos EUA se tornando equivalentes ao curso das economias emergentes, a maioria dos países exportadores de petróleo estão reduzindo sua dependência de petróleo.

O fundo soberano da Arábia Saudita é um grande acionista na Tesla e possui uma parceria de US$ 200 bilhões com o Softbank japonês para construir o maior campo solar do mundo.

Quando for finalizado em 2030, o reinado espera ter uma capacidade de energia solar de 200 gigawatts, triplicando a capacidade energética total do Reino Unido.

“Você nunca viu algo numa escala tão grande”, disse o príncipe Saudita Mohammed bin Salman.

O destronamento dos EUA com outra moeda fiduciária de reserva global não é algo simples e requer liquidez profunda e uma grande mudança na infraestrutura.

Além disso, não existe um verdadeiro concorrente das fiduciárias.

O euro é uma união oscilando ao colapso, a libra esterlina não é mais a reserva global, o yen ainda está se recuperando de décadas de deflação e falta transparência e conversibilidade do rublo russo e do yuan chinês de moedas “democráticas”.

Com a aproximação da emissão de um yuan digital pelo Banco do Povo da China, enquanto possui a maior reserva de ouro, um yuan digital apoiado por ouro tem uma boa chance.

Por outro lado, já que o petróleo está deixando de ser um importante direcionador da atividade econômica em uma economia de energia renovável da Internet das Coisas, e por conta do ressurgimento de uma moeda supranacional como o XDR e Bancor, uma criptomoeda que substitua o dólar como a unidade padrão para commodities de preço com um “eletrodólar” poderia ser a solução mais neutra a fim de evitar confronto.

E, de fato, essa criptomoeda substitutiva já está aqui: bitcoin.

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Última atualização por Daniela Pereira do Nascimento - 31/05/2020 - 15:29