Conflito no Irã: Bloqueio do Estreito de Ormuz por 40 dias pode gerar escassez global de petróleo
O preço do petróleo deve continuar volátil e oscilar entre US$ 80 e US$ 100 por barril após o ataque dos Estados Unidos ao Irã e a consequente retaliação, afirma o sócio da Leggio Consultoria, Marcus D’Elia.
Segundo ele, o comportamento das cotações dependerá do tempo em que o Estreito de Ormuz permanecer fechado. Caso o bloqueio dure mais de 40 dias, há risco de escassez global da commodity.
“O atual conflito impacta diretamente o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 15% das exportações mundiais de petróleo. Desse volume, aproximadamente 80% segue para a Ásia, principalmente China, Índia, Japão e Coreia do Sul. Com as ameaças do governo iraniano de atacar navios que transitarem pela região, petroleiras já suspenderam a navegação no trecho”, explica D’Elia.
Segundo o especialista, o estreito pode ser totalmente fechado em caso de uso de minas submarinas, cuja remoção exige tempo prolongado para restabelecer a navegação. Outra possibilidade é a restrição operacional, caso o risco elevado aumente os custos de seguro e frete, reduzindo o interesse dos armadores em realizar o transporte.
“O impacto pode variar significativamente conforme o período em que a passagem permanecer interrompida”, afirma.
Cenários para o petróleo
Em um cenário de interrupção curta, de até 10 dias, o preço do barril pode subir temporariamente e atingir US$ 100. Cerca de 35% do volume que passa pelo estreito é destinado ao abastecimento asiático, mas os estoques estratégicos na China, no Japão e na Coreia do Sul equivalem a entre 100 e 200 dias de importações, o que permitiria atravessar esse período.
A situação da Índia é mais delicada, já que o país possui reservas para cerca de 60 dias.
“Se a interrupção se estender por até 40 dias, regiões como Estados Unidos e União Europeia também poderiam recorrer aos estoques, reduzindo a pressão sobre a demanda e limitando a alta dos preços. Ainda assim, a volatilidade deve aumentar, com cotações ao redor de US$ 100”, afirma.
O pior cenário — e também o menos provável — seria a indefinição sobre a reabertura do Estreito de Ormuz por mais de 40 dias, o que poderia provocar uma escassez estrutural de petróleo no mundo. Nesse caso, os estoques estratégicos não seriam suficientes para estabilizar o mercado, já que cerca de 15% da produção global depende da rota.
“É até difícil mensurar o que poderia acontecer”, diz D’Elia.
O especialista também avalia que não há capacidade ociosa suficiente para que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) compense uma eventual perda de oferta.
“Os principais produtores — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Irã — são diretamente afetados pelo Estreito de Ormuz. Além disso, outros países produzem menos e não têm agilidade para repor cerca de 15 milhões de barris por dia. Para se ter uma ideia, uma unidade de grande porte produz entre 150 mil e 200 mil barris diários”, conclui.