Entrevista

‘Continuará ruim’: como vitória de Lula e fuga de Flávio impactam relação Brasil-EUA, para a Eurasia

29 out 2026, 7:00
Julia Thomson, analista política da Eurasia Group
Julia Thomson, analista política da Eurasia Group (Foto: Divulgação/Eurasia Group)

A fuga de Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos, após a derrota do candidato nas urnas no último domingo (25), trouxe de volta à mesa dos investidores o temor de novos atritos político-econômicos na relação já fragilizada entre Brasil e o governo de Donald Trump.

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Para a cientista política Julia Thomson, da consultoria Eurasia Group, existe o risco de os EUA de fato “não aceitarem bem o resultado eleitoral”.

O silêncio do presidente norte-americano sobre a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durou cerca de 24 horas e, quando comentou o resultado, o chefe da Casa Branca afirmou que “pareceu mais uma eleição fraudada”. Washington, por sua vez, ainda não se manifestou oficialmente sobre o pleito.

Na visão da analista da Eurasia, o “silêncio” demorado de Trump já era esperado, ainda que o republicano venha “dando sinais de que quer deixar a porta aberta para diálogo com Lula”.

Para ela, pouca coisa deve mudar na diplomacia entre Brasília e Washington e a tendência é de acomodação das relações bilaterais, em um patamar mais desfavorável ao Brasil e “conturbada” com as tarifas já impostas sobre os produtos brasileiros.

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“A relação continuará ruim. Podemos ter alguns ruídos iniciais, mas não espero necessariamente uma escalada prolongada, com novas medidas, sanções e ações contra o Brasil.”

Sem acordo tarifário no horizonte

Na avaliação de Julia, não há, neste momento, um caminho para um acordo entre Trump e Lula que resulte em redução das tarifas.

“Existe um nível muito elevado de desconfiança do governo brasileiro em relação aos EUA, o que dificultaria a realização das concessões necessárias para um entendimento comercial”, afirma.

Assim, mesmo que haja conversas entre os presidentes, a Eurasia não considera que isso necessariamente resultará em uma solução para as disputas comerciais.

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“A tendência é de acomodação em um patamar desfavorável, semelhante ao atual. As tarifas devem continuar, assim como as sanções contra o ministro do Supremo [Alexandre de Moraes] e as restrições de vistos impostas a integrantes do governo brasileiro”, afirmou a analista.

A mesma dificuldade, na visão dela, se aplica a um possível acordo no setor de minerais críticos. “O governo brasileiro também acredita que pode avançar diplomaticamente nas relações com outros países, o que reduz a necessidade de fazer concessões aos norte-americanos.”

Mais um ponto de incerteza

Outro principal ponto de incerteza nas relações entre Brasil e EUA é a representação diplomática.

Os EUA estão sem embaixador no Brasil, e ainda não está claro se o governo brasileiro aceitará a indicação de Daniel Perez. Do lado de lá, a situação da embaixadora brasileira Maria Luiza Ribeiro Viotti em Washington precisaria ser regularizada.

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Na última terça-feira (27), o governo brasileiro retomou a análise dos pedidos de autorização, agrément, para que novos embaixadores estrangeiros assumam seus postos no país.

No caso de Perez, o governo discute qual tipo de visto será concedido ao diplomata, considerando as condições impostas pelo governo Trump à embaixadora Maria Viotti. O Brasil também pode lançar mão do princípio de reciprocidade e conceder um visto de única entrada do embaixador norte-americano no país.

“Trump, porém, costuma surpreender, tanto positiva quanto negativamente, na relação com o Brasil. Não descarto a possibilidade de uma ligação entre os presidentes ou de um encontro bilateral que permita resolver alguns desses impasses, como a questão dos embaixadores”, destaca Julia Thomson.

A analista também considera que Trump deve concentrar as atenções para a sua agenda internacional após as eleições de meio-mandato, que acontecem na próxima semana.

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“O foco da política externa norte-americana na América Latina pode se deslocar para Cuba, dependendo também dos desdobramentos envolvendo o Irã”, avalia. “Ainda há cerca de dois anos de governo Trump pela frente, e depois haverá novas eleições nos Estados Unidos, o que poderá mudar novamente o cenário.”

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Repórter
Jornalista formada pela PUC-SP, com especialização em Finanças e Economia pela FGV. É repórter de Mercados no Money Times e já passou pela redação do Seu Dinheiro e setor de análise política da XP Investimentos.
Jornalista formada pela PUC-SP, com especialização em Finanças e Economia pela FGV. É repórter de Mercados no Money Times e já passou pela redação do Seu Dinheiro e setor de análise política da XP Investimentos.

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