‘É difícil ir contra a maré’: juros globais podem frear cortes da Selic, diz Santander
“É difícil um país emergente sustentar por muito tempo um ciclo de cortes de juros enquanto as principais economias desenvolvidas caminham na direção contrária. É difícil ir contra a maré”, avalia Marco Antonio Caruso, economista e chefe de política monetária do Santander Brasil, ao comentar a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de quarta-feira (5).
Segundo Caruso, o ambiente internacional – citado no primeiro parágrafo do comunicado – ganhou peso porque as curvas de juros das economias desenvolvidas têm mostrado pressão de alta, o que pode alterar as condições financeiras para países emergentes como o Brasil.
Caruso citou o movimento de diferentes autoridades monetárias. “A gente tem visto que o Banco Central Europeu subindo juros. A gente tem visto as curvas de juros do Japão pressionadas para cima. Na verdade, quase todas as curvas de juros dos desenvolvidos estão pressionadas para cima”, disse.
Nos Estados Unidos, o economista destacou ainda uma mudança na percepção sobre a condução da política monetária. Segundo ele, o Federal Reserve (Fed) trocou seu presidente e o novo comando passou a adotar uma comunicação mais dura.
“Um Fed que mudou o seu chairman, que começou a falar um pouco mais duro, mas não entregou altas, parece que é alguém muito mais predisposto a subir ou com menos amarras para subir”, afirmou.
O cenário-base do Santander nos Estados Unidos contempla duas altas dos juros pelo Fed ainda em 2026. Segundo ele, embora parte desse movimento já esteja incorporada às curvas de juros, uma alta sem uma sinalização clara sobre os próximos passos poderia abrir espaço para novas revisões.
“Como o [Kevin Warsh] parece ser um cara que não gosta muito de dar guidance, se você sobe e ainda não dá guidance, você abre uma janela de possibilidades de mais altas”, disse.
Para Caruso, o problema para o Brasil apareceria caso os juros externos subissem mais do que o mercado já espera. Nesse cenário, a pressão sobre o dólar poderia aumentar e afetar diretamente as projeções de inflação utilizadas pelo Banco Central.
“Se começar a criar-se um caso de juros mais altos lá fora, mais do que já está precificado, você pode ter esse ambiente de um dólar pressionado”, afirmou. O movimento seria especialmente relevante porque uma moeda brasileira mais depreciada poderia piorar as projeções de inflação do próprio modelo do BC.
“Esse modelo dele de inflação, que parece ser otimista aos olhos do Focus, pode começar a mostrar uma carinha um pouco pior e ele tem que abortar o ciclo”, disse Caruso.
Mesmo com exterior no radar, modelo do BC ainda aponta espaço para cortes
Apesar do risco vindo do exterior, Caruso avalia que a leitura atual dos modelos do Banco Central ainda é compatível com a continuidade da flexibilização monetária. Para ele, há espaço para uma nova redução da taxa Selic em setembro e, dependendo da evolução dos dados, até para cortes no quarto trimestre.
“Pelo framework dele tem espaço sim para ter cortes em setembro”, afirmou. Segundo Caruso, o modelo do BC projeta inflação de 3,20% no primeiro trimestre de 2028, horizonte considerado relevante pela autoridade monetária, enquanto o Focus aponta para algo próximo de 4,10%.
Na avaliação do economista, a mesma lógica pode abrir espaço para uma continuidade do ciclo no fim do ano. “O modelo dele parece deixar ou permitir ou ser consistente, aos olhos deles, com cortes no quarto trimestre também desse ano”, afirmou.
Caruso ressalta que essa leitura não significa que o Copom necessariamente queira sinalizar uma sequência de cortes. Ao contrário, ele avalia que a comunicação mais cautelosa pode ser deliberada para evitar que o mercado antecipe uma série de reduções na taxa básica.
“Acho que a pretensão do Copom ainda é ter um conjunto de informação dado pela comunicação dele, que não leve o mercado a precificar vários cortes de juros a priori”, disse.
Por trás dessa avaliação está, principalmente, a combinação entre a desaceleração da atividade e as surpresas recentes da inflação corrente. Caruso espera que a ata da reunião traga mais detalhes sobre esses dois pontos, que ficaram menos evidentes no comunicado.
“Tudo aquilo que concerne mais aos dados correntes, os de curtíssimo prazo, todos parecem estar vindo mais fracos, surpreendendo para baixo”, afirmou. Para ele, a atividade também apresenta sinais de perda de ímpeto, o que seria um elemento favorável à continuidade dos cortes.
“Acho que a discussão é nesse sentido, de discutir sobre essa perda de ímpeto da atividade”, disse. “Acho que esse é um ponto importante e acaba sendo percebido mais dovish.”
O principal obstáculo continua sendo a desancoragem das expectativas de inflação. “O grande senão realmente são as expectativas de inflação, que essas continuam desancoradas e teve uma desancoragem adicional”, afirmou.
Ainda assim, Caruso avalia que as expectativas não parecem ser a única variável determinante para o atual Copom. “Parece ser um comitê onde as expectativas são uma variável relevante, mas não a variável para decidir se corta ou não. Ele se pauta bastante pelo modelo dele”, disse.
É justamente por isso que o economista vê uma diferença entre a projeção do Santander e o espaço que o próprio modelo do BC parece permitir. O Santander trabalha com uma Selic de 13,75% ao fim de 2026, considerando mais um corte e depois uma pausa, mas Caruso admite que o cenário pode mudar.
“Se a foto de dezembro for igual a foto de agosto, provavelmente a gente vai ter ido para uma Selic de 13,25%”, afirmou.
A pausa projetada pelo Santander, portanto, está menos relacionada à ausência de espaço doméstico para novos cortes e mais aos riscos que podem ganhar força até o fim do ano. “Eu preciso realmente esperar”, disse Caruso.