Corte da Selic é consenso; mercado procura no comunicado sinais sobre setembro
O Comitê de Política Monetária (Copom) deve reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual nesta quarta-feira (5), levando os juros básicos de 14,25% para 14% ao ano. A decisão é amplamente esperada pelo mercado e, diante do consenso em torno do corte, a atenção dos investidores estará concentrada na comunicação do Banco Central e nos sinais sobre o futuro do ciclo de flexibilização.
A principal dúvida é se o Comitê deixará a porta aberta para uma nova redução em setembro ou indicará uma pausa após o corte desta semana. O cenário ganhou mais incerteza desde a última reunião, em junho, diante de uma melhora relevante nos dados correntes de inflação e sinais de desaceleração da atividade, mas com expectativas inflacionárias ainda acima da meta e riscos altistas no horizonte.
Pesquisa do BTG Pactual com 70 participantes do mercado mostra que 100% esperam o corte de 25 pontos-base nesta quarta. Para a comunicação, 84% projetam que o Copom manterá uma sinalização formalmente aberta, sem compromisso com os próximos passos, enquanto 83% consideram essa a mensagem mais adequada.
Setembro divide o mercado
Entre as casas consultadas, o consenso sobre agosto começa a se desfazer quando o assunto é a reunião seguinte. A XP espera que o Copom corte a Selic nesta quarta e faça uma pausa em setembro para avaliar os efeitos da política monetária e a evolução dos dados.
A instituição avalia que as leituras recentes de inflação e atividade foram favoráveis, mas considera prematuro falar em uma reversão da tendência diante de riscos como petróleo elevado, estímulos fiscais e parafiscais e expectativas de inflação acima da meta.
O C6 Bank também espera uma redução de 0,25 ponto percentual (p.p.), mas vê cautela na comunicação. Para o banco, a melhora recente dos dados permite a continuidade do processo de calibração, mas a piora das expectativas de inflação e a assimetria altista no balanço de riscos recomendam que o BC evite antecipar seus próximos movimentos. A instituição projeta a Selic em 14% no fim de 2026 e também no encerramento de 2027.
Já o Bank of America ficou mais otimista com a continuidade do ciclo. Após uma sequência de dados mais benignos de inflação e sinais de perda de ritmo da atividade, o banco revisou sua projeção e passou a esperar dois cortes de 25 pontos-base, em agosto e setembro, levando a Selic a 13,75%. Ainda assim, o BofA não espera que o Copom antecipe esse movimento no comunicado, mantendo aberta a possibilidade de uma nova redução.
O BTG também identifica espaço para a continuidade do ciclo. Na pesquisa, a maior parte dos participantes vê a Selic abaixo de 14% no fim de 2026, embora a preferência seja por uma comunicação que preserve a opcionalidade do Comitê.
Inflação melhora, mas não há carta branca
O pano de fundo para uma comunicação mais cautelosa é a combinação entre melhora da inflação corrente e persistência de riscos para os próximos meses. A XP destaca que o IPCA de junho e o IPCA-15 de julho vieram abaixo das expectativas, inclusive nos núcleos, enquanto indicadores de varejo, serviços e produção industrial apontaram alguma acomodação da atividade. O mercado de trabalho também mostrou sinais de desaceleração na geração de empregos e nos salários, embora continue sólido.
Por outro lado, as expectativas seguem acima da meta nos horizontes mais longos. Na leitura da XP, a projeção do mercado para o IPCA de 2027 subiu de 4,10% para 4,22%, enquanto a expectativa para o primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária, avançou de 3,96% para 4,07%.
É justamente essa combinação que deve orientar o tom do comunicado. De um lado, os dados recentes dão ao BC espaço para entregar o corte já esperado. De outro, a autoridade monetária ainda precisa evitar uma sinalização que seja interpretada como um compromisso com novas reduções.
O que o mercado vai procurar no comunicado
Mais do que o tamanho do corte, três pontos devem concentrar a atenção dos investidores nesta quarta-feira.
O primeiro é se o BC manterá a expressão “ciclo de calibração” e como irá descrevê-lo. O segundo é o tratamento dado ao balanço de riscos, que passou a apresentar assimetria para cima na reunião de junho. O terceiro é qualquer indicação sobre a reunião de setembro, seja por meio de uma sinalização mais explícita de pausa, seja pela manutenção de uma comunicação dependente dos dados.
A XP espera um comunicado neutro, justamente para evitar uma sinalização clara sobre os próximos passos enquanto o Comitê avalia para que lado o cenário irá pender antes da reunião de setembro. Segundo a casa, caso o BC faça poucas mudanças na comunicação, os movimentos na curva de juros e no mercado de opções tendem a ser moderados.