Varejo

Corte de juros pode mudar o jogo para o varejo; empresas com a ‘casa arrumada’ devem se destacar, avalia gestor da Galapagos

11 mar 2026, 7:00 - atualizado em 10 mar 2026, 15:04
lojas renner azzas 2154
(Imagem: rattanakun/Canva)

Juros altos e varejo normalmente não combinam bem. Com o crédito mais restrito e caro — além do maior risco de inadimplência e da pressão sobre o consumo — o varejo, especialmente o discricionário (não essencial), tende a sofrer mais no cenário brasileiro atual.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

No fim de 2024, havia a expectativa de que a taxa básica de juros (Selic) cairia para menos de um dígito. No entanto, em meio aos problemas fiscais no Brasil, o cenário oposto se concretizou: a Selic está em 15% desde junho de 2025, o maior patamar desde 2006. Ainda assim, uma mudança de direção começa a entrar no radar.

O Banco Central sinalizou para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) o aguardado início da flexibilização monetária. A decisão sobre o futuro dos juros e a magnitude de um eventual corte será conhecida pelo mercado em 18 de março.

Mesmo que o BC concretize a expectativa e reduza a Selic, os efeitos relevantes na economia não são imediatos, pondera Eduardo Cotrim, superintendente de gestão de fundos de ações da Galapagos Capital. Segundo ele, o impacto pode levar de três a quatro trimestres para se manifestar.

“Devemos ver [o efeito] ao longo do ano de quatro a cinco cortes — talvez até seis cortes se pegar ano que vem também — e os principais beneficiados tendem a ser as empresas que vendem bens duráveis, como móveis, eletrodomésticos e eletroeletrônicos. No geral, são as empresas mais favorecidas pelo corte de juros porque dependem de parcelamento”, disse em entrevista ao Money Times.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Isso ocorre porque o parcelamento embute um custo financeiro, mesmo quando o varejista não cobra juros diretamente do consumidor. Há sempre um custo para financiar esse crédito. Quando o cenário monetário afrouxa, surge um estímulo adicional ao consumo discricionário.

O cenário no varejo

O BTG Pactual aponta que, desde o início da pandemia, as varejistas passaram por um ciclo macroeconômico completo. Primeiro veio o “boom” de demanda impulsionado pela pandemia. Em seguida, ocorreu uma normalização em meio a condições financeiras mais restritivas, inflação crescente e, por fim, uma deterioração da alavancagem das famílias.

“As empresas tiveram que lidar com essa montanha-russa, inicialmente aumentando os investimentos para atender à maior demanda — às vezes com estratégias de crescimento a qualquer custo —, mas depois enfrentando uma inflexão com o aumento do custo de financiamento, ajustando posteriormente suas carteiras de crédito e estruturas de despesas”, pondera a equipe de analistas liderada por Luiz Guanais.

Do ponto de vista das ações, as preocupações com o cenário macroeconômico brasileiro passaram a pesar mais, compensando o valuation descontado de muitas empresas.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ainda que exista uma tendência macroeconômica clara ao analisar o setor, que deve persistir nos próximos trimestres e também ser influenciada pelo cenário eleitoral no Brasil, o BTG destaca outra discussão relevante: qual é o múltiplo justo para varejistas em um ambiente de juros estruturalmente mais altos e mudanças contínuas, por vezes estruturais, em alguns segmentos.

O BTG Pactual relembra que, no segundo semestre de 2025, as tendências de consumo já estavam visivelmente pressionadas, refletindo o impacto cumulativo dos elevados custos de financiamento e do crescimento mais fraco da renda real. No início de 2026, o cenário macroeconômico permanece amplamente semelhante.

“Medidas de apoio fiscal, redução de impostos e taxas de juros mais baixas devem aliviar progressivamente as restrições financeiras, permitindo que a elasticidade do consumo melhore no segundo semestre. Nesse ambiente, as condições macroeconômicas definem o conjunto de oportunidades, enquanto a execução determina os vencedores relativos”, pondera.

Efeitos heterogêneos no setor

Se, por um lado, juros altos costumam ser um desafio para o varejo, por outro, o início de um ciclo de flexibilização monetária abre espaço para expectativas mais positivas. Ainda assim, Cotrim ressalta que o setor é bastante heterogêneo.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Apesar do guarda-chuva “varejo”, diferentes subsegmentos — como vestuário, bens duráveis, farmacêutico e alimentar — respondem de maneira distinta à queda dos juros.

Na visão do gestor, empresas mais expostas ao consumo discricionário, como Magazine Luiza (MGLU3) e Casas Bahia (BHIA3), tendem a sentir mais intensamente os efeitos do crédito, até porque possuem balanços historicamente mais alavancados.

Já companhias com maior folga financeira têm mais capacidade de expandir o crédito ao consumidor e aproveitar melhor um ciclo de queda de juros.

“Quando olhamos para os últimos anos, vemos que muitas dessas empresas fizeram um trabalho forte de arrumar a casa, enxugando custos, tentando desalavancar balanço e gerar caixa. E já começamos a ver os efeitos”, disse ao Money Times.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Como exemplo, o gestor cita o Magalu, que teve aumento relevante da alavancagem após o início da alta de juros no pós-pandemia, pressionando sua estrutura de capital. Desde então, a empresa vem reduzindo o endividamento e hoje apresenta uma situação mais favorável.

Em síntese, na visão do gestor da Galapagos, empresas que já estão “com a casa arrumada” são as mais preparadas para capturar os benefícios de um eventual ciclo de queda da Selic.

Quem ganha e quem perde

Segundo Cotrim, além do varejo de bens duráveis, o setor de vestuário também tende a se beneficiar do corte de juros, devido à forte dependência de crédito e parcelamento. A diferença está principalmente no ticket médio dos produtos.

No segmento de vestuário, muitas companhias ainda possuem operações financeiras próprias. É o caso da C&A (CEAB3), com a C&A Pay, e da Riachuelo (RIAA3), por meio da Midway.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“Essas empresas têm um benefício adicional. Quando os juros caem, a despesa das famílias com crédito diminui, o orçamento fica mais folgado e pode haver uma reversão do aumento da inadimplência. Isso abre espaço para ampliar a concessão de crédito”, diz o gestor.

Já setores considerados menos sensíveis ao ciclo de juros — como varejo alimentar e farmacêutico — tendem a sentir impactos menores, devido à menor elasticidade da demanda.

“Empresas bem geridas ganham eficiência ao longo das crises. Elas sabem quais botões apertar. Algumas saem machucadas por uma alavancagem financeira mais delicada, mas acredito que, de forma geral, o setor ganhou eficiência nos últimos anos”, diz Cotrim.

Na visão do BTG, essencialmente, os vencedores em horizontes temporais mais longos têm sido aqueles que lidam
melhor com as flutuações na demanda, mantêm uma estrutura de custos enxuta e são capazes de reagir e, melhor ainda, antecipar as tendências disruptivas.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Hora de olhar para o varejo?

Para Cotrim, o início de um ciclo de queda da Selic pode abrir oportunidades de investimento no setor, tendo em vista os efeitos no operacional das empresas do setor, principalmente devido ao impacto positivo no consumo e no custo financeiro das empresas.

“Temos outros fatores, como o custo financeiro que reduz e o efeito da taxa de desconto dessas companhias. Quando fazemos valuation e o fluxo de caixa descontado e temos convicção de que o juros realmente está caindo, passamos a usar taxas de desconto menores e chegamos em um valor justo das empresas mais alto”, pondera o gestor.

Segundo Cotrim, entre os indicadores a serem monitorados estão os dados de inadimplência, custo do crédito para as famílias e o impacto da queda dos juros sobre o orçamento doméstico.

Outro fator relevante para o setor é a proposta de isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Segundo o gestor, será importante observar para onde esse dinheiro adicional poderá ser direcionado — e o varejo, especialmente o discricionário, é um dos possíveis destinos.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Para o BTG, a principal conclusão é clara: o cenário macroeconômico define o conjunto de oportunidades, mas é a execução das empresas que determina os vencedores do setor.

Diante disso, o banco defende uma estratégia de seleção cuidadosa de ações, em vez de uma exposição ampla ao varejo.

Entre as preferências estão varejistas farmacêuticos, além de Smart Fit (SMFT3) e Vivara (VIVA3), consideradas participações principais devido à menor sensibilidade ao ciclo econômico e ao momento operacional mais forte.

Mesmo com cautela no curto prazo, o BTG segue otimista com o crescimento estrutural do e-commerce no Brasil e vê o Mercado Livre (MELI34) como um vencedor de longo prazo.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“Também vemos potencial de valorização na C&A (CEAB3), que acreditamos já ter precificado grande parte da desaceleração do consumo e ser negociada a níveis de valuation atraentes. Em contrapartida, continuamos cautelosos em relação a segmentos altamente discricionários e dependentes de crédito, com poder de precificação limitado”, diz o banco.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Compartilhar

WhatsAppTwitterLinkedinFacebookTelegram
Repórter
Formada em jornalismo pela Universidade Nove de Julho. Ingressou no Money Times em 2022 e cobre empresas, com foco em varejo e setor aéreo.
Linkedin
Formada em jornalismo pela Universidade Nove de Julho. Ingressou no Money Times em 2022 e cobre empresas, com foco em varejo e setor aéreo.
Linkedin

Usamos cookies para guardar estatísticas de visitas, personalizar anúncios e melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossas políticas de cookies.

Fechar