Crédito da China? Parceria com seguradora estatal estende prazos para produtores brasileiros
Em meio a um cenário de juros elevados no Brasil e pressão crescente sobre o capital de giro, uma solução pouco conhecida começa a ganhar espaço entre importadores que abastecem o agronegócio: o crédito comercial viabilizado por uma seguradora estatal chinesa.
A proposta passa pela atuação da Sinosure, empresa estatal chinesa especializada em seguro de crédito à exportação, que garante operações de exportação da China e, na prática, permite que empresas brasileiras comprem insumos, fertilizantes e equipamentos com pagamento postergado — algo incomum nas negociações com fornecedores chineses.
“A Sinosure protege o exportador contra inadimplência. Com isso, ele consegue oferecer prazo ao importador, que deixa de pagar antecipado e passa a pagar depois de receber e vender a mercadoria”, explica Ícaro Moro, gerente de crédito à importação da Axton Global.

É nesse ponto que entra a Axton. A empresa atua como intermediária e estruturadora das operações, conectando importadores brasileiros ao sistema da Sinosure. Na prática, a consultoria organiza o processo de análise de crédito, faz a ponte com exportadores chineses e acompanha a operação até a liberação e uso do limite.
A parceria foi firmada no primeiro trimestre entre a Axton Global e a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China (CCIBC).
“A gente funciona como facilitador. A Sinosure não atua diretamente com o importador brasileiro, então nosso papel é viabilizar o acesso a esse mecanismo e garantir que a operação aconteça de forma estruturada e segura”, afirma Moro.
Na prática, o modelo assegura o risco de inadimplência do importador e garante o pagamento ao exportador chinês. Com essa proteção, os fornecedores conseguem conceder prazos estendidos — normalmente entre 90 e 120 dias — aos compradores brasileiros, sem necessidade de antecipação integral ou dependência de crédito bancário local.
“Mesmo empresas com demanda não conseguem crescer porque precisam imobilizar muito caixa ou recorrer a crédito caro. Isso pressiona margem. O prazo resolve esse problema”, diz.
A Axton, fundada em 2008 com escritórios em Hong Kong e Xangai, surgiu justamente para atacar esse descompasso entre produção, demanda e financiamento no comércio internacional. Ao estruturar operações com base na Sinosure, a empresa busca reduzir o custo financeiro das importações e aliviar a pressão sobre o caixa das companhias.
Quem pode acessar o crédito?
Criada em 2001, a Sinosure é hoje uma peça central da estratégia chinesa de exportação. Em 2024, a estatal cobriu cerca de US$ 1 trilhão em embarques, o equivalente a aproximadamente 28% de tudo que o país exporta. No Brasil, a estimativa é de que mais de 10 mil empresas já utilizem o mecanismo.
Apesar da escala, o instrumento ainda é pouco conhecido por aqui. “É bastante obscuro. Muitas empresas nunca ouviram falar. Nosso trabalho tem sido justamente apresentar essa alternativa”, afirma Moro.
O acesso ao modelo, no entanto, não é irrestrito. A aprovação depende de critérios mínimos definidos pela Sinosure, principalmente relacionados ao porte e histórico financeiro das empresas.
“De forma geral, estamos falando de importadores que já têm alguma recorrência com a China, com volumes a partir de US$ 200 mil por ano e faturamento acima de US$ 1 milhão”, explica.
Além disso, é necessário ter ao menos um ano de demonstrações financeiras consistentes. Por outro lado, há poucas restrições em relação aos produtos — com exceção de cargas consideradas de alto risco, como itens perigosos ou perecíveis.
“Se o importador atende aos critérios financeiros, a ferramenta é bastante ampla. O principal filtro não é o produto, é a capacidade de pagamento”.