Banco do Brasil (BBAS3): Não agradou? Analistas cortam preço-alvo após Dia do Investidor; veja potencial
O Banco do Brasil (BBAS3) entrou em campo na última quinta-feira (23), em seu Dia do Investidor, precisando convencer analistas de que estava no caminho certo para superar, segundo o próprio BB, a pior crise dos últimos 20 anos.
A onda de calotes que abateu o agronegócio fez o índice de inadimplência saltar da média histórica de 1% para algo em torno de 6,1%, derrubar os lucros em 60% e arrastar o ROE (retorno sobre o patrimônio) para um dígito.
No entanto, o sentimento foi de que o pior ainda não passou e que o primeiro semestre ainda será difícil. A própria administração, no entanto, não escondeu que a recuperação poderá ser em W, ou seja, haverá uma outra piora antes da melhora.
Entre analistas, pelo menos duas casas reviram suas projeções para baixo: Safra e BTG cortaram o preço-alvo — a primeira, de R$ 28 para R$ 27, e a segunda, de R$ 26 para R$ 25. Já o Itaú BBA manteve a recomendação em R$ 22. Todos com recomendação neutra. Veja abaixo:
| Casa | Preço-alvo | Potencial | Recomendação |
| Itaú BBA | R$ 23 | -0,26% | Neutra |
| BTG | R$ 25 | 8,69% | Neutra |
| Safra | R$ 27 | 17% | Neutra |
Banco do Brasil: Guidance em risco
A grande questão entre analistas é que o BB terá um primeiro trimestre tão fraco que corre o risco de não conseguir atingir seu guidance (projeções), o que sempre envia um péssimo sinal para o mercado. O banco sinalizou ao mercado que pretende lucrar entre R$ 22 e R$ 26 bilhões. O Itaú BBA vê R$ 21 bilhões, assim como o BTG. O Safra está pouco mais otimista, enxergando lucro de R$ 25 bilhões.
Para o Safra, as apresentações reforçaram um 2026 ainda difícil, que deve resultar em uma recuperação do ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) em formato de W, com o ciclo de crédito do agronegócio ainda em processo de normalização.
No discurso, a administração disse que espera uma recuperação do índice de pagamentos em dia para 95% na safra de 2026, ante um piso de 92% em 2025, mas destacou que os vencimentos de abril seguem pressionados por safras legadas. Ademais, as originações sob o novo arcabouço de garantias e matriz de risco ainda representam uma parcela pequena do total de vencimentos (20%).
Considerado a salvação da lavoura, a Medida Provisória nº 1.314 estendeu os vencimentos de empréstimos que somam R$ 36,5 bilhões, mas ainda há cerca de R$ 24 bilhões de vencimentos em 2026 oriundos da carteira rolada, que provavelmente pressionarão a qualidade dos ativos, uma vez que essa carteira apresenta maior formação de NPL (empréstimos não pagos).
“No geral, o cenário permanece altamente incerto, com externalidades agravantes como conflitos geopolíticos e seus impactos sobre os custos de insumos, o ritmo elevado de pedidos de recuperação judicial (Chapter 11) entre produtores rurais e os potenciais efeitos de La Niña.”
Não é só o agronegócio
Já o BTG diz que não é só a carteira de agronegócio. Os analistas observam deterioração em outros segmentos, incluindo as carteiras do consumidor e de empresas.
No agro, a situação está ainda pior. A título de comparação, a Caixa, empresa estatal concorrente, reportou um índice de inadimplência no setor agropecuário de aproximadamente 14% no mesmo período.
O próprio Banco do Brasil divulgou que 36% da carteira de crédito agropecuário com vencimento estendido vence em 2026 e outros 22% em 2027, o que pode manter os níveis de inadimplência elevados por mais tempo. A administração espera que as taxas de inadimplência na primeira parcela do setor agropecuário melhorem de 8% em 2025 para cerca de 5% em 2026.
“Embora a tendência seja positiva, acreditamos que a incerteza em relação ao momento e à magnitude dessa melhora permanece alta.”
Outra preocupação é como a guerra do Irã e o El Niño podem piorar o que já está ruim. Felipe Prince, vice-presidente de controles internos e gestão de riscos, diz que, após o início da guerra, o custo de insumos — especialmente fertilizantes — chegou a subir cerca de 80%. De todas as formas, os efeitos não serão sentidos agora.
Por outro lado, pode haver impactos na próxima safra. “Há pouca visibilidade sobre como essa situação irá evoluir”, destaca o BTG. Nem tudo são notícias ruins, no entanto: surgem sinais iniciais de estabilização, com menos novos pedidos de recuperação judicial e algumas desistências do processo, considerado danoso para o banco.
Os novos dados sobre o fluxo de recuperações judiciais mostrou que as novas entradas no primeiro trimestre caíram para R$ 1,34 bilhão, ante R$ 1,84 bilhão no quarto trimestre. “Esta é uma boa notícia, embora o nível ainda seja alto e uma maior concentração de dívidas esteja por vir”, afirmou o Itaú BBA.
Garantias
No evento, o BB também disse que a maior seletividade e o uso de garantias para empréstimos já estão ajudando a diminuir os calotes.
“Observamos um resultado bem mais significativo em relação à inadimplência, mostrando que a mudança na forma de atuação, com maior foco em garantias, tem surtido efeito.”
Prince nota que a garantia real traz, para a inadimplência, um efeito disciplinador, “inclusive reduzindo o risco moral, já que, em caso de não pagamento, o cliente pode perder o bem dado em garantia”.
Para o Itaú BBA, esta foi uma mensagem clara da administração de que as políticas de concessão de crédito foram substancialmente reforçadas. “Os frutos desses créditos começarão a ser colhidos no segundo semestre de 2026, quando poderemos começar a observar uma redução no custo do risco.”
Por outro lado, o BBA espera uma expansão mais lenta da carteira de empréstimos.
Avanço no crédito do trabalhador
O BB não deixou de falar de uma das suas principais apostas: o crédito do trabalhador. Reformulado no ano passado pelo Governo Federal, o BB está conquistando agressivamente o crédito para folha de pagamento do setor privado, vê o BBA.
O banco construiu rapidamente uma carteira de R$ 17,2 bilhões, alcançando uma participação de mercado de aproximadamente 13%, com ambições de atingir 20%.
Na rentabilidade, o BBA diz que parece atrativa: um valor médio de empréstimo de R$ 7,9 mil, taxa média mensal de aproximadamente 3% e prazo médio de 52 meses.
Vale apostar no Banco do Brasil?
Segundo o BBA, a mensagem é clara: recuperação no médio prazo, com primeiro semestre ainda desafiador.
Mesmo assim, o Itaú afirma que o próximo primeiro trimestre, mesmo com um ROE abaixo de 10%, pode ser seguido por trimestres ainda mais difíceis.
Isso porque há maior concentração de pagamentos de soja/milho com vencimento no segundo e terceiro trimestres e a grande concentração de vencimentos prorrogados no ano fiscal de 2026.
“Há também uma crescente incerteza em relação à economia agrícola para as safras do ano fiscal de 2026/27, devido ao aumento dos custos de insumos e à valorização do real.”
Para o BTG, o limite inferior da projeção se tornou, efetivamente, o teto, ou seja, R$ 22 bilhões. “Já estamos ligeiramente abaixo desse valor, embora ainda consideremos a possibilidade de uma alíquota de imposto favorável ao longo do ano.”
Negociada a cerca de 0,7x o valor patrimonial mais recente, a ação não está cara, mas, com um ROE em torno de 10% em 2026, um P/L (preço sobre lucro) de aproximadamente 6,5x para 2026 e um rendimento de dividendos de cerca de 4%, ela não é particularmente atraente quando comparada aos padrões históricos.