De olho em aço importado, Gerdau (GGBR4) fala transformação “bastante significativa” no Brasil
Após divulgar um segundo trimestre de 2026 (2T26) novamente impulsionado pela operação na América do Norte, a Gerdau (GGBR4) afirmou que prepara uma transformação “bastante significativa” no Brasil para enfrentar um ambiente de importações elevadas, margens pressionadas e competição mais acirrada, enquanto vê um cenário ainda favorável para seus negócios nos Estados Unidos.
Durante teleconferência de resultados nesta quarta-feira (5), o CEO Gustavo Werneck afirmou que a companhia não trabalha com a hipótese de uma melhora estrutural do mercado brasileiro e pretende adaptar sua operação para competir em um cenário mais adverso. Em contrapartida, o executivo reforçou que a demanda americana continua aquecida, sustentada por investimentos em data centers, infraestrutura, energia e manufatura, além do ambiente tarifário mais favorável aos produtores locais.
“A América vive um momento talvez sem paralelo. Temos de voltar muito no tempo para encontrar um cenário de demanda tão robusta e resiliente para construção metálica”, afirmou Werneck.
Segundo o executivo, projetos ligados à inteligência artificial, expansão da rede elétrica, infraestrutura e novas fábricas de semicondutores seguem impulsionando a demanda por aço nos Estados Unidos. A companhia também afirmou que a penetração de aço importado continua limitada em seus principais mercados e que a urgência dos clientes em receber material tem reduzido o risco de maior concorrência externa.
A administração ainda indicou que o cenário para a operação norte-americana pode ser melhor do que o refletido nas projeções atuais. Segundo o CFO Rafael Japur, o outlook da companhia ainda não incorpora integralmente os dois reajustes de preços anunciados nos últimos dias para aços especiais, vigas e perfis.
“Tem uma alta de risco não desprezível nessa visão”, afirmou o executivo.
Gerdau não conta com melhora do Brasil
Enquanto vê espaço para expansão dos resultados nos Estados Unidos, a Gerdau adota um discurso bem mais cauteloso para o Brasil.
Segundo Werneck, a companhia está desenhando sua estratégia considerando um ambiente estruturalmente mais difícil, marcado por elevada penetração de importados, custos elevados e maior competição.
“Não dá para ficar desenhando a Gerdau do futuro no Brasil achando que vai voltar a penetração de importados para 11%, que vai ter consolidação. Não dá. Nós não trabalhamos com esse cenário”, afirmou.
O CEO acrescentou que a empresa está assumindo que esse ambiente deve persistir e que sua resposta será aumentar a competitividade da operação.
“Nós estamos considerando o cenário futuro brasileiro muito mais difícil do que tivemos até então. Vamos competir de uma forma muito mais intensa aqui no Brasil do que já competimos no passado”, disse.
Werneck comparou o processo ao trabalho realizado nos Estados Unidos nos últimos anos, quando a companhia promoveu venda de ativos, revisão do portfólio e investimentos direcionados para elevar a rentabilidade da operação.
“Assim como fizemos nos Estados Unidos, vai ter uma transformação bastante significativa na forma como operamos e na nossa competitividade.”
Parte desse movimento já começou. O executivo citou a readequação da unidade de Recife, que deixará de produzir aço na aciaria para operar apenas com laminação, como um dos primeiros passos dessa estratégia.
“A gente já está colocando alguns elementos mesmo antes de divulgar esse macroplano”, afirmou.
Segundo o CEO, a companhia pretende apresentar esse plano de transformação em mais detalhes nos próximos meses.
Brasil deve melhorar gradualmente
Apesar da visão estrutural mais cautelosa, a administração acredita que os resultados da operação brasileira podem apresentar melhora gradual já ao longo do segundo semestre.
Japur afirmou que a expectativa não está baseada em aumentos relevantes de preços, mas principalmente em uma combinação de melhor mix de vendas, recuperação do segmento de veículos pesados, maior número de dias úteis no terceiro trimestre e redução gradual de custos.
“Como estamos falando, infelizmente, de margens muito apertadas no Brasil, essas pequenas coisas contam para irmos compondo o nosso resultado”, afirmou.
Segundo o executivo, os primeiros benefícios da expansão de Miguel Burnier devem começar a aparecer no quarto trimestre, reduzindo o custo de abastecimento da usina de Ouro Branco.
Além disso, a companhia estima que os projetos de Miguel Burnier, da expansão em Ouro Branco e da unidade de processamento de sucata em Pindamonhangaba poderão adicionar entre R$ 1,4 bilhão e R$ 1,5 bilhão ao resultado anual quando estiverem plenamente operacionais.
Japur ressaltou que a estratégia da companhia está menos dependente de uma recuperação do mercado brasileiro e mais focada em ganhos internos de competitividade.
“Não estamos focando em crescimento de preços ou do mercado, e sim muito naquilo que estamos trabalhando dentro de casa para buscar soluções e endereçar esse problema crônico de baixos resultados no Brasil.”
Capex menor, mas foco segue em competitividade
Na frente financeira, a Gerdau afirmou que o desembolso de investimentos neste ano segue ligeiramente abaixo do guidance de R$ 4,7 bilhões.
Para os próximos anos, Japur indicou que o capex pode cair para uma faixa entre R$ 4 bilhões e R$ 4,5 bilhões, mas descartou uma redução muito maior.
Segundo ele, caso a companhia consiga diminuir os investimentos de manutenção, os recursos deverão ser redirecionados para projetos de competitividade, principalmente no Brasil e na América do Norte, e não necessariamente distribuídos aos acionistas.
A administração também reiterou que não pretende aumentar a alavancagem apenas para elevar dividendos ou recompras de ações.
“A gente não tem essa cabeça”, afirmou Japur ao comentar que a dívida líquida equivalente a 0,69 vez o Ebitda não representa um alvo a ser elevado para uma vez apenas para ampliar a remuneração aos acionistas.
“O limite é uma vez e meia, mas a gente já se sente desconfortável acima de uma vez. Não temos necessidade de aumentar a alavancagem para chegar lá.”