Engie (EGIE3) tem potencial limitado de criação de valor em operação com Jirau, dizem analistas
A proposta da Engie Brasil (EGIE3) de incorporar uma participação de 40% na hidrelétrica de Jirau por meio de uma oferta subsequente de ações (follow-on) foi recebida com cautela pelos analistas do mercado financeiro.
Eles reconhecem méritos na estrutura financeira da operação e na lógica estratégica do negócio, mas avaliam que o potencial de geração de valor para os acionistas é limitado no curto prazo, em meio a uma avaliação considerada exigente para o ativo e à ausência de catalisadores mais relevantes para as ações.
Por volta das 13h desta quinta-feira (11), as ações da companhia subiam 0,8%, a R$ 11,54.
Na véspera, a Engie anunciou uma operação que prevê a transferência da fatia de 40% de Jirau atualmente detida pela Engie Brasil Participações (EBP) para a Engie Brasil Energia. A participação foi avaliada em R$ 5,7 bilhões por um comitê independente, o que implica um valor de R$ 14,4 bilhões para 100% da usina.
Valor do ativo
Para o banco Safra, o principal ponto de atenção está justamente na avaliação atribuída ao ativo. Segundo os analistas, os 40% de Jirau valeriam cerca de R$ 4,4 bilhões em seu cenário-base, valor aproximadamente 29% inferior ao preço considerado na transação.
O banco estima ainda que a oferta possa movimentar cerca de R$ 8,4 bilhões. O montante inclui os R$ 5,7 bilhões relativos à transferência da participação em Jirau e aproximadamente R$ 2,6 bilhões referentes à adesão dos acionistas minoritários nas mesmas condições oferecidas ao controlador.
Na avaliação do Safra, trata-se de uma operação de grande porte. Para evitar diluição, os minoritários precisariam desembolsar os R$ 2,6 bilhões adicionais, elevando o valor total da operação para algo equivalente a cerca de 22% do valor de mercado da Engie.
Os analistas também observam que, mesmo que os acionistas minoritários rejeitem a incorporação e a avaliação proposta para Jirau, a companhia ainda poderia realizar uma oferta para captar recursos destinados ao pagamento da UBP, obrigação estimada em R$ 2,4 bilhões.
‘Coerência econômica’
O Bradesco BBI considera que a transação possui “coerência econômica”. Os analistas Francisco Navarrete e Renato Chanes afirmam que o retorno implícito de Jirau é compatível com o custo de capital percebido na Engie, o que sustenta uma visão neutra a levemente positiva da operação.
Na visão do BBI, a participação ativa dos acionistas minoritários e a flexibilidade para executar a oferta mesmo sem a incorporação da participação em Jirau reduzem os riscos de execução e reforçam a disciplina financeira da companhia.
Além disso, o destino dos recursos — voltado para redução de passivos e financiamento de investimentos — é visto como um fator positivo para o fortalecimento do balanço da empresa.
Por outro lado, o Bradesco BBI diz que a usina já possui parcela significativa de sua energia contratada até 2034, o que reduz o potencial de captura de ganhos adicionais no curto prazo. Com isso, a criação de valor passa a depender mais da execução operacional e da gestão do portfólio de ativos da companhia.
O Safra também reconhece que existem fatores capazes de elevar a rentabilidade da operação. Em seu cenário-base, o banco calcula uma taxa interna de retorno (TIR) real de 6,6%. Considerando a renovação dos benefícios fiscais da Sudam até 2037, ganhos de modulação de R$ 10 por MWh e melhorias no GSF (Generation Scaling Factor), a TIR poderia avançar para aproximadamente 9,3%.
Ainda assim, o banco avalia que as condições iniciais da transação permanecem exigentes frente às suas premissas e manteve recomendação underperform para as ações da Engie Brasil.