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Enquanto o mundo sofre com os preços altos, China desafia a inflação e expõe fragilidade global

25 maio 2026, 9:56 - atualizado em 25 maio 2026, 9:56
China morning agenda wall street ibovespa
(Imagem: REUTERS/Kim Kyung-Hoon)

A guerra no Oriente Médio elevou os preços internacionais do petróleo, aumentou os custos logísticos e pressionou a inflação em diversas economias. Ainda assim, a China conseguiu manter sua inflação em níveis relativamente baixos e estáveis.

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Em 2026, o índice de preços ao consumidor (CPI) acumulou alta de apenas 0,9% entre janeiro e abril. Após avançar 1,3% em fevereiro, impulsionado pelo efeito sazonal do Ano Novo Chinês, a inflação voltou rapidamente a patamares moderados, com projeções entre 0,5% e 1,2% para o segundo semestre.

O resultado evidencia como o país desenvolveu uma estrutura econômica capaz de absorver choques externos sem provocar uma escalada inflacionária doméstica.

À primeira vista, esse desempenho pode parecer contraditório. Conflitos no Oriente Médio tradicionalmente pressionam os preços de petróleo, fertilizantes e transporte, impactando a inflação global. No entanto, a China conta com vantagens estruturais relevantes.

Diferentemente de economias como Estados Unidos e Japão, o país tem menor dependência relativa de petróleo e gás natural, que respondem por cerca de 27,5% de sua matriz energética. Além disso, o rápido avanço de fontes renováveis, como energia solar e veículos elétricos, reduziu ainda mais essa vulnerabilidade.

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Mercado chinês: Papel do Estado, da indústria e da competição interna

Outro fator central é a forte capacidade de coordenação estatal. O governo utiliza estoques estratégicos e políticas de estabilização para evitar que choques externos sejam totalmente repassados aos consumidores.

Em maio de 2026, por exemplo, durante o período de safra, o preço doméstico da ureia ficou levemente abaixo do mercado internacional, ajudando a conter os custos agrícolas.

Situação semelhante ocorre com os combustíveis. Em março de 2026, os reajustes internos foram inferiores às variações internacionais, e o país também conta com mecanismos de controle quando o petróleo atinge determinados níveis. Com o barril próximo de US$ 118 em abril de 2026, o governo liberou estoques estratégicos para suavizar os impactos e evitar contágio inflacionário.

Além da atuação estatal, a própria estrutura industrial chinesa exerce papel relevante no controle da inflação. O país possui a cadeia manufatureira mais completa do mundo, integrando setores como siderurgia, petroquímica, logística, eletrônicos e bens de consumo em larga escala.

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Essa integração permite diluir aumentos temporários de custos ao longo da cadeia produtiva, reduzindo a necessidade de repasse imediato ao consumidor final.

Os dados de preços ilustram esse fenômeno. Em abril de 2026, os preços pagos pelas empresas industriais subiram 3,5%, enquanto os preços industriais finais avançaram 2,8%. Isso indica que parte relevante do choque de custos foi absorvida pelas empresas ao longo do processo produtivo.

Outro elemento importante é a intensa competição no mercado doméstico. Milhares de empresas disputam espaço em setores como automóveis, máquinas, produtos químicos e eletrônicos. Em um contexto de demanda ainda moderada, muitas companhias optam por reduzir margens para manter participação de mercado, em vez de elevar preços.

A escala do mercado interno também contribui para conter pressões inflacionárias. Com mais de 1,4 bilhão de consumidores e elevada capacidade produtiva, as empresas conseguem operar com ganhos de escala significativos, reduzindo custos médios e aumentando a eficiência.

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Desde 2025, o governo passou a combater o fenômeno conhecido como “involution”, caracterizado pela competição excessiva, buscando equilibrar eficiência produtiva sem provocar guerras de preços destrutivas.

Como isso impacta o Brasil e os outros países?

Esse conjunto de fatores beneficia não apenas a China, mas também outras economias. Ao manter relativamente estáveis os preços de bens manufaturados, máquinas e eletrônicos, o país ajuda a conter pressões inflacionárias globais. Em vez de exportar inflação, como ocorre em choques de commodities, a China atua como um amortecedor dos preços internacionais.

Para o Brasil, os efeitos são diretos. A estabilidade dos produtos industriais chineses contribui para reduzir custos de máquinas, fertilizantes, equipamentos agrícolas e insumos importados. Em um cenário de juros elevados e volatilidade cambial, esse fator ajuda a aliviar pressões inflacionárias e preservar o poder de compra das famílias.

Além do comércio, a relação com a China envolve investimentos crescentes em infraestrutura, transição energética e modernização tecnológica. Em um contexto de fragmentação geopolítica e reorganização das cadeias produtivas globais, a capacidade chinesa de preservar estabilidade econômica ganha relevância estratégica para o crescimento, a inflação e os investimentos no Brasil.

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A experiência chinesa reforça que a inflação não é apenas um fenômeno monetário, mas também estrutural e institucional. A combinação de planejamento estatal, forte concorrência doméstica, profundidade industrial e escala produtiva ajuda a explicar por que o país consegue controlar a inflação mesmo em um ambiente global marcado por conflitos, volatilidade energética e incerteza geopolítica.

*As análises e opiniões são de responsabilidade exclusiva do autor e não representam uma visão das instituições das quais o autor pertence.

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Vice-presidente do Bank of China (Brasil)
Hsia Hua Sheng é vice-presidente do Bank of China (Brasil) e professor associado de finanças na Fundação Getulio Vargas (FGV- Eaesp). É economista pela Universidade de São Paulo (FEA - USP), mestre e doutor em administração em finanças pela FGV. Foi pesquisador visitante na NYU Stern School of Business e na Shanghai University of Finance and Economics (SHUFE). É especialista em finanças internacionais, com foco em mercados emergentes, com larga experiência profissional em multinacionais. Possui, ainda, várias publicações em revistas acadêmicas e profissionais de excelências internacionais e nacionais.
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Hsia Hua Sheng é vice-presidente do Bank of China (Brasil) e professor associado de finanças na Fundação Getulio Vargas (FGV- Eaesp). É economista pela Universidade de São Paulo (FEA - USP), mestre e doutor em administração em finanças pela FGV. Foi pesquisador visitante na NYU Stern School of Business e na Shanghai University of Finance and Economics (SHUFE). É especialista em finanças internacionais, com foco em mercados emergentes, com larga experiência profissional em multinacionais. Possui, ainda, várias publicações em revistas acadêmicas e profissionais de excelências internacionais e nacionais.
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