Eleições 2026

Entrevista: Eleitorado está ‘calcificado’ entre lulismo e bolsonarismo, mas toda eleição tem surpresas, afirma Felipe Nunes

16 abr 2026, 18:02 - atualizado em 16 abr 2026, 18:09

A consolidação do cenário de 2022 de um eleitorado cada vez mais “calcificado”, dividido entre lulismo e bolsonarismo, dá o tom da largada para a eleição de 2026. Mas toda disputa presidencial reserva surpresas, e mudanças devem ocorrer até outubro, quando será escolhido o próximo presidente da República.

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A avaliação é de Felipe Nunes, fundador e diretor da Quaest, um dos principais institutos de pesquisa do país, em entrevista ao podcast Market Makers, parceiro do Money Times.

Segundo o cientista político, a série de empates entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas presidenciais reflete um padrão estrutural do comportamento eleitoral brasileiro, sem eliminar a possibilidade de reviravoltas até outubro.

Segundo ele, tanto o campo liderado pelo atual presidente quanto o grupo associado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) partem de um piso semelhante, em torno de um terço do eleitorado cada, na disputa.

Esse fenômeno de “calcificação” do eleitorado indica maior previsibilidade inicial, mas não garante estabilidade ao longo da campanha. “Em toda eleição no Brasil a gente tem grandes novidades e grandes surpresas. E eu recomendo a todo analista ou interessado em política tomar cuidado com conclusões apressadas”, disse.

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Roseana, Eduardo Campos, Marina, Lula e uma facada…

Exemplos não faltam, lembrou Nunes na conversa com Thiago Salomão e Leopoldo Rosalino. Na campanha de 2002, Roseana Sarney, então no PFL, chegou a estar tecnicamente empatada com Lula na pré-campanha. Ela sequer foi candidata na eleição em que Lula conquistou seu primeiro mandato.

Em 2014, duas surpresas: Eduardo Campos (PSB), terceira via com poder de suplantar a polarização entre PT e PSDB à época, morreu em um acidente aéreo durante a campanha. A então vice, Marina Silva (no PV, à época), foi alçada ao topo da chapa, era favorita para disputar o segundo turno, mas em três semanas foi superada por Aécio Neves (PSDB), derrotado por Dilma Rousseff (PT).

“O próprio Lula era favoritaço em 1994, até chegar o Plano Real [que garantiu a primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso]”, disse Nunes. “Toda eleição tem sempre uma novidade. Eu acho que não é fácil para ninguém, mas eu não aposto que está resolvida, não”, completou o cientista político.

E mais recentemente aconteceu talvez o maior exemplo do imponderável nas disputas eleitorais. Nas primeiras semanas de campanha nas ruas em 2018, o então candidato Jair Bolsonaro perdia um ponto porcentual nas intenções de voto por dia. O atentado sofrido por ele em Juiz de Fora (MG), em setembro, foi decisivo para ser eleito presidente.

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“A facada faz [Bolsonaro] ter um espaço que ele não tinha, que é o espaço de televisão. Muita gente me pergunta ‘Felipe, você acha que a facada foi decisiva?’ Eu tenho certeza de que foi”, afirmou.

Na avaliação do diretor da Quaest, a calcificação ajuda a organizar os sistemas político e de preferências de opiniões das pessoas, mas sofre de um nível de instabilidade que é a “incerteza do afeto”.

Na prática, daqui até outubro, muita coisa ainda pode acontecer. “Você tem a possibilidade de o governo se recuperar, você tem a possibilidade de o Flávio sofrer com rejeição aguda, e você tem a possibilidade de um outsider se mobilizar”, avaliou.

Mesmo calcificada, há sinais de desgaste na polarização, segundo ele. As pesquisas indicam um cansaço da população com a polarização permanente, ainda que, durante as eleições, o comportamento de “torcida” volte a prevalecer. “O brasileiro não quer viver um clássico todos os dias, mas na hora da eleição veste a camisa”, resume.

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Inclinação à direita e Lula moderado

Nunes avalia também que o Brasil passa por um processo de inclinação à direita, impulsionado por mudanças demográficas, religiosas e informacionais. O crescimento da população evangélica, o envelhecimento dos brasileiros e a fragmentação dos meios de comunicação contribuem para esse movimento.

Ele ressalta que o próprio Lula teve sucesso eleitoral quando adotou posições mais moderadas, ampliando alianças além da esquerda. Para Nunes, Lula perde a eleição como candidato de esquerda, mas ganha eleição quando adota essa postura moderada, mais ao centro e conservadora.

“Quando ele faz a carta ao povo brasileiro, em 2002, traz o José Alencar para ser seu vice e repete [em 2006], depois faz uma aliança com o MDB para levar a Dilma à Presidência e, em 2022, traz o Alckmin. Todas as vezes que o Lula larga a mão, digamos assim, do PT para ser um candidato mais moderado, ele tem competitividade”, avalia.

Nesse cenário, cerca de 30% do eleitorado se declara independente ou indeciso, uma fatia decisiva na escolha do próximo presidente. Para esses eleitores, os desafios variam conforme o candidato. Nomes ligados ao bolsonarismo precisam reduzir a percepção de radicalismo. Lula, por sua vez, precisa apresentar uma agenda futura capaz de responder à insatisfação atual com o governo. Candidatos fora da polarização enfrentam o desafio de ganhar viabilidade eleitoral.

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Outro ponto destacado na entrevista é a mudança no eixo de poder político. Segundo Nunes, o Congresso Nacional vem ganhando protagonismo, enquanto a Presidência perde força relativa, aproximando o sistema brasileiro de uma dinâmica semipresidencialista. Ainda assim, o eleitor segue concentrando atenção na disputa presidencial e pouco acompanha a eleição legislativa, o que dificulta a cobrança por resultados.

No campo econômico, Nunes identifica um descompasso entre indicadores oficiais e percepção popular. Embora dados como crescimento do PIB, queda do desemprego e controle da inflação apontem melhora, a população segue avaliando negativamente a economia.

A explicação está no que ele chama de problema de “affordability”: a renda cresce, mas não acompanha o custo de vida, pressionado por endividamento, juros elevados e novos gastos, como apostas online.

Por fim, o cientista político relativiza o impacto das pesquisas eleitorais sobre o comportamento do voto. Na avaliação dele, em um ambiente altamente polarizado, os levantamentos tendem mais a refletir o cenário do que a influenciá-lo. Eleitores passam a aceitar resultados que confirmam suas crenças e a rejeitar os que as contradizem, em um fenômeno de viés de confirmação.

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Diante desse quadro, Nunes avalia que a eleição será “dura e aberta”, com elevada incerteza até o fim. O principal risco, segundo o fundador da Quaest, é que a disputa permaneça restrita à lógica de confronto entre grupos, sem avanço no debate sobre propostas concretas para o país.

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Jornalista formado pela PUC-Campinas, com pós-graduação em Agronegócios pela Faap. Com mais de 30 anos de profissão, atuou como repórter e editor na Folha de S.Paulo e na Broadcast/Estadão, entre outros veículos. Atualmente é editor-assistente de Política e Conjuntura no Money Times.
Jornalista formado pela PUC-Campinas, com pós-graduação em Agronegócios pela Faap. Com mais de 30 anos de profissão, atuou como repórter e editor na Folha de S.Paulo e na Broadcast/Estadão, entre outros veículos. Atualmente é editor-assistente de Política e Conjuntura no Money Times.
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