Flávio na frente anima mercado, mas há uma pergunta que precisa ser respondida, diz gestor
A vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno nas urnas e o fortalecimento da direita no Congresso ampliam a perspectiva de uma agenda favorável aos ativos brasileiros. Mas o otimismo ainda depende de uma definição central para os investidores: como o próximo governo pretende ajustar as contas públicas.
Essa é a avaliação de Thomas Haugaard, gerente de portfólio da equipe de Dívida de Mercados Emergentes em Moeda Forte. Segundo a análise do gestor, Flávio superou as expectativas ao obter 47,1% dos votos válidos, contra 45,1% de Luiz Inácio Lula da Silva.
O desempenho ficou mais de quatro pontos percentuais acima da média das pesquisas citada por Haugaard. A liderança em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro também sugere, na avaliação dele, uma demanda por mudança política que vai além da mobilização do eleitorado tradicional de direita.
O resultado coloca Flávio como favorito para o segundo turno, marcado para 25 de outubro, segundo o gestor. Além da vantagem inicial de dois pontos percentuais, o candidato deve atrair uma parcela maior dos votos do centro e da centro-direita.
A disputa, porém, permanece aberta. Haugaard aponta as primeiras pesquisas do segundo turno, os apoios políticos, a rejeição aos candidatos e o desempenho nos debates como fatores decisivos. A participação eleitoral também entra nessa conta, especialmente a mobilização dos eleitores que se abstiveram no primeiro turno.
Congresso à direita pode facilitar reformas
Na leitura de Haugaard, a composição do Congresso reforça o cenário favorável a Flávio. O gestor destaca que o PL se tornou o maior partido no Senado e deve formar a maior bancada da Câmara, enquanto a direita e a centro-direita ampliaram sua força legislativa.
Esse quadro pode facilitar a formação de uma base de apoio e a aprovação de reformas em uma eventual gestão do candidato. Ainda assim, a fragmentação partidária e a necessidade de negociação continuam sendo obstáculos à implementação da agenda econômica.
Para Lula, uma vitória no segundo turno significaria governar em um ambiente legislativo mais difícil, avalia Haugaard.
O que falta para sustentar o otimismo
A principal aposta dos investidores é que uma eventual vitória de Flávio abra espaço para a consolidação fiscal e reformas econômicas. O problema, segundo Haugaard, é que nenhuma das campanhas apresentou clareza suficiente sobre o ritmo, a composição e a viabilidade política do ajuste.
“O mercado exigirá, em última instância, a execução das políticas, e não apenas sinais eleitorais”, afirma.
Um plano fiscal consistente poderia reduzir os prêmios de risco – a remuneração adicional exigida pelos investidores para financiar o país –, melhorar a trajetória da dívida pública e favorecer a entrada de capital.
O gestor também vê potencial para a estabilização da classificação de crédito do Brasil em caso de vitória de Flávio, mas condiciona uma avaliação mais clara ao resultado final da eleição.
Assim, embora Haugaard considere o impacto imediato do primeiro turno favorável aos ativos brasileiros, a sustentação desse movimento dependerá das medidas apresentadas pelo vencedor e de sua capacidade de aprová-las no Congresso.