Gestora usada pelo Master na compra de ações do BRB aportou na Fictor às vésperas da RJ
Um fundo gerido pela NorthSea e administrado pela Qore colocou quase metade do seu patrimônio na Fictor Holding em janeiro, quando clientes da companhia já reclamavam de atrasos em pagamentos, dividendos e resgates. Semanas depois, após o pedido de recuperação judicial do grupo, o veículo viu seu patrimônio encolher cerca de 70%.
Com R$ 1 bilhão sob gestão segundo informações disponíveis em seu site, a North Sea já havia surgido em outra frente relevante do ecossistema do Banco Master: o fundo Delta, também sob sua gestão e administrado pela Master Corretora, foi usado pelo banco de Daniel Vorcaro na compra de ações do Banco de Brasília (BRB).
As carteiras enviadas à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram que o Kadesh Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) passou a carregar, em janeiro de 2026, uma exposição relevante à Fictor Holding S.A. — num momento em que clientes da companhia já reclamavam de atrasos em pagamentos, dividendos e resgates, problemas relatados ao menos desde dezembro do ano passado.
No primeiro dia de fevereiro deste ano, o Grupo Fictor entrou com o pedido de recuperação judicial.
Em dezembro de 2025, o Kadesh tinha patrimônio líquido de R$ 26,5 milhões e mantinha praticamente toda a carteira (99,15%) concentrada em títulos de crédito privado da Credcons.
Em janeiro de 2026, o patrimônio líquido do fundo subiu para R$ 31,8 milhões, mas a composição mudou de forma brusca: o fundo passou a registrar um depósito a prazo e outros títulos de instituição financeira emitidos pela Fictor Holding, avaliados em R$ 15,49 milhões, fatia equivalente a 48,65% do patrimônio líquido do fundo.
No mês seguinte, em fevereiro, o patrimônio despencou para R$ 9,65 milhões. Pelos próprios números da carteira, o tombo entre janeiro e fevereiro foi de cerca de 70%.
A perda foi formalizada pela Qore, administradora do fundo, em fato relevante divulgado no dia 25 de fevereiro. No documento, ela informa que, após o reprocessamento da carteira com data-base de 12 de fevereiro, houve variação negativa de 70,09% no valor da cota “em razão da aplicação da PDD [provisão para devedores duvidosos] em sua precificação, devido ao aumento do risco de inadimplência dos ativos em carteira, após os emissores entrarem com solicitação de Recuperação Judicial”.
Ou seja: a exposição à Fictor foi reconhecida no fundo pouco antes do agravamento formal da crise, quando o mercado já vinha recebendo sinais de estresse de liquidez da companhia — estresse que, segundo a própria Fictor, começou justamente após a tentativa de compra do Master, em novembro de 2025.
Procurada, a NorthSea não quis se manifestar. O espaço segue aberto.
- Leia mais: Auditoria que deixou Fictor Alimentos atuou em mais de 100 fundos ligados ao entorno do Master
Outros credores da Fictor
O episódio se encaixa em um quadro mais amplo de inconsistências e ruídos na própria lista de credores da recuperação judicial da Fictor.
A Sefer — segundo maior credor da Fictor, com R$ 430 milhões — contestou na época do pedido inicial sua presença na lista e afirmou que atua apenas como representante legal ou administradora de clientes terceiros.
Na época do pedido inicial, no entanto, a própria Fictor afirmou que o valor devido à Sefer estaria relacionado ao Banco Master. A Sefer é apontada por investigações como representante legal no Brasil da Master Holding, estrutura offshore de Daniel Vorcaro sediada nas Ilhas Cayman, o que conecta a dívida ao ambiente societário internacional do controlador do banco.
A American Express, apontada no processo como a maior credora individual da companhia, também negou ser credora do grupo e afirmou ter sido incluída de forma errônea na relação apresentada à Justiça.
Ainda assim, a subsidiária da companhia americana no Brasil havia fechado, dois anos antes, uma parceria com a Fictor Pay e a Orbitall para oferecer maquininhas e cartões. No documento da recuperação judicial, a Fictor aparece com uma dívida de R$ 893,1 milhões atribuída à Amex.
Outro ponto sensível é que o ex-sócio Luiz Phillippe Gomes Rubini também aparece entre os maiores credores listados pela Fictor, com R$ 34,4 milhões a receber. A presença de Rubini nessa relação amplia a percepção de sobreposição entre pessoas do entorno societário da companhia e o passivo apresentado na recuperação judicial.
A peça do Kadesh acrescenta uma camada nova a essa história porque mostra, em documento de carteira, que um fundo administrado pela Qore — casa que, segundo menções públicas, vem assumindo fundos antes ligados à Reag (também ligada ao Banco Master, segundo investigações) — colocou dinheiro em papel da Fictor num momento em que a companhia já enfrentava reclamações de atraso de pagamento e crescente pressão de liquidez.
Quando já enfrentava problemas com resgates, a Fictor também transferiu da Vortx para a Qore a administração, controladoria, escrituração e custódia de três FIDCs — Fictor Consignado, Fictor Consignado II e FIDC Fictor
As mudanças foram feitas em 23 de janeiro, também poucos dias antes do protocolo da RJ.
Ná época, a Qore afirmou que atua apenas como administradora fiduciária, sem participação econômica nos fundos, e que a transferência de administração é um procedimento regular. Para essa matéria, ela não
Afirmou ainda que a Fictor mantinha fundos com outros administradores, que não teve qualquer envolvimento com fatos anteriores ao início de sua atuação, em junho de 2025, e que não tem relação com a Reag nem com as investigações citadas, reforçando que opera em conformidade com a regulação da CVM e com as melhores práticas de governança.
Justiça e PF fecham cerco à Fictor
A nova peça também se soma ao avanço da pressão judicial e policial sobre o entorno da companhia. Nos últimos dias, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) voltou a determinar o bloqueio de bens de sócios da Fictor, atingindo Luiz Phillippe Gomes Rubini, Rafael Paixão e Rafael Góis, diante de indícios de fraude, confusão patrimonial e sinais de esvaziamento de ativos.
Já nesta terça, a Operação Fallax, da Polícia Federal, colocou a Fictor no centro de uma investigação sobre fraudes bancárias e lavagem de dinheiro: segundo a PF, os responsáveis pelo grupo teriam exercido “papel relevante e estruturante” no esquema, atuando como núcleo de sustentação financeira e operacional, com injeção de recursos para simular liquidez e movimentações entre empresas ligadas à organização.
A investigação aponta indícios de que parte dos valores investigados tinha origem em células criminosas vinculadas ao Comando Vermelho (CV). Rafael Góis e Luiz Rubini estavam entre os alvos de busca e apreensão da operação.