Inflação dos EUA reacende alerta para o Fed, dizem economistas
A inflação americana acima do esperado em setembro reforçou a preocupação com a persistência das pressões sobre os preços e pode recolocar uma alta de juros já em outubro na discussão do Federal Reserve (Fed). Nas avaliações de Avenue e Nomad, a surpresa no núcleo do índice de preços ao consumidor (CPI) aumenta a cautela, mesmo após o resultado fraco do mercado de trabalho.
Divulgado nesta quarta-feira (14), o CPI avançou 0,6% em setembro, acima das expectativas. Em 12 meses, porém, a inflação acelerou de 3,4% para 3,7%, superando a projeção de 3,6%. O núcleo, que exclui alimentos e energia, subiu 0,3% no mês e 2,6% em um ano, ante 2,4% em agosto. As expectativas eram de 0,2% e 2,5%, respectivamente.
Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, o resultado pode alterar a discussão sobre o momento de um novo aperto monetário. Segundo ele, as expectativas vinham apontando para maior estabilidade dos juros, com uma eventual elevação concentrada em dezembro.
“Agora, o resultado do CPI pode trazer de volta à mesa a discussão sobre a possibilidade de uma elevação já em outubro, embora isso ainda dependa da avaliação do conjunto de indicadores econômicos e das próximas sinalizações do Fed”, afirma.
O estrategista relata que a divulgação impulsionou os rendimentos dos títulos públicos americanos, os Treasuries, e o dólar, enquanto pressionou as bolsas dos Estados Unidos.
Gasolina pesa, mas núcleo também preocupa
A gasolina subiu 9,1% em setembro e respondeu por mais da metade da alta mensal do CPI. O grupo de energia avançou 5,2%, enquanto os custos de moradia aumentaram 0,4%. Entre os componentes do núcleo, também houve aumentos em carros usados, recreação, educação, passagens aéreas, assistência médica e vestuário.
Na avaliação de Castro Alves, a combinação entre energia mais cara e pressões em outros componentes evidencia a resistência da inflação americana.
“Esse resultado pode atenuar o movimento recente de queda dos rendimentos dos Treasuries e reacender a discussão sobre a possibilidade de novas altas de juros pelo Federal Reserve”, diz.
Emprego fraco ainda não muda a prioridade
Para Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, a surpresa no núcleo e a aceleração da inflação anual reforçam os argumentos para o Fed manter o foco no controle dos preços.
O economista reconhece que o payroll de setembro, abaixo das expectativas e acompanhado de revisões negativas dos meses anteriores, representa um alerta. Ainda assim, considera que o resultado isolado não permite concluir que o mercado de trabalho entrou em uma trajetória de enfraquecimento.
Essa avaliação, segundo Kayo, dependeria de uma sequência de indicadores mais fracos de emprego.
“A prioridade do Fed deve seguir sendo a inflação, o que reforça o argumento usado na alta de juros de setembro”, afirma.