Reportagem Especial

Nem de direita e nem bolsonarista: Eleitorado jovem no Brasil em 2026 está insatisfeito com a vida (e com o governo)

27 maio 2026, 10:41 - atualizado em 27 maio 2026, 10:41
'Pilili', mascote dos 30 anos da urna eletrônica criado para atrair eleitorado jovem (Alejandro Zambrana/Secom/TSE)

Se o segundo turno das eleições presidenciais de 2026 ocorresse esta semana e o eleitorado brasileiro fosse apenas o do segmento entre 16 anos e 24 anos de idade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria sérias dificuldades de ser reeleito.

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O favoritismo conquistado recentemente contra Flávio Bolsonaro (PL), com uma vantagem 47% a 43% no eleitorado geral, se inverte nessa fatia dos mais jovens e o senador teria 48% a 44% contra o atual presidente, de acordo com a mais recente pesquisa BTG Pactual/Nexus divulgada na segunda-feira (25).

O mesmo cenário ocorreria se Lula enfrentasse Ronaldo Caiado (PSD), outro candidato de direita no segundo turno. Na pesquisa geral, o atual presidente teria 46% contra o ex-governador de Goiás, mas na faixa etária 16-24 anos Caiado tem 47% a 39%, com chances de vitória.

O presidente Lula até venceria Romeu Zema (Novo) – tem 49% a 40% em um segundo turno se considerado os eleitores jovens -, mas nessa fatia de eleitores o ex-governador de Minas Gerais teria seu melhor desempenho, assim como todos os candidatos de centro-direita e direita contra o presidente de centro-esquerda. O eleitorado jovem estaria mais conservador e mais bolsonarista?

A resposta é não, segundo analistas ouvidos pelo Money Times. Para Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, e para Rafael Cortez, cientista político e sócio da Tendências Consultoria, a “insatisfação com a vida” – e não um “endireitamento” desse eleitor – é o principal fator que tem tirado de Lula os votos dessa faixa etária que lhe ajudaram na vitória sobre Jair Bolsonaro em 2022.

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“Essa geração não vivenciou os governos Lula 1 e 2 (de 2003 a 2010). O eleitor de 24 anos, topo do segmento, nasceu com o Lula sendo eleito, tinha 8 anos quando saiu do governo e a maioria tinha 14 quando o PT saiu do poder”, disse Tokarski, da Nexus.

Reféns do passado

Segundo ele, o atual mandato de Lula não teve grandes políticas para o jovem. Parte dessa faixa etária de até 24 anos pode até ter se beneficiado, por exemplo, do Programa Universidade Para Todos (Prouni) criado pelo então ministro da Educação Fernando Haddad, em 2004.

“Mas esse jovem está dirigindo Uber porque não conseguiu o emprego que queria. Não consegue emprego por não ter qualificação e não consegue se qualificar porque não tem dinheiro. O nível de insatisfação com o governo é grande”, explicou o CEO da Nexus.

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Isso está refletido também na aprovação e desaprovação do governo Lula medidas pela pesquisa BTG Pactual/Nexus. Enquanto no resultado geral o governo do presidente é aprovado por 47% e desaprovado por 48%, entre 16 anos a 24 anos a aprovação é de 40% e a desaprovação chega a 55%, a maior diferença entre todas as faixas etárias.

“Não é necessariamente um eleitor bolsonarista, conservador, porque qualquer pesquisa que a gente vê sobre valores, o jovem é menos conservador. O que existe é uma insatisfação com a vida”, reforçou Tokarski.

Antissistema e desamparado político

Na mesma linha, Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, avalia que os eleitores jovens pertencem a um segmento que colheu os frutos do aumento das expectativas de que a ascensão pessoal era possível. Mas esse eleitor enfrenta barreiras e vive sem o suporte político representado pelo governo.

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“Há uma sensação de desamparo com um quadro político mais instável desde o impeachment (da presidente Dilma Rousseff), seguido do ocaso dos partidos políticos. Isso explica a tendência de fazerem opções contra o mainstream ou um voto de protesto”, avaliou Cortez.

Para o cientista político, o segmento mais jovem do eleitorado não viveu o que ele chama de época de ouro da política brasileira, com a contribuição programática de partidos políticos para a população. “Seja no Plano Real dos governos do PSDB, seja na política de renda social nos dois primeiros governos Lula”, afirmou.

Renan Santos e Joaquim Barbosa, os extremos do eleitorado jovem

Quem aproveita essa brecha antissistema é o influenciador Renan Santos, pré-candidato a presidente pelo Missão, partido oriundo do Movimento Brasil Livre (MBL). Comum discurso liberal de centro-direita e milhões de seguires em redes sociais, o empresário e músico de 42 anos tem seu melhor desempenho, com folga, nas pesquisas eleitorais se considerada a faixa 16-24 anos.

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Em um cenário de primeiro turno, Renan Santos tem entre 9% e 10% das intenções de voto nesse segmento etário, contra 3% do seu desempenho geral. Nesse cenário, o pré-candidato do Missão seria o terceiro colocado, abaixo de Lula, com 39% da preferência do eleitorado jovem e Flávio Bolsonaro com 37%.

“Renan está nas redes, é o que mais bate em Lula e em Flávio Bolsonaro, nos dois lados. É um franco-atirador que capta essa parcela insatisfeita do eleitorado”, resumiu Tokarski, da Nexus.

Do outro lado da preferência do eleitorado jovem está Joaquim Barbosa (DC). Ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) entre 2013 e 2014, o ex-presidente da Corte teve seu auge em 2006 com a relatoria do escândalo do Mensalão, que investigou a compra de votos de parlamentares no primeiro governo de Lula.

Barbosa é praticamente desconhecido pelo eleitorado entre 16 e 24 anos e muitos nem eram nascidos na época do Mensalão. Incluído pela primeira vez em uma pesquisa eleitoral e concorrendo pelo Democracia Cristã (DC), o ex-ministro tem entre 2% e 3% e empata com Renan Santos no eleitorado geral no primeiro turno, mas tem 0% no segmento jovem.

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“O eleitor jovem do auge do Joaquim Barbosa tem mais de 35 anos hoje”, concluiu o CEO da Nexus. Esse eleitor parece, de fato, lembrar do ex-ministro do STF. É na faixa entre 25 anos e 40 anos que Barbosa tem os maiores porcentuais, entre 2% e 4% de preferência do eleitorado.

Metodologia

A pesquisa foi realizada por telefone com eleitores maiores de 16 anos. Foram entrevistadas 2.045 pessoas entre sexta-feira (22) e domingo (24) nos 26 estados e no Distrito Federal. Desse total, 17%, ou 348 eleitores, são da faixa entre 16 anos e 24 anos.

A margem de erro na pesquisa toda e ponderada é de 2 pontos porcentuais para mais ou para menos, com um índice de confiança de 95% e a pesquisa foi tem o registro BR-04193/2026 no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

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Jornalista formado pela PUC-Campinas, com pós-graduação em Agronegócios pela Faap. Com mais de 30 anos de profissão, atuou como repórter e editor na Folha de S.Paulo e na Broadcast/Estadão, entre outros veículos. Atualmente é editor-assistente de Política e Conjuntura no Money Times.
Jornalista formado pela PUC-Campinas, com pós-graduação em Agronegócios pela Faap. Com mais de 30 anos de profissão, atuou como repórter e editor na Folha de S.Paulo e na Broadcast/Estadão, entre outros veículos. Atualmente é editor-assistente de Política e Conjuntura no Money Times.
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