Juros mais baixos nos EUA vem aí? O que esperar de Kevin Warsh no comando do Fed
Na manhã desta sexta-feira (30), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a indicação de Kevin Warsh como o novo presidente do Federal Reserve (Fed), para substituir Jerome Powell, que encerra o mandato em maio.
“Conheço Kevin há muito tempo e não tenho dúvidas de que ele será lembrado como um dos GRANDES presidentes do Fed, talvez o melhor”, disse Trump em uma publicação no Truth Social.
A nomeação, que ainda depende de aprovação do Congresso norte-americano, surpreendeu o mercado. Até ontem (29) no horário do fechamento dos mercados, o nome de Rick Rieder, chefe de investimentos da BlackRock, era o mais cotado para a cadeira do BC, com 38% de chance.
Além de Warsh e Rieder, Christopher Waller – também diretor do Fed – e Kevin Hassett – diretor do Conselho Econômico Nacional dos EUA – estavam entre os possíveis indicados ao cargo.
Reação do mercado
Após a indicação, os rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano, os Treasuries, permaneceram estáveis e, logo depois, engataram o ritmo de alta.
Os índices futuros de Wall Street operaram no vermelho no pré-mercados, estendendo o tom negativo para o pregão regular. O índice S&P 500 abriu em queda de 0,5%, o Nasdaq tinha recuo de 0,6% e o Dow Jones iniciou com baixa de 0,3%, com a expectativa de que Warsh seja menos rigoroso com cortes nos juros.
Os contratos futuros do ouro caíram mais de 4%, enquanto os futuros da prata despencaram 12%. Apesar das quedas, o ouro e a prata acumulam altas de 80% e 209%, respectivamente, no acumulado dos últimos 12 meses.
Já o DXY, que compara o dólar com uma cesta de seis moedas fortes – euro, iene, libra esterlina, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço –, firmou alta, em recuperação as perdas recentes, no nível de 96 pontos.
“O dólar estava aguardando um gatilho para a recuperação e a notícia de que Kevin Warsh é o novo indicado para a presidência do Fed oferece exatamente isso”, disse Francesco Pesole, estrategista de câmbio do ING, em nota.
“Com indicação de Warsh, o mercado já começou o questionamento sobre a continuidade de um dólar mais fraco, com reflexo nas fortes movimentações do ouro”, afirmou o William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue.
Warsh no Fed: o que esperar
Kevin Warsh foi diretor do Fed e integrou o Conselho de Governadores entre 2006 e 2011, período que incluiu a crise financeira de 2008, atuando nos resgates a instituições bancárias e o início de políticas não convencionais de estímulo, como o afrouxamento quantitativo – conhecido como “Quantitative Easing”, que é a compra de títulos do Tesouro e outros ativos financeiros pelo Fed para conter a volatilidade e resulta, por exemplo, na desvalorização da moeda.
Mas, nos últimos anos, ele passou a criticar publicamente algumas práticas do Fed, como o tamanho do balanço patrimonial e a manutenção prolongada de políticas monetárias expansionistas.
Em artigo recente no The Wall Street Journal, Warsh afirmou que a “inflação é uma escolha e o histórico do Fed sob o comando de Jerome Powell é uma das escolhas imprudentes”.
Também, em suas últimas declarações, o indicado ao Fed defendeu que a redução das reservas de títulos do BC – de mais de US$ 6 trilhões – permite cortar as taxas sem causar aumento na inflação.
Em entrevista à CNBC no ano passado, ele ainda disse que o BC precisa de uma “mudança de regime”.
Para a Nomad, o mercado viu a indicação de Kevin Warsh reforçou como um nome de credibilidade institucional.
“Warsh, ex-governador do Fed de 2006 a 2011, defende cortes de juros, mas é conhecido por ter historicamente uma postura hawkish, o que diminui a visão de risco de captura política total do Banco Central, diferentemente do que Rieder ou Hassett poderiam representar”, afirmou Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.
Na mesma linha, William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, destaca que, entre os nomes aventados para a comando do Fed, a indicação de Warsh “foi a melhor e o mais bem-visto pelo mercado”.
“O Rieder é um cara essencialmente do mundo corporativo, o que poderia ser visto com certa desconfiança. Já o Hassett é mais alinhado ao MAGA [Make America Great Again] e pró-Trump e quando a questão é a independência do Banco Central, isso é relevante”, afirmou.
“Warsh já tem experiência, pensamento mais firme e um pulso mais reformista. Ele quer deixar um legado para o Fed e já falou, várias vezes, em mudar a forma como o BC atua e reduzir a burocracia.”
Para Matheus Spiess, da Empiricus Research, “Warsh hoje parece atribuir à inteligência artificial um papel potencialmente desinflacionário, o que, em tese, poderia abrir espaço para uma condução um pouco mais flexível da política monetária”.
“Ainda assim, qualquer mudança efetiva dependerá da sua capacidade de construir consenso dentro do próprio Comitê e de convencer um mercado de títulos especialmente sensível a indícios de interferência política”, acrescentou Spiess.
O analista ainda destaca que “mesmo que venha a ser percebido como relativamente mais dovish em comparação à atual gestão de Jerome Powell, apesar do histórico hawk, isso não seria um problema — desde que inserido no arcabouço técnico e institucional do BC.”
Com a indicação de Warsh, o mercado mantém a aposta de redução de 50 pontos-base ao longo deste ano, de acordo com a ferramenta FedWatch, do CME Group.
Os agentes financeiros também permaneceram apostando em uma retomada de cortes nos juros norte-americanos em junho – o que seria a primeira decisão de política monetária sob o comando de Warsh.
“Consideramos Warsh um pragmático, não um linha-dura ideológico, na tradição dos banqueiros centrais conservadores independentes”, disse Krishna Guha, chefe de política global e estratégia de Bancos Centrais da Evercore ISI, em nota.
“Por ter uma reputação de linha-dura e ser visto como independente, ele está em melhor posição para convencer o Fomc a implementar pelo menos dois, e possivelmente três, cortes nas taxas de juros este ano, do que alguns concorrentes.”
Na última quarta-feira (28), o Comitê de Política Monetária (Fomc, na sigla em inglês) do Fed manteve os juros inalterados na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano.
*Com informações de CNBC, The Wall Street Journal e The New York Times.