‘Lula começa o quarto mandato com mais força’, afirma diretor da Eurasia no Brasil
A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição para o quarto mandato foi mais forte do que a de 2022, devido à margem maior de diferença de votos em relação ao senador Flávio Bolsonaro (PL), de 3,58%, avalia o diretor para Brasil da Eurasia Group, Silvio Cascione.
Em entrevista concedida ao Money Times, Cascione avalia que essa força de Lula no segundo turno veio a partir de uma mobilização muito grande nas redes sociais e também nas ruas.
“O Congresso Nacional pode estar um pouco mais à direita agora, mas agora o presidente que está à frente desse Congresso está com ‘sangue novo’. Então, a tendência é que o Hugo Motta se reeleja e a maioria da Câmara manteve o mesmo perfil em relação a esse mandato”, explica.
Já para o Senado, também há maior dificuldade agora para o PL tentar emplacar um presidente na casa.
“A tendência é que o Davi Alcolumbre se mantenha no cargo. Isso também ajuda o Lula a pelo menos começar o mandato tendo em quem se apoiar, podendo aprovar Propostas de Emenda à Constituição (PECs), algo que é positivo”, diz.
Economia será o foco do Lula 4
Na avaliação do diretor da Eurasia, a economia será muito importante em termos de popularidade do novo mandato de Lula, visto que a política fiscal seguirá no foco e precisará indicar algum nome para o Ministério da Fazenda que tranquilize o mercado.
“Não precisa ser um estelionato eleitoral, cortando o que ele prometeu durante a campanha, mas sim controlando o gasto obrigatório e o crescimento dessas despesas. Se ele conseguir montar um time que aprove isso no Congresso, tem que ver como a popularidade dele vai evoluir, e o contexto internacional não é ruim para o Lula”, afirma Cascione.
Entre os nomes cogitados pelo mercado, estão o atual presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, o vice-presidente, Geraldo Alckmin, e o economista-chefe do BTG Pactual, Mansueto Almeida.
No entanto, Cascione considera que é preciso tomar cuidado com o vazamento de nomes neste primeiro momento, visto que “tudo é muito especulativo” agora. “O Lula ainda está saindo da eleição, deixando a poeira baixar pelo menos por um dia”, afirma.
Por ora, o governo segue comprometido com melhorar o primario e entregar um superávit de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, o governo deve aprovar uma PEC para controlar os gastos e incluir despesas que antes ficavam de fora do arcabouço fiscal, como Saúde e Educação.
Desafio para os institutos de pesquisa
Na avaliação do diretor da Eurasia no Brasil, as pesquisas de intenção de voto erraram principalmente ela mobilização sem precedentes do eleitor de esquerda e de um eleitor que estava menos engajado, mas que tinha uma rejeição muito forte ao Flávio Bolsonaro.
“A medição desses eleitores não foi bem feita pelas pesquisas e isso terá que ser revisto, porque havia sinais de estreitamento na diferença entre os dois candidatos, dava para ver que essa mobilização estava deixando a eleição muito competitiva”, afirma Cascione.
Segundo o diretor da Eurasia, alguns institutos, como a Quaest, por exemplo, conseguiram mostrar simulações de que se a abstenção fosse menor, haveria uma virada com isso.
“Então, estava sendo mapeado de alguma maneira, mas faltou uma maneira de ponderar os dados ou de reconstruir essa amostra de forma que os institutos pudessem concluir que haveria uma virada”, explica.
Além disso, Cascione considera que o segundo turno foi uma oportunidade de virada de chave na campanha do petista, com um clima de mudança.
No primeiro turno, a campanha foi ruim, predominantemente analógica e com o tema do Supremo Tribunal Federal (STF) dominando as manchetes, o que reduziu a vantagem de Lula mesmo com a incumbência.
Já no segundo, Cascione avalia que a campanha de Lula se tornou eficaz ao adotar a “campanha negativa”, de comparar o governo Lula com a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Então, o Flávio tinha a vantagem, mas não tinha um apoio muito fiel do eleitorado e as pessoas foram perdendo a convicção nele. Isso pesou no segundo turno e o Lula foi tomando essa vantagem de incumbência”, diz.
Para Cascione, Lula precisava de muitas condições para conseguir virar no segundo turno, como a mobilização popular contra Flávio, engajar as pessoas desestimuladas com o Flávio a votar e angariar o voto dos candidatos alternativos. “Só com essas três condições ele poderia virar e ele acabou cumprindo as três”, conclui.