“Não somos imunes”: CEO do Itaú vê cenário mais difícil em 2027, com juros altos e risco de piora do crédito
“Não somos imunes, nunca fomos imunes.” A ressalva do CEO do Itaú Unibanco (ITUB4), Milton Maluhy Filho, dá o tom da cautela do maior banco privado do país diante das perspectivas para 2027.
O executivo afirma que a instituição está mais preparada para enfrentar um ciclo econômico adverso, mas reconhece que juros elevados por mais tempo, menor crescimento e possível aumento do desemprego devem trazer desafios para o mercado de crédito.
Em coletiva com jornalistas sobre os resultados do terceiro trimestre, Maluhy chamou atenção para a combinação de famílias com maior comprometimento de renda e empresas que precisarão refinanciar dívidas a custos mais altos.
Na avaliação do executivo, esse cenário pode afetar tanto a demanda por empréstimos quanto a capacidade de pagamento dos clientes.
“Os economistas estão todos revisando suas projeções de PIB para o ano que vem, portanto, possivelmente haverá menos crescimento. […] Tudo isso aliado a uma economia em que as famílias já estão com comprometimento de renda mais alto e as empresas precisando se refinanciar a uma taxa de juros mais elevada desperta preocupações em relação ao cenário que vem para 2027”, afirmou.
Diante desse quadro, o Itaú pretende manter a estratégia de crescimento com disciplina, priorizando clientes considerados mais resilientes e modalidades de crédito com maior nível de garantias.
A política vem sendo construída há vários trimestres e, segundo Maluhy, busca evitar uma expansão acelerada em momentos favoráveis que possa cobrar seu preço quando a economia desacelerar.
“Muitas vezes, não oferecer um produto e oferecer uma solução é o melhor para determinados públicos”, disse o CEO, em referência a clientes que já apresentam elevado comprometimento de renda.
A carteira de crédito do Itaú encerrou setembro em R$ 1,54 trilhão, com alta de 2,2% no trimestre e de 10,8% em 12 meses. Maluhy afirmou que o objetivo é preservar a qualidade desse portfólio ao longo dos ciclos econômicos, sem buscar crescimento a qualquer custo.
Itaú prioriza geração de valor, não apenas rentabilidade
Questionado sobre a possibilidade de sacrificar parte do retorno para adotar uma postura mais conservadora, Maluhy afirmou que a gestão da instituição não é orientada exclusivamente pela busca de um ROE elevado, mas pela geração de valor ao acionista.
O executivo destacou que o custo de capital do Itaú subiu recentemente, influenciado pela trajetória dos juros de longo prazo, pela volatilidade dos mercados e por fatores como o ambiente institucional e a segurança jurídica.
Nesse contexto, o retorno das operações de crédito tem ficado apenas ligeiramente acima do custo de capital, segundo Maluhy. Parte relevante da rentabilidade do banco vem das receitas de serviços, seguros e do relacionamento mais amplo com os clientes.
O CEO também afirmou que a demanda por crédito já apresenta redução em diferentes segmentos.
Entre as grandes empresas, a incerteza tem levado empresários a encurtar os prazos de financiamento, priorizar operações de capital de giro e adiar investimentos enquanto aguardam maior clareza sobre o cenário.
“O nosso papel não é ser nem conservador nem agressivo, é ser realista”, afirmou Maluhy.
Segundo ele, a prioridade é manter um balanço sólido e buscar crescimento sustentável, acompanhando os riscos sem abrir mão da disciplina na alocação de capital.