Nem todo prêmio vale o risco: Sparta vê crédito privado menos atrativo
Após um longo período marcado por retornos estáveis e baixa volatilidade, os investidores de fundos de debêntures incentivadas passaram a enfrentar um cenário diferente, com oscilações mais acentuadas, desempenho inferior ao CDI e, em alguns casos, desvalorização temporária das cotas. Na avaliação da Sparta, gestora especializada em crédito privado com mais de R$ 23 bilhões sob gestão, esse movimento revelou uma percepção equivocada de parte dos investidores sobre os riscos envolvidos nesses produtos.
Segundo a casa, muitos investidores passaram a enxergar os fundos de debêntures incentivadas como alternativas semelhantes a aplicações pós-fixadas de baixo risco, como CDBs e o Tesouro Selic. Entretanto, quando as condições de mercado mudaram e as debêntures, tanto incentivadas quanto tradicionais, passaram a registrar oscilações de preço, ficou evidente que esses ativos estão sujeitos a riscos de mercado que nem sempre eram plenamente considerados pelos cotistas.
Crédito não é CDI isento de IR
A Sparta chama atenção para o que considera mais relevante neste momento. Mesmo depois do aumento recente nas taxas das debêntures, a remuneração dos fundos incentivados ainda não parece suficiente para compensar a volatilidade que o investidor passou a experimentar.
Os títulos de renda fixa privados pagam um prêmio acima dos títulos públicos — chamado de spread — justamente porque são mais arriscados. Quando o mercado percebe mais risco, esse prêmio deveria subir.
O problema, segundo a gestora, é que os prêmios não aumentaram o suficiente para compensar os riscos.
As oscilações de preços mais intensas, que aconteceram recentemente, e a taxa deixaram claro que este produto carrega:
- risco de spread (aumento e queda de taxa);
- risco de fluxo (entrada e saída de investidores); e
- sensibilidade a movimentos técnicos do mercado (aumento ou queda nas expectativas de juros).
“A estabilização dos spreads reduz a pressão de curto prazo, mas não resolve a questão central: se o retorno esperado remunera adequadamente a volatilidade que essas estratégias passaram a entregar”, diz a carta.
A discussão deixou de ser apenas financeira. A gestora também questiona se esses fundos entregam aquilo que boa parte dos investidores imaginava estar comprando.
Quem compra os fundos incentivados agora?
O fluxo para os fundos incentivados é outro ponto de atenção agora.
Na visão da gestora, o mercado de debêntures, incentivadas e tradicionais, viveu nos últimos anos uma forte sustentação vinda da entrada constante de novos recursos. Agora, essa dinâmica começa a mudar.
Mais do que os resgates (saída de investidores) — que somaram R$ 14 bilhões em maio —, o que chamou atenção da Sparta foi a queda da captação dos fundos de debêntures incentivadas.
Em outras palavras: o problema não é apenas quem está saindo, mas quem não está entrando.
“O problema não é apenas saber se os resgates continuarão. É saber se volta a existir comprador suficiente para sustentar a classe sem o fluxo que marcou boa parte do ciclo anterior”, diz a carta.
Para a gestora, quando um produto deixa de entregar aquilo que o investidor imaginava receber, a reavaliação costuma acontecer aos poucos — mas pode mudar estruturalmente o comportamento da demanda.
Onde a Sparta ainda vê oportunidade
A gestora está mais cautelosa com os fundos incentivados que buscam entregar retorno próximo do CDI, mas não vê um problema generalizado no crédito privado.
A grande questão é entender os riscos que as debêntures carregam e se expor somente se tiver tolerância a esse nível de oscilação. Embora seja um título de renda fixa, não é um investimento livre de riscos e volatilidade.
A preferência da Sparta neste momento está em estratégias indexadas à inflação e prefixadas.
O motivo é que, nesses casos, o retorno depende mais do nível elevado dos juros reais (que subtraem a inflação da Selic) e nominais do que de um novo fechamento dos spreads de crédito.
A mensagem da Sparta não é que as debêntures incentivadas deixaram de ser atrativas. Esses fundos podem continuar fazendo sentido dentro da carteira de renda fixa — mas não devem ser tratados como uma versão turbinada e isenta do CDI.