‘Nossa liderança não vem de amarras contratuais’: iFood responde à concorrência e detalha estratégia para se manter no topo
Líder no setor de delivery no Brasil, o iFood vive uma disputa acirrada pelo mercado. A chegada das concorrentes 99Food e Keeta revelou uma guerra comercial envolvendo denúncias de contratos abusivos, espionagem corporativa, descontos agressivos e competição por funcionários, e a necessidade de inovação.
Em entrevista para o Money Times, Felipe Crull, diretor de Relações Institucionais do iFood, é direto sobre o assunto: “Nossa liderança no mercado não vem de amarras contratuais, mas sim da qualidade da proposta de valor que oferecemos: tecnologia de ponta, alcance nacional, ferramentas de gestão, soluções financeiras e um ecossistema robusto que gera demanda e oportunidades.”
O executivo destaca que a empresa cumpre integralmente o acordo firmado com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), estabelecido há cerca de três anos, o qual define limites estritos para os contratos de exclusividade da plataforma com restaurantes, além de prever prestação de contas semestral com auditoria independente.
“Enxergamos a entrada de novos players como algo natural e, em certa medida, saudável para o mercado. A competição estimula a inovação e pode trazer benefícios para todo o ecossistema, desde que seja feita de forma responsável e sustentável”, afirma.
Crull aponta que a sustentabilidade do modelo de negócio é um dos principais desafios do mercado de delivery atualmente e que subsídios agressivos, como os oferecidos pela recém-chegada Keeta, tendem a se sustentar apenas no curto prazo, criando distorções.
“Quando o subsídio acaba, restaurantes ficam com capacidade ociosa e entregadores passam a perder horas de trabalho. Já vimos isso acontecer no Brasil e em outros mercados”, destaca. “Acreditamos em competição leal, com regras claras, e confiamos que as autoridades brasileiras estão acompanhando o setor para garantir uma concorrência saudável”, completa.
Planos de expansão: Cidades pequenas no radar
Hoje, o iFood conta com mais de 65 milhões de clientes ativos, 500 mil estabelecimentos parceiros e presença em mais de 2 mil cidades brasileiras. A meta é ampliar esses números.
Segundo o executivo, o mercado de delivery ainda tem amplo espaço para crescimento no Brasil.
“Hoje, o delivery representa uma parcela pequena do faturamento do setor de alimentação fora do lar, o que evidencia um grande potencial de expansão.”
Crull afirma que a estratégia de crescimento não se limita aos grandes centros urbanos. A companhia vem priorizando cidades menores e regiões onde a digitalização do comércio ainda está em estágio inicial.
De acordo com ele, o iFood acumula anos de investimento em tecnologia e logística que permitem operar de forma eficiente em diferentes realidades regionais.
“Em cidades menores, trabalhamos com restaurantes locais, muitas vezes negócios familiares, que passam a ter acesso a ferramentas de gestão, marketing digital e uma vitrine ampla. Também criamos oportunidades de renda para entregadores dessas localidades, que encontram no iFood flexibilidade e autonomia para trabalhar”, afirma.
Além dos restaurantes
O iFood também vem ampliando sua atuação para supermercados, atacadistas, farmácias, pet shops e lojas de conveniência.
“Esse movimento reflete nossa ambição de ir além de um aplicativo de entrega de comida. Queremos nos consolidar como uma plataforma de conveniência para o dia a dia dos brasileiros”, diz o executivo.
A empresa começou a atuar no segmento de farmácias em 2019. No último ano, a vertical cresceu cerca de 80%, alcançando 20 mil farmácias ativas em aproximadamente 900 cidades.
Segundo Crull, também foi lançado o Turbo Farmácia, um serviço de entregas ultrarrápidas, de 10 a 20 minutos, voltado a demandas urgentes dos consumidores, e que tem sido bem recebido.
No caso de mercados, entre março de 2025 e março de 2026, houve crescimento de 60% na vertical, com a entrada de 3 mil novas lojas e expansão para todos os estados do país.
Ainda assim, o executivo aponta desafios: “No segmento de mercados e atacados, a penetração online ainda é baixa, de um dígito. Isso representa uma oportunidade, mas exige investimentos contínuos em tecnologia, logística e mudança de hábito”, afirma.
Serviços financeiros
A empresa também tem expandido seu braço financeiro, o iFood Pago, voltado a pequenas e médias empresas.
Desde 2020, já foram liberados mais de R$ 3 bilhões em crédito para aproximadamente 67 mil estabelecimentos parceiros. Atualmente, mais de 200 mil restaurantes utilizam a conta digital da plataforma, e cerca de 70% deles não tinham acesso a crédito antes.
“Como temos dados operacionais detalhados, conseguimos avaliar risco com mais precisão e oferecer condições mais acessíveis”, destaca.
A expectativa para 2026 é acelerar o crescimento, com previsão de expansão entre 50% e 60% e desembolso superior a R$ 2 bilhões.
Inovação
Em 2025, o iFood investiu R$ 17 bilhões em tecnologia e inovação, com projetos envolvendo inteligência artificial para otimizar rotas, prever demanda e personalizar recomendações. Um dos destaques recentes foi o uso de drones para entregas. No início de junho, a empresa iniciou operações em Barueri (SP), após experiência anterior em Sergipe, em 2021.
Segundo Crull, a escolha da região foi estratégica: cerca de 50% dos pedidos eram recusados por entregadores devido à complexidade de acesso aos condomínios. “O drone resolve esse problema de forma eficiente, tornando viáveis rotas antes evitadas. Mas é importante destacar que o entregador continua sendo peça fundamental”, afirma.
Na prática, o pedido é coletado por um mensageiro ou robô, colocado no drone e transportado por 3,6 km em cerca de cinco minutos. O equipamento pousa em um ponto específico do condomínio, e a etapa final é realizada por um entregador.
Crull ressalta que a inovação não substitui os trabalhadores e destaca iniciativas voltadas à categoria, como metas financeiras personalizadas, antecipação de repasses e maior transparência em incentivos. “Somente em 2025, o iFood destinou mais de R$ 744 milhões a iniciativas voltadas ao apoio dos entregadores que utilizam a plataforma”, afirma.
Segundo ele, a empresa mantém 41 pontos de apoio com estrutura para descanso, hidratação e acesso a serviços, além de oferecer seguro contra acidentes de até R$ 120 mil e programas de capacitação profissional.