Cotações por TradingView
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O futuro descentralizado do armazenamento de dados

17/10/2020 - 13:00
Traduzido e editado por Daniela Pereira do Nascimento
Soluções de armazenamento de dados baseadas em blockchain, como Filecoin, Siacoin, 0Chain e Storj, melhoram a segurança e a privacidade de soluções de armazenamento em nuvem já existentes. David Freuden, da Monsterplay, as analisa (Imagem: Freepik)

A melhor e mais contemporânea abordagem prática em relação ao armazenamento de dados é a regra 3-2-1: “tenha três cópias de seus dados em dois tipos de mídia de armazenamento com uma cópia mantida em algum local externo”.

Para empresas, negócios e governos, esse é o padrão mínimo que deve ser seguido para evitar a perda de dados.

Porém, para grande parte das pessoas, isso se materializa como armazenamento de dados em um disco rígido local, um back-up em um HD externo e, desde o início dos anos 2000, dados importantes e excedentes vivem na nuvem.

Nesse caso, “nuvem” se refere ao armazenamento de dados computacionais em que os dados digitais são armazenados em pools de lógica, que estão “na nuvem”.

O armazenamento físico desses dados pode ser dividido em diversos servidores e localizações pertencentes a uma empresa de hospedagem.

Empresas de hospedagem de armazenamento são responsáveis por manter os dados on-line e acessíveis, tanto em ambientes virtuais como físicos. Pessoas, empresas e governos podem adquirir ou alugar a capacidade de armazenamento de dados.

Os dados são acessados por meio de um serviço de computação em nuvem, uma interface de programação de aplicações (API) ou por aplicações que usam a API, como armazenamento em nuvem via desktop ou sistemas de gerenciamento de conteúdo.

Armazenamento em nuvem é um mercado importante e, segundo o site MarketsandMarkets, poderá crescer de US$ 50,1 bilhões em 2020 para US$ 137,3 bilhões até 2025, a uma taxa anual de crescimento de 22,3% durante o período previsto.

Identidade autossoberana
e portabilidade de dados
oferecem mais confiança

“Nuvem” se refere ao armazenamento de dados computacionais em que os dados digitais são armazenados em pools de lógica, que estão “na nuvem” (Imagem: Freepik/kjpargeter)

Crise de privacidade

A violação de dados aparece em manchetes há décadas e parece não haver fim. As dez principais violações de dados em 2018 afetaram 2.438 bilhões de contas pessoais.

Não se passa uma semana sem haver grandes violações de dados, hacks ou incidentes de segurança. Por exemplo, esta semana, o jornal The Times noticiou:

Empresas que coletam dados em bares e restaurantes para ajudá-los a cumprir com suas tarefas de rastreamento de contatos estão coletando informações confidenciais de clientes para vendê-las.

Especialistas jurídicos alertam sobre uma ‘crise de privacidade’ causada por um aumento na exploração de códigos QR para obter nomes, endereços, números de telefone e informações de e-mail antes de enviá-los a marqueteiros, empresas de crédito e corretores de seguro

O risco, quando lemos artigos desse tipo, em que fornecedores vendem dados pessoais, ou manchetes sobre hacks e vazamento de dados, é provável seu, e não da empresa de armazenamento em nuvem, cujos dados privados (arquivos privados, informações pessoais e identidade) foram comprometidos e, agora, estão nas mãos de maus agentes que nunca deveriam ter acesso a seus dados.

Leis de proteção de dados
e registro distribuído: de quem são os dados?

Maus agentes nunca deveriam ter acesso a dados de clientes vendidos por grandes empresas (Imagem: Freepik/vectorpouch)

A solução do blockchain

Inúmeras startups blockchain propõem alternativas baseadas em blockchain aos fornecedores de armazenamento em nuvem já existentes. Cada uma está criando uma solução diferente, mas os modelos são parecidos.

Uma plataforma descentralizada de armazenamento em nuvem possui diversas vantagens em comparação a fornecedores existentes.

Podem apresentar melhor segurança e anonimidade (sem necessidade de cadastramento), sem servidores, menores custos e oportunidades de monetização, sem confiar em terceiros.

Uma solução de armazenamento em nuvem criada no blockchain divide dados em inúmeros segmentos criptografados que são interligados por uma função hash (com caracteres aleatórios). Esses segmentos são assegurados e distribuídos em uma rede descentralizada.

Uma forte criptografia por meio de chaves públicas/privadas e blocos com função hash fornecem uma segurança extremamente confiável e robusta que não pode ser invadida nem pelos hackers mais sofisticados.

Além de colocar seus dados fora do alcance de hackers, a natureza pública e verificável dos blockchains permite que usuários rastreiem e monitorem o histórico de armazenamento e de back-up para confirmar que os dados originais não foram alterados.

Ofertas iniciais de moeda (ICOs) eram a principal fonte de financiamento encontrada por empresas cripto que desejam desenvolver determinados produtos, mas ainda não tinham o capital necessário (Imagem: Freepik/macrovector)

Em 2017, diversas startups blockchain realizaram ofertas iniciais de moeda (ICO) e entraram para o setor de armazenamento de dados. Prometeram melhor segurança, acesso de alta velocidade a dados e cumprimento a regulamentações.

Filecoin: arrecadou US$ 257 milhões em setembro de 2017;

0Chain: arrecadou US$ 40 milhões em fevereiro de 2018;

Storj: arrecadou US$ 30 milhões em maio de 2017;

Siacoin: arrecadou US$ 10 milhões do SiaFund e de investidores de capital de risco pela Nebulus. A fase beta foi lançada em março de 2015.

Esses projetos blockchain estão enfrentando o problema do armazenamento em nuvem com uma proposta de valor um pouco diferente.

Uma solução descentralizada de armazenamento remove grande parte do risco de violação de dados e invasão, seja este intencional (entidades que coletam e armazenam dados para vender ou fornecer a terceiros, incluindo governos) ou não intencional (hacks e roubo).

A rede Filecoin irá garantir armazenamento de dados em setores seguros, mercado de armazenamento competitivo e armazenamento descentralizado e verificável (Imagem: Gemini/Blog)

Filecoin

Filecoin (FIL) se descreve como uma rede descentralizada de armazenamento criada para armazenar as informações mais importantes da humanidade.

É desenvolvida pelo Protocol Labs, estúdio de desenvolvimento de São Francisco apoiado por empresas de capital de risco como Andreessen-Horowitz (a16z) e Sequoia Capital.

Juan Benet, fundador da Filecoin, está posicionando a rede Filecoin como um marketplace de última geração para o armazenamento de dados.

Filecoin é uma possível competidora dos fornecedores centralizados de armazenamento em nuvem Amazon, Dropbox e Google — bem como de redes de distribuição de conteúdo, como Cloudfare.

Três anos após sua ICO recorde de US$ 257 milhões, a rede Filecoin foi lançada na última quinta-feira (15). A rede principal foi lançada no bloco 148.888.

Assim como muitos projetos de ICO, Filecoin atrasou seu cronograma. Havia planejado lançar sua rede principal em 2019, por exemplo. Hoje, Filecoin possui mais de 200 projetos e mil desenvolvedores prontos para trabalhar no protocolo.

0Box é uma nuvem privada que permite o compartilhamento de arquivos de forma anônima. Não exige cadastramento via e-mail ou log-in (Imagem: 0Box)

0Chain

0Box, produto do protocolo 0Chain (ZCN), é uma plataforma, desktop e móvel para pessoas que armazenam e compartilham seus dados pessoais, incluindo o upload automático do celular e a sincronização inteligente via desktop.

Seu foco é melhorar a atual privacidade centralizada de armazenamento, bem como o compartilhamento transparente, privado e anônimo.

No dia 10 de setembro, 0Chain lançou a versão beta da 0Box para o sistema iOS. 0Box é uma nuvem privada que permite o compartilhamento de arquivos de forma anônima. Não exige cadastramento via e-mail ou log-in.

Saswata Basu, fundador do 0Chain, diz que “0Box é a primeira nuvem privada com compartilhamento anônimo. Usuários estão livres do medo da violação [de dados] e exposição. A expectativa é que supere o DropBox, apesar de nossos principais valores serem privacidade, anonimidade e transparência”.

Quando um usuário baixa o aplicativo 0Box, disponível na App Store e no Google Play, pode criar uma conta usando seu número de celular e começar a armazenar e compartilhar arquivos de forma anônima e privada.

O protocolo de privacidade 0Chain fornece, ao cliente, governança e controle de seus dados. Protege seus dados ao distribuí-los entre servidores com chaves criptográficas registradas no blockchain. Um hacker precisaria ter todas as chaves, tornando a invasão quase impossível.

Além disso, 0Chain registra todas as atividades de forma imutável no registro de dados. 0Chain fornece o compartilhamento seguro de dados a clientes, parceiros, grupos internos e funcionários.

A plataforma dStorage é uma plataforma nativa de contratos autônomos na 0ChainNet, um blockchain apermissionado, imutável e escalável.

A proteção de clientes é obtida por meio de um protocolo sem servidores de autenticação de dois fatores (2FA) para pessoas e um protocolo criptografado de assinaturas múltiplas para corretoras e empresas.

Outra característica interessante do 0Chain é que melhorou a privacidade e o controle de dados ao permitir a criptografia pelo próprio dispositivo do usuário, antes de qualquer dado ser compartilhado ou enviado para armazenamento na nuvem.

A criptografia de dados acontece no lado do usuário (via celular, tablet ou desktop) antes de ser compartilhado ou enviado à nuvem e só pode ser descriptografado com as chaves pessoais do usuário.

Onde a criptografia nativa estiver disponível, o usuário obtém controle total sobre seus dados e nem os fornecedores podem acessar os dados sem as chaves privadas do usuário. Isso não acontece em fornecedores atuais em nuvem, como Amazon Web Services (AWS), Microsoft, Google, IBM etc.

Inicialmente, o foco do 0Chain será em clientes (na relação empresa-consumidor) e projetos blockchain, pois tendem a aderir mais rápido do que empresas. Visa integrar clientes de pagamentos no primeiro trimestre de 2021 após o lançamento da rede principal.

Tardigrate, serviço descentralizado de armazenamento em nuvem do Storj Labs, é a “peça que faltava no quebra-cabeças” (Imagem: Medium/NEM)

Storj

Storj Labs (STORJ) está criando uma plataforma distribuída de armazenamento que usa o excesso de capacidade disponível em dispositivos como servidores e desktops individuais.

Ben Golub, CEO da empresa, afirma que “o objetivo é fornecer uma alternativa a empresas de tecnologia da informação (TI) para o armazenamento de dados de forma barata usando recursos de armazenamento que são supervisionados pelo Storj Labs”.

Storj Labs desenvolveu um sistema de código aberto para o armazenamento de objetos compatível com a API S3 usada pelo AWS.

É chamado de “Tardigrade Decentralized Cloud Storage Service”, em homenagem a tardígrado, micro-organismo resistente e difícil de matar. A rede de código aberto possui cerca de 19 petabytes (ou 19 milhões de gigabytes) de capacidade e é hospedada por milhares de nós espalhados pelo mundo.

Quando um novo arquivo é transferido, é criptografado e dividido em 80 partes que, em seguida, são distribuídas entre nós separados. Caso um único nó seja comprometido ou fique off-line, um usuário só precisa de 29 partes para reconstruir um arquivo.

Storj Labs paga empresas e pessoas que têm capacidade de armazenamento em acesso, dando a essas partes uma forma de monetizar essa capacidade inativa.

Cada fornecedor de armazenamento deve passar por diversos testes de gerenciamento de dados por um período de tempo antes de ser aceito como um membro do Tardigrade.

Sia se apresenta como a principal plataforma descentralizada de armazenamento em nuvem, pois alavanca a tecnologia de blockchain para criar um marketplace de armazenamento de dados robusto e acessível do que fornecedores tradicionais (Imagem: Sia)

Siacoin

O ecossistema de armazenamento em blockchain Sia está sendo desenvolvido pela Nebulous Inc., fundada em 2014.

Lançou a plataforma de armazenamento Sia Storage Platform em março de 2015. Sediada em Boston, Nebulous é financiada por Raptor Group, First Star Ventures, Fenbushi Capital e INBlockchain.

Sia visa reinventar o armazenamento em nuvem. Assim como Storj, Sia afirma:

Nossa tecnologia conecta usuários que precisam de armazenamento de dados com servidores em todo o mundo que fornecem capacidade de disco rígido não utilizada. 

A tecnologia blockchain assegura seus dados e permite uma melhor economia para usuários e servidores.

Participantes da rede Sia podem alugar espaço em disco rígido entre si. Essa abordagem descentralizada torna Sia mais seguro e é uma solução mais barata do que usar um fornecedor como Amazon.

Usuários que têm espaço não utilizado em seu disco rígido podem alugá-lo e monetizá-lo na forma de Siacoins (SC).

O blockchain Sia permite que o marketplace Sia opere sem uma parte centralizada. Sia assegura transações de armazenamento com contratos autônomos, criando um produto confiável, seguro e acessível.

Sia afirma que “nenhuma pessoa ou organização pode censurar ou negar acesso a dados — nem mineradores, nem desenvolvedores, nem governos.

Acreditamos que a tecnologia distribuída e descentralizada de armazenamento da Sia é mais forte, segura, eficiente e equilibrada para todo o ecossistema”.

Fornecedores de armazenamento em nuvem já existentes têm de duplicar qualquer dado de usuários que são armazenados para fornecer os níveis necessários de confiabilidade (redundância).

A menos que o usuário consiga usar a criptografia pelo lado do cliente, os arquivos são basicamente armazenados “como estão” no servidor. Então, qualquer um que obtiver privilégios de acesso suficientes naquele servidor pode acessar os arquivos.

Conforme soluções de armazenamento em nuvem baseadas em blockchain começam a entrar para o mercado, oferecendo segurança de dados e serviços de acréscimo de valor, como criptografia controlada pelo usuário e compartilhamento privado, os incumbentes começarão a entender como blockchain pode melhorar seus serviços.

Ainda veremos se irão firmar parcerias com fornecedores existentes, encontrar soluções “sem marca” (“white-label”) ou desenvolver suas próprias soluções em blockchain a partir do zero.

Levará tempo para que empresas e organizações se sintam confortáveis o suficiente para considerar serviços descentralizados de armazenamento em nuvem como uma alternativa a organizações de nuvens públicas.

Porém, dada a capacidade do blockchain em fornecer o mais alto nível de segurança, com auditoria à prova de alterações, existe um mercado pronto para quando as soluções amadurecerem.

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Última atualização por Daniela Pereira do Nascimento - 15/10/2020 - 15:47