O novo elemento que acende alerta no mercado do boi e pode levar arroba a recorde; ‘2027 pode apertar ainda mais as margens’
A alta dos preços do milho e do farelo de soja adicionou um novo ponto de preocupação ao mercado pecuário. O movimento encarece a alimentação do rebanho e pode reduzir principalmente as margens dos produtores de boi que atuam nas etapas de recria e engorda.
A pressão sobre os custos pode ganhar força caso se confirme um período mais seco provocado pelo El Niño. Com pastagens menos favoráveis, os pecuaristas tendem a depender mais da suplementação alimentar e de dietas à base de grãos.
“Esse clima seco que pode vir do El Niño aumenta a necessidade de intensificação e de fornecer uma dieta baseada em grãos aos animais. Isso, por si só, já é outro elemento que eleva os custos e pode acabar espremendo as margens da atividade”, afirma Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado.
Apesar do alerta para os custos, o mercado físico do boi gordo atravessa um momento de acomodação. Nas últimas semanas, os frigoríficos conseguiram alongar suas escalas de abate, reduzindo a necessidade de disputar animais e abrindo espaço para uma correção das cotações.
“O mercado em São Paulo caiu dos R$ 355 que tínhamos em julho e agora trabalha entre R$ 340 e R$ 345”, diz Iglesias.
Boi gordo pode alcançar preços recordes
A acomodação atual, porém, não afasta a possibilidade de uma nova arrancada da arroba. Iglesias projeta preços recordes no último trimestre de 2026, diante de uma combinação de demanda aquecida e oferta limitada de animais para abate.
Entre os fatores de sustentação estão a expectativa de retomada das compras chinesas, o período de maior consumo de carne bovina no mercado interno e a demanda crescente dos Estados Unidos, onde a disponibilidade do produto continua reduzida.
Segundo o analista, a arroba pode alcançar R$ 400 no fim do ano, caso esse conjunto de fatores se confirme.
No mercado norte-americano, as atenções estão voltadas para a possível liberação de uma cota adicional de 300 mil toneladas de carne bovina. Pelos cálculos de Iglesias, entre 30% e 40% desse volume poderia ser atendido pelo Brasil — o equivalente a algo entre 90 mil e 120 mil toneladas.
“Eles estão para liberar aquela cota de 300 mil toneladas e, nos meus cálculos, entre 30% e 40% pode ficar com o Brasil. Faltam apenas as regras de elegibilidade serem divulgadas pelo governo dos Estados Unidos”, afirma.
El Niño pode limitar oferta de animal terminado
Do lado da oferta, o prolongamento da seca associada ao El Niño pode diminuir a quantidade de animais terminados a pasto disponíveis no mercado. Com isso, os frigoríficos dependeriam mais dos bovinos provenientes de confinamentos justamente no período de maior demanda por carne.
“Se esse período de seca por conta do El Niño se alongar, não teremos tantos animais terminados a pasto no mercado, em um cenário de auge do consumo interno e forte demanda externa”, explica Iglesias.
A combinação tende a sustentar as cotações da arroba, mas não significa necessariamente uma melhora proporcional na rentabilidade dos criadores. Isso porque os custos da alimentação e da reposição também devem permanecer elevados.
O analista ressalta que a alta dos grãos não exerce pressão negativa direta sobre a arroba. Seu principal efeito é tornar a operação mais cara e capturar parte dos ganhos proporcionados pela valorização do boi gordo.
“Tudo isso pode tornar a operação mais custosa e fazer com que o pecuarista conviva com margens mais apertadas, ainda mais em anos de reposição muito cara, como 2026 e, muito provavelmente, 2027”, afirma.
Para Iglesias, os preços dos animais de reposição podem avançar ainda mais no próximo ano, com possibilidade de alcançar um pico.