Coluna
Decodificando o Mercado

Por que a melhora de um indicador pouco conhecido pode fortalecer a tese para investir em crédito privado

07 jul 2026, 7:30 - atualizado em 07 jul 2026, 7:55
mercados - brasil - mercado brasileiro
(Imagem: iSTock/ Edson Souza)

Um número pouco conhecido fora dos departamentos de análise de crédito começa a chamar atenção de quem avalia onde alocar recursos no mercado de renda fixa privada.

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Trata-se da relação entre a geração de caixa das empresas brasileiras – medida pelo Ebit, que quer dizer Earnings Before Interest and Taxes – e sua dívida bruta. Após quatro anos consecutivos de piora, esse indicador voltou a melhorar no primeiro trimestre de 2026.

A informação está em um levantamento da Elos Ayta e ajuda a explicar por que investidores pessoa física podem considerar, com cautela e orientação técnica, elevar a parcela de crédito privado em suas carteiras.

Entenda a razão de esse número ser relevante para o investidor

Antes de chegar à conclusão sobre alocação de carteira, vale entender o que o indicador mede e por que ele é relevante.

Dívida não é, isoladamente, um problema para uma empresa. Quando o custo de captação fica abaixo da rentabilidade do negócio, contrair dívida e aplicar o dinheiro na operação é uma decisão racional.

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O risco aparece quando o ritmo de crescimento das obrigações financeiras passa a superar o ritmo de geração de resultado operacional da companhia.

A relação entre EBIT e dívida bruta funciona como um termômetro dessa dinâmica. Ela compara o lucro antes de juros e impostos com o estoque total de dívida de uma empresa.

Quanto mais alto o número, maior a margem de segurança: a empresa tem mais lucro operacional disponível, proporcionalmente, para cobrir o que deve.

Quando o indicador cai, o mercado passa a enxergar uma companhia cujas dívidas crescem mais rápido do que sua capacidade de pagá-las com a própria operação.

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Existe uma métrica mais tradicional para medir a cobertura de juros, que é a relação entre EBIT e despesa financeira.

Mas o indicador EBIT/Dívida Bruta tem um uso específico: ele é uma referência consolidada para avaliar solvência e capacidade de desalavancagem das empresas ao longo do tempo, já que o lucro operacional é a principal fonte de caixa para pagar credores, impostos e, depois, remunerar acionistas.

Por que a situação melhorou

A Elos Ayta calculou o indicador a partir da mediana da relação EBIT/Dívida Bruta entre as companhias listadas na B3, período a período. A escolha pela mediana, e não pela média, tem uma razão: evitar que poucas empresas com endividamento extremo ou resultados fora da curva distorçam a leitura sobre o comportamento da empresa típica do mercado brasileiro.

Leituras agregadas, como a mediana do mercado, ajudam a capturar tendências gerais, mas não eliminam a dispersão relevante entre emissores. Em crédito, é justamente nessa dispersão que reside o risco — e também a oportunidade.

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O levantamento foi dividido em três recortes. Um geral, somando todas as companhias listadas. E mais dois setoriais: um para empresas do setor produtivo e outro para as chamadas utilities, termo usado por analistas internacionais para empresas de serviços públicos como energia elétrica, distribuição de gás e saneamento.

Esse último grupo tende a ter receita mais previsível e, por isso, costuma sustentar níveis de endividamento mais altos.

Outro detalhe metodológico relevante: o cálculo usa o EBIT acumulado nos últimos doze meses, o que reduz distorções causadas por sazonalidade ou eventos isolados de um único trimestre.

O resultado dessa metodologia foi a identificação de um pico em 2021 – o melhor momento da série para as empresas brasileiras –seguido por uma deterioração contínua que durou quatro anos. Essa trajetória de piora só foi interrompida no primeiro trimestre de 2026 (Observe o gráfico)

O ambiente macroeconômico que pressionou os balanços

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Não é coincidência que a piora do indicador tenha coincidido com um dos ciclos de juros mais apertados da história recente do Brasil.

O próprio cenário de juros e inflação ajuda a contextualizar a pressão sobre as empresas neste ano. No começo de 2026, o Boletim Focus projetava Selic de 12,25% ao ano e inflação de 4,06% para dezembro.

Seis meses depois, o penúltimo Focus do primeiro semestre já mostrava expectativa de Selic em 14% e inflação projetada em 5,33%, quase um ponto percentual acima do teto da meta.

Esse aperto monetário elevou o custo de capital, encareceu novas captações e aumentou as despesas financeiras das empresas listadas.

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Ao mesmo tempo, vários setores passaram por uma normalização de resultados depois do crescimento forte de 2021, puxado pela reabertura da economia e por um ciclo favorável de commodities.

A combinação dos dois fatores comprimiu, ano após ano, a capacidade das empresas de sustentar suas dívidas com geração própria de caixa. Esse comportamento é típico de um indicador pró-cíclico: melhora em fases de expansão econômica e lucros crescentes, e perde força quando juros altos e atividade mais fraca se combinam.

Vale notar que, em ciclos de aperto monetário prolongado, os efeitos sobre o crédito tendem a se manifestar com defasagem.

A melhora recente de indicadores operacionais pode coexistir com um ambiente ainda desafiador para refinanciamento, especialmente à medida que vencimentos mais relevantes se aproximam e o custo de capital permanece elevado.

Um sinal que antecede os problemas

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Esse tipo de métrica tem valor extra porque costuma se mover antes de outros sinais mais óbvios de dificuldade financeira aparecerem nos balanços.

Historicamente, a perda de força na geração operacional das empresas antecede cortes de dividendos, rebaixamentos de rating, aumento de inadimplência e, em casos mais extremos, processos de reestruturação de dívida.

É por isso que bancos, agências de classificação de risco e investidores institucionais acompanham de perto esse tipo de relação: uma empresa pode parecer saudável, com lucro e dívida em níveis administráveis, mas se a dívida cresce mais rápido que o resultado operacional, a margem de segurança já está diminuindo, antes que isso fique claro na última linha do balanço.

Em resumo: o que importa não é o tamanho absoluto da dívida, mas a capacidade da empresa de gerar resultado suficiente para sustentá-la ao longo do tempo.

O que mudou no início de 2026

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É nesse contexto que a interrupção da sequência de quatro anos de queda, registrada no primeiro trimestre de 2026, ganha importância, especialmente se os juros se tornarem mais previsíveis e os resultados das empresas continuarem em recuperação gradual.

No entanto, ainda é cedo para falar em mudança estrutural. A estabilização interrompe uma sequência longa de deterioração e pode indicar uma inflexão inicial, mas esse movimento ainda é insuficiente para caracterizar uma mudança consistente na trajetória de alavancagem das empresas.

Indicadores de crédito como esse costumam mudar de direção antes que a melhora fique evidente para o mercado em geral. Por isso, a leitura mais superficial do número de 2026 pode estar subestimando seu significado.

Comparando o parâmetro americano

Como referência, a Elos Ayta também calculou a mesma mediana para as empresas do S&P 500. As companhias americanas mantiveram, desde 2021, uma relação entre EBIT e dívida mais confortável que a das brasileiras e, mesmo desacelerando recentemente, ainda preservam uma capacidade de geração operacional proporcionalmente superior.

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Isso é um reflexo de diferenças estruturais em custo de capital, rentabilidade e condições de financiamento. Essa comparação serve menos como crítica e mais como régua: ela ajuda a medir o espaço que as empresas brasileiras ainda têm para recuperar terreno.

Vale destacar que o pico de 2021 parece ter sido uma exceção na série, puxado pela recuperação pós-pandemia e por um ciclo de commodities favorável, não um patamar normal ao qual as empresas devam necessariamente retornar. Mesmo com a estabilização recente, a relação entre EBIT e dívida bruta ainda está distante dos níveis observados cinco anos atrás.

O que isso significa para o investidor

Para o investidor pessoa física, a melhora do indicador é um dado relevante, mas não suficiente por si só para uma decisão de alocação. C

om balanços corporativos mostrando os primeiros sinais de folga depois de quatro anos de aperto, o ambiente para títulos de crédito privado – especialmente o crédito corporativo – tende a ficar mais favorável. Isso pode justificar, para parte dos investidores, uma exposição maior a essa classe de ativos dentro da carteira.

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O crédito privado depende da seleção e deve ser diversificado, pois as empresas oferecem riscos muito diferentes. Diversificando, o investidor reduz o impacto de problemas e torna o retorno mais previsível. No entanto, a diversificação deve ser entendida em múltiplas dimensões. Não apenas entre emissores, mas também entre setores, níveis de senioridade, estruturas de garantia e prazos.

Essa construção em camadas tende a reduzir a dependência de eventos específicos e aumentar a previsibilidade do retorno ao longo do tempo. Esse tipo de decisão, no entanto, exige critério técnico e avaliação caso a caso: qualidade do emissor, garantias, prazo e spread oferecido variam muito entre um papel e outro, mesmo dentro do mesmo cenário macroeconômico.

Por isso, a recomendação de mercado é que qualquer aumento de exposição a crédito privado seja feito com apoio de assessoria especializada, e não apenas com base em um indicador agregado de mercado.

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CEO da Elos Ayta Consultoria e especialista em dados financeiros de mercado
Einar Rivero é CEO da Elos Ayta Consultoria e especialista em dados financeiros de mercado. Formado em Engenharia, tornou-se referência para o mercado financeiro por trazer levantamentos e insights inéditos a partir do cruzamento de dados econômicos. Durante 25 anos, atuou como líder e gerente de relacionamento institucional de plataformas de informação financeira, como TradeMap e Economatica.
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Einar Rivero é CEO da Elos Ayta Consultoria e especialista em dados financeiros de mercado. Formado em Engenharia, tornou-se referência para o mercado financeiro por trazer levantamentos e insights inéditos a partir do cruzamento de dados econômicos. Durante 25 anos, atuou como líder e gerente de relacionamento institucional de plataformas de informação financeira, como TradeMap e Economatica.
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