Entrevista

Pine (PINE4) virou queridinho de analistas, com ROE de quase 40%; executivo revela a estratégia por trás da virada

27 ago 2026, 7:00
Clive Botelho, membro do comitê executivo do Banco Pine (Imagem: Linkedin)

Longe dos holofotes dos bancões, como Itaú (ITUB4), Nubank (NU) ou Bradesco (BBDC4), o Pine (PINE4) viu sua história na bolsa mudar nos últimos 12 meses.

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O banco não é novo na bolsa. Abriu capital em 2007, em um período fértil para IPOs, quando outros bancos médios também se lançaram no mercado. Mas sua liquidez impedia que o papel ganhasse maior destaque — até agora.

Segundo dados da Elos Ayta, entre agosto de 2025 e agosto de 2026, o volume cresceu 531%, ou 6,3 vezes. Em relação a agosto de 2024, a alta foi de 585%, ou quase 6,8 vezes. Veja abaixo:

A disparada da liquidez tem relação direta com a “moral” que o Pine ganhou.

Em questão de meses, cinco casas iniciaram a cobertura do papel: Bradesco BBI, XP, BTG, Safra e Itaú BBA. Em comum, todos possuem recomendação de compra, com um potencial médio apetitoso de alta: 77%, segundo dados da Bloomberg.

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No embalo dessa nova fase, o banco fez uma oferta de ações e levantou R$ 245,9 milhões. A intenção era utilizar os recursos da oferta para otimizar sua estrutura financeira de capital. De quebra, isso garante mais liquidez, como explica Clive Botelho, membro do comitê executivo do Banco Pine.

“Isso é um bom termômetro, porque o mercado está aberto a alguns cases. O mercado também chega uma hora em que quer ver quem tem oportunidade de valuation, de tese”, afirma o executivo em entrevista ao Money Times.

Ele recorda ainda outro ponto importante, o famoso “quanto gira por dia”. “Porque, se não, tem investidor institucional que fala: ‘Caramba, se eu me posicionar, como é que eu faço se eu quiser sair?”’, destaca.

Não começou agora

Apesar da virada dos últimos meses, a mudança do Pine remonta a 2021, quando o banco diversificou suas operações.

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O clássico atacado, que atende grandes clientes, como grandes corporações, governos, fundos de investimento e outros bancos, se somou ao consignado de servidores públicos e ao empréstimo para aposentados do INSS.

Em comum, linhas mais seguras e que sofrem menos com o vai-e-vem da economia brasileira. “O banco se tornou muito mais amplo em possibilidades de negócio. E negócios que te protegem. O consignado te protege”, destaca.

Mas o que de fato chamou a atenção dos analistas foi o consignado privado.

O produto existe desde 2003. Porém, teve uma série de mudanças do Governo Federal no ano passado. A ideia era deixar a concessão mais democrática e barata e, de quebra, conseguir um legado para o presidente Lula, em busca de alternativas para impulsionar a economia.

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Para isso, o governo criou uma plataforma que centraliza a concessão. A partir daí, os bancos “brigariam” pelo cliente final, tendo as taxas de juros como o grande diferencial — numa espécie de leilão para quem oferecer o maior lance ou, melhor dizendo, o menor juro.

Foi aí que o Pine viu uma ótima oportunidade. “O [consignado] privado, obviamente, que era uma arquitetura fechada, virou aberto. Foi transformacional o produto. Imagina: sair de uma arquitetura fechada para uma arquitetura aberta. O Brasil tem 48 milhões de CLTs, mulheres e homens, milhares de CNPJs. E antes a gente não tinha”, destaca.

Segundo especialistas da Fitch ouvidos pelo Money Times, considerando todos os trabalhadores com carteira assinada, é um mercado com potencial de crédito entre R$ 200 bilhões e R$ 400 bilhões, o equivalente ao PIB (Produto Interno Bruto) do Uruguai.

Ou seja, o Pine saiu de uma carteira concentrada no crédito corporativo para um modelo mais voltado ao consumidor — mas não qualquer consumidor. Nos cálculos do Itaú BBA, o crédito a essa fatia representa cerca de 60% da carteira total de empréstimos, de R$ 18 bilhões, um aumento significativo em relação a praticamente zero em 2019.

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Ainda segundo Botelho, o banco não pensa em conceder crédito no “mar aberto”, ou seja, sem garantias. “Pode ser que, no futuro, você, conhecendo melhor o cliente, começando com colateral, permita ter um pouquinho de cliente sem garantia. Mas, por enquanto, só colateral”.

Regulação

Apesar de parecer um produto quase perfeito, o consignado privado também guarda seus riscos. E o problema pode ser o próprio governo. Em abril, por exemplo, o Governo Federal limitou os juros cobrados pelos bancos a taxas de referência com base na média das operações.

“O mercado como um todo fica muito apreensivo com volatilidade regulatória. Se o governo quiser regular muito um produto que tem muita variável de risco, você afugenta o banco”, diz.

Botelho explica que esse tipo de crédito é diferente do consignado do INSS, por exemplo.

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“No INSS, eu sei que quem paga o aposentado é o Tesouro. E é só uma fonte pagadora. O Tesouro não vai deixar de pagar o aposentado. Em várias vezes no Brasil, em situações fiscais, de inflação, nunca deixou de pagar o aposentado”.

Agora, no consignado privado, são milhões de empresas que pagam seus funcionários em milhões de setores, correndo risco de PIB. O empregado também pode pedir as contas ou pode ser mandado embora.

“Então, são milhões de variáveis que você tem que pôr no seu modelo para obter um score. Seu empregador tem dívida ativa? Como está a situação dele? Ele está em recuperação judicial? Então, é outro mundo para você conceder um empréstimo. Você corre riscos”.

Ou seja, se o governo impuser muitos obstáculos, a concessão cai, já que a taxa pode não ser suficiente para compensar os riscos.

Diversificar

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Para os próximos anos, o banco Pine vê espaço para continuar crescendo nas quatro principais verticais de atuação, apoiado pela diversificação da carteira, pelo mercado de capitais e pelo avanço da tecnologia.

“E a gente quer ficar diversificado entre o aposentado, o funcionário público que trabalha no Estado e município, o funcionário privado e a empresa. O sonho é ter 25% em cada uma. Nunca é assim, do jeito que eu estou te falando, mas é continuar diversificado. A gente não quer virar só o consignado privado”, diz.

Segundo Clive Botelho, a instituição usa operações como FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) para “oxigenar” a carteira de crédito e, ao mesmo tempo, manter o relacionamento com os clientes.

A tecnologia também tem papel importante na estratégia, ao permitir ganhos de produtividade e redução de custos. Nesse contexto, o executivo afirma que o banco acredita ser possível sustentar um índice de eficiência acima de 30%, mesmo com a expansão das operações.

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No segundo trimestre, o banco viu seu lucro quase dobrar, para R$ 165,7 milhões. O número que chama atenção é a rentabilidade sobre o patrimônio médio, de 37,5%, acima dos 29% de um ano antes.

No crédito corporativo, contudo, o momento é mais desafiador. Com juros elevados e um cenário de maior seletividade, o Pine tem mantido uma postura conservadora, deixando a carteira de atacado praticamente estável.

A diversificação, por outro lado, permite compensar momentos de menor crescimento em determinadas linhas com o avanço de outras.

Para sustentar essa estratégia, o banco aposta ainda na atração de talentos e em seu programa de partnership. “Não é gênio da lâmpada. É com gente boa, com tecnologia, com poder de execução”, afirmou.

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Mais do que traçar um plano rígido para os próximos anos, o executivo destaca a capacidade de adaptação como um dos pilares do Pine diante de um cenário de incertezas.

“Você me pergunta: para mim, o que é o planejamento para 2028? Eu não sei. Eu sei que o nosso time vai estar lá se adaptando.”

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Editor-assistente
Formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, cobre mercados desde 2018. Ficou entre os jornalistas +Admirados da Imprensa de Economia e Finanças das edições de 2022, 2023 e 2024. Possui curso intensivo de mercado de capitais oferecido pelo Insper em parceria com a B3. É também setorista de bancos. Antes, atuou na assessoria de imprensa do Ministério Público do Trabalho e como repórter do portal Suno Notícias, da Suno Research.
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