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Por que os tentáculos do mercado ilegal Hydra alcançam o leste europeu?

17/09/2020 - 10:14
Traduzido e editado por Daniela Pereira do Nascimento
Hydra, o maior mercado ilegal da Rússia, gerou uma receita de mais de US$ 1,2 bilhão em criptoativos entre julho de 2019 e junho de 2020 e, agora, planeja lançar um novo mercado ilegal para usuários ocidentais (Imagem: WallpaperAccess)

Este artigo analisa a posição do Hydra no ecossistema global de mercados ilegais e fornece uma atualização sobre sua oferta inicial de moeda (ICO) realizada no fim de 2019. Foi a venda de tokens mais ilegal até hoje?

O que é Hydra?

O mercado russo é um dos maiores mercados ilegais operados na dark web. A plataforma foi lançada em 2015 para fornecer aos vendedores a capacidade de criar lojas on-line e individuais para comercializar seus produtos.

Hydra é mais antigo do que qualquer mercado na dark web (DNM, na sigla em inglês).

Em dezembro de 2019, a equipe do Hydra anunciou diversos projetos, incluindo uma ICO para financiar uma expansão para novos mercados: Eternos, um novo DNM para usuários ocidentais; e AspaNET, uma alternativa a Tor, ferramenta anônima de navegação na internet.

Embora exista incerteza ao atual status desses projetos, em junho deste ano, a equipe do Hydra disse que os projetos foram adiados por conta da pandemia.

Hydra funciona, principalmente, como um mercado para drogas e outros tipos de contrabando, como passaportes falsos e dinheiro falsificado, parecido com seu precursor pioneiro Silk Road.

hydra homepage
Página inicial da Hydra.

Vendedores, como Walt Disney Drugs, Pyramid Market e PokemonGo, mostram suas mercadorias, que vêm com descrições detalhadas e resenhas de usuários para que os usuários saibam o que estão comprando.

De várias formas, mercados na deep web como Hydra mimetizam a experiência de usuário de plataformas de varejo on-line, como Amazon ou Etsy, que é um dos fatores que contribuem para sua popularidade com usuários preparados para se envolverem com mercados ilegais.

Para entregarem seus produtos, vendedores do Hydra usam um sistema de esconderijos via GPS.

Vendedores contratam uma rede de entregadores que entregam bens contrabandeados para uma localização oculta e anteriormente definida. Quando entregue, o comprador recebe as coordenadas via GPS para a obtenção do produto.

Esse é o sistema de distribuição de DNM mais sofisticado do mundo, pois não há encontros pessoais e evita a necessidade de serviços de entrega controlados pelo governo.

Esse método de entrega só está disponível na Rússia e em grandes cidades na Comunidade dos Estados Independentes (CEI) — Azerbaidjão, Armênia, Bielorrússia, Geórgia, Cazaquistão, Quirguistão, Moldávia, Rússia, Tajiquistão, Turcomenistão, Uzbequistão e Ucrânia.

De várias formas, mercados na deep web como Hydra mimetizam a experiência de usuário de plataformas de varejo on-line, como Amazon ou Etsy, que é um dos fatores que contribuem para sua popularidade com usuários preparados para se envolverem com mercados ilegais (Imagem: WallpaperAccess)

O principal método de pagamento que facilita a negociação no Hydra é bitcoin (BTC). Hydra até mostra um ticker de preço na parte superior de sua plataforma para certificar que usuários saibam o valor atual do bitcoin tanto em dólares como em rublos russos.

Um relatório da empresa de análise em blockchain Chainalysis estima que Hydra gerou uma receita de mais de US$ 1,2 bilhão em criptoativos entre julho de 2019 e junho de 2020.

Criptoativos no leste europeu

Este mês, a Chainalysis lançou seu “Relatório sobre a Geografia dos Criptoativos” de 2020.

O relatório diz que, embora o leste europeu tenha o quarto maior mercado por volume transacional de todas as regiões rastreadas, também possui o primeiro e segundo países classificados em seu Índice de Adesão Global: Ucrânia e Rússia.

Chainalysis afirma que Rússia e Ucrânia são líderes de classificação por conta do alto uso desproporcional em todos os componentes do índice.

Os dados sugerem que grande parte dos cidadãos russos e ucranianos migraram mais de sua atividade financeira a criptoativos do que cidadãos em outros países.

No período de doze meses do relatório, Chainalysis estima que usuários russos enviaram US$ 16,8 milhões em criptoativos e receberam US$ 16,6 bilhões. Já usuários ucranianos enviaram US$ 8,2 bilhões e receberam US$ 8 bilhões.

Ao considerarmos o tamanho da população, isso sugere uma maior proporção da adesão de criptoativos do que outros países, incluindo China e dos EUA.

Valor total e número de transferências enviadas para e do leste europeu entre julho de 2019 e junho de 2020 (Imagem: Chainalysis)

O relatório sugere que existem diversos fatores que direcionam essa tendência. Primeiro, existe, há tempos, uma falta de confiança pública na Rússia e em países da CEI.

O público aceita que certo nível de corrupção e/ou incompetência governamental, bancária e burocrática faz parte da estrutura da sociedade. Por esse motivo, a ideia de usar criptoativos para você ser seu próprio banco, fora do sistema, tem um certo atrativo.

Fabrício Alexandre: qual é a relação
entre o bitcoin e a deep web?

Clientes em ambos os países têm uma familiaridade pré-existente com pagamentos eletrônicos que pode ter facilitado a adesão de criptoativos. Também existe um caso de uso notável de criptoativos em remessas digitais na Ucrânia e outros países do leste europeu.

De forma parecida, o pesquisador de segurança Brian Krebs argumentou que um motivo pelo qual muitos hackers tendem a ser da Rússia ou de regiões próximas é devido ao fato de que esses países deram uma ênfase maior no ensino de tecnologia da informação no ensino fundamental e médio e, ainda assim, não possuem um canal estilo Vale do Silício para afunilar indivíduos talentosos em empregos bem-remunerados.

A ideia de usar criptoativos para você ser seu próprio banco, fora do sistema, tem um certo atrativo no leste europeu (Imagem: WallpaperAccess)

Mercados ilegais direcionam crimes com criptoativos no leste europeu

O relatório da Chainalysis afirma que 1,4% do volume transacional de US$ 41 bilhões em criptoativos foi usado em transações ilícitas.

O relatório diz que “mercados na dark web totalizam grande parte do valor ilícito do leste europeu enviado em muitos meses durante o período de doze meses do estudo, bem como o total de atividade de envio, o que indica um alto volume de fundos sendo pago para vendedores da dark web no leste europeu dos próprios mercados. Na verdade, o leste europeu totaliza grande parte da atividade em mercados ilegais do que qualquer outra região”.

Top 20 serviços por valor enviado ao leste europeu entre julho de 2019 e junho de 2020 (Imagem: Chainalysis)

Grande parte da atividade de mercados ilegais no leste europeu acontece no mercado Hydra, segundo a Chainalysis, que é o sexto maior serviço por volume na região — nenhuma outra região possui um mercado na dark web ou outro serviço ilícito em seus dez principais serviços.

O relatório estima que Hydra gerou uma receita de mais de US$ 1,2 bilhão em criptoativos entre julho de 2019 e junho de 2020.

Um relatório russo de 2019 sobre Hydra estima que o mercado tem mais de 400 mil clientes regulares, com mais de 2 milhões de usuários registrados.

Eternos e AspaNET

Em dezembro de 2019, a equipe do Hydra anunciou uma ICO para arrecadar capital e financiar o lançamento de novos projetos: Eternos, um novo DNM de multilinguagens com uma possível base de usuários global; e AspaNET, uma alternativa a Tor, ferramenta anônima de navegação na internet.

Hydra planejou vender 1,47 milhões de tokens, precificados a US$ 100 cada.

Hydra planejou vender 1,47 milhões de tokens, precificados a US$ 100 cada, em sua ICO (Imagem: Freepik/macrovector)

Após o lançamento de Eternos, detentores de 101 tokens ou mais poderiam obter 0,00333333% do lucro mensal. Na época, Hydra disse que os novos projetos iriam ao ar em setembro de 2020.

Qualquer pessoa que participasse a ICO estaria em risco de ser acusado de financiar atividades de crime organizado. Na época, a Brave New Coin descreveu o ICO do Hydra como “a venda de tokens mais ilegal até hoje”.

O status atual da ICO do Hydra e do projeto Eternos é desconhecido. O plano do Hydra foi criar um novo DNM para o mercado ocidental.

O novo DNM seria baseado no Hydra, mas com diversos outros recursos, como um serviço criptografado de mensagens, uma corretora interna de criptoativos, um navegador anônimo, um serviço de resolução de disputas alimentado por inteligência artificial e um mercado de balcão (OTC).

É claro, não haverá quaisquer requisitos de “conheça seu cliente” (KYC).

Mercados globais da dark web

Por conta da natureza ilegal de mercados da dark web, a indústria está em um estado constante de fluxo conforme seus operadores se envolvem um jogo de gato e rato com autoridades globais. Novos mercados vão e vêm o tempo todo e muitos mercados acabam sem motivo ou fogem com fundos de usuários.

Em agosto, um dos maiores mercados da dark web do mundo, Empire Market, ficou off-line. Detalhes ainda são confusos, mas dizem que os donos sumiram e relatórios sugerem que US$ 30 milhões em bitcoins detidos pelos administradores do mercado foram roubados.

Geralmente, mercados ilegais são atacados por DDoS, seja por autoridades, hackers ou mercados adversários (Imagem: Freepik)

Empire Market saiu do ar em 22 de agosto de 2020. Artigos sugerem que o mercado caiu por conta de um ataque distribuído de negação de serviço (DDoS).

Geralmente, mercados ilegais são atacados por DDoS, seja por autoridades, hackers ou mercados adversários. Já que o mercado ainda não voltou a ficar disponível, assume-se que os donos fugiram com os fundos.

Dada a escala de Hydra e de seus recursos financeiros, parece ter evitado ataques de DDoS.

Um pesquisador de segurança que seguiu o desenvolvimento na indústria dos mercados ilegais, cujo nome de usuário no Twitter é @DarkDotFail, diz que um administrador do fórum Dread “acredita que Hydra, o maior mercado ilegal da Rússia, usa uma implementação personalizada e multiencadeada de Tor para se manter on-line apesar dos ataques de DDoS. É difícil verificar isso, mas seu tempo de atividade é quase perfeito”.

Após a queda do Empire Market, usuários de mercados ilegais foram forçados a buscar por novas alternativas. Usuários compartilham notas e recomendações em fóruns clandestinos como Dread e o fórum r/darknet no Reddit.

@DarkDotFail identificou 11 grandes mercados da dark web que estão operando atualmente, cada um com suas próprias peculiaridades. Por exemplo, Darkmarket, sugere ele, é o primeiro mercado clandestino liderado por mulheres.

(Imagem: Pixabay/AaronJOlson)

“Aceitam bitcoin e monero e operam no script do mercado Eckmar. Eu geralmente não confio em mercados Eckmar, mas essa equipe é confiável por grandes vendedores. 1,4 mil vendedores, 200 mil usuários, segundo sua contagem.”

Outros mercados mencionados incluem Cannazon, “um mercado apenas para cannabis com os guias de usuários mais amigáveis que já vi. Será que sua abordagem restrita direcionar menos usuários? Bitcoin e monero são aceitas”.

O pesquisador afirma que o “White House Market é amplamente considerado o mais seguro. O software PGP (“privacidade muito boa”) é exigido e só usam monero (XMR). Não existe carteira quente e saques são processados uma vez por dia.

É mais difícil de usar do que Empire, mas muitas pessoas que levam OPSEC [segurança de operações] a sério o usam. Possui 68 mil compradores ativos e 1,7 mil vendedores”.

O pesquisador também alerta que seu fio no Twitter “não é um aval” para qualquer mercado e que o “fio é apenas para pesquisadores”.

Por meio do Silk Road, Ulbrich queria dar às pessoas uma experiência em primeira mão do que seria viver em um mundo sem uso sistêmico do poder”. (Imagem: Freepik/macrovector)

O código do pirata

Apesar da indústria de mercados ilegais ser repleta de golpes de roubos de fundos (ou “exit scam”), táticas criminosas, risco e medo de ser alvo das autoridades, usuários de mercados ilegais esperam que esses mercados respeitem um código de conduta melhor descrito como “honra entre ladrões”.

Essa ideia é original do nascimento do primeiro mercado ilegal, Silk Road, fundado por Ross Ulbricht em 2011. Ulbrich se chamava de “Dread Pirate Roberts” na internet, em uma referência ao filme “A Princesa Prometida” de 1987.

Ulbrich era interessado em ideias libertárias e escrevia sobre o objetivo do Silk Road: ele queria “usar a teoria econômica como um meio de abolir a coerção e agressão na humanidade. Estou criando uma simulação econômica para dar às pessoas uma experiência em primeira mão do que seria viver em um mundo sem uso sistêmico do poder”.

Em 2013, um investigador do Serviço Interno de Receita dos EUA (IRS), trabalhando com a Administração de Fiscalização de Drogas (DEA) na investigação sobre Silk Road, conseguiu contatar Ulbrich pela identidade de “Dread Pirate Roberts”.

Em 21 de agosto de 2014, Ulbricht foi acusado de lavagem de dinheiro, conspiração de hack a computadores e conspiração ao tráfico de narcóticos.

Em 4 de fevereiro de 2015, Ulbrich foi condenado por todos os crimes em um tribunal de júri. Em 29 de maio de 2015, foi sentenciado a dupla prisão perpétua mais 40 anos, sem a possibilidade de liberdade condicional. Hoje em dia, ele ainda está preso.

Após a sentença de Ulbricht, muitas personalidades de cripto declararam seu suporte a ele, argumentando que ele foi tratado injustamente pelo sistema jurídico.

Fundador do polêmico mercado ilegal Silk Road
publica sugestões para o protocolo Maker

Libertários argumentaram que mercados ilegais fornecem uma alternativa à violência mortal associada à guerra global das drogas e tráfico de drogas pelas ruas (Imagem: Freepik/macrovector)

O capitalista bilionário de capital de risco Tim Draper apoia Ulbrich e uma petição on-line que pede pela soltura de Ulbricht possui mais de 353 mil assinaturas.

Embora Silk Road tenha sido operado por apenas dois anos, foi pioneiro no modelo usado por DNMs hoje em dia. Operado na dark web, era executado como um serviço oculto de Tor, então usuários conseguiam navegar por ele de forma anônima e segura. Bitcoin era o principal método de pagamento.

Embora exista uma tendência lenta, mas crescente em relação à descriminalização das drogas, a demanda por acesso a drogas ilegais continua estável, mesmo em em meio a aplicações de lei draconianas.

Libertários argumentaram que mercados ilegais fornecem uma alternativa à violência mortal associada à guerra global das drogas e tráfico de drogas pelas ruas. Defensores de DNMs argumentam que comprar narcóticos ilegais da segurança de seu lar é melhor do que comprá-los pessoalmente de criminosos na rua.

Se a demanda por drogas ilegais continuar, criminosos poderão continuar a ser incentivados a atender essa demanda. No mundo digital, a forma mais fácil de atender a essa demanda em grande escala é pela dark web. O jogo de gato e rato continua.

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Última atualização por Daniela Pereira do Nascimento - 17/09/2020 - 10:24