‘Quando todo mundo corre para a saída’: O que forçou a ação bilionária do Tesouro
O Tesouro Nacional entrou em campo nesta semana com uma atuação bilionária para conter um movimento de estresse no mercado de juros — um daqueles momentos em que, nas palavras do estrategista da Warren, “todo mundo tenta sair ao mesmo tempo, mas a porta é pequena demais”.
Desde segunda-feira (16), o órgão já recomprou cerca de R$ 47 bilhões em títulos públicos em leilões extraordinários, na maior intervenção ao menos desde 2013, segundo levantamento da Warren Rena. Só na operação mais recente, realizada nesta quarta-feira (18), foram R$ 5,4 bilhões em papéis prefixados.
A medida veio como resposta a uma mudança brusca de cenário. Até poucos dias antes, investidores apostavam em queda mais intensa da Selic durante o ano. Mas a combinação de expectativa de inflação mais forte no Brasil com a escalada do conflito no Oriente Médio — e seus efeitos sobre o petróleo — virou esse panorama.
“Ficou claro que a trajetória de juros precisava ser revista”, afirmou Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de macroeconomia e dívida pública da Warren.
Com o novo cenário e a enxurrada de notícias internacionais, investidores começaram a desfazer posições de forma acelerada. O movimento ganhou força rapidamente e virou um efeito em cadeia.
“Quando um fundo zerava posição, as taxas subiam. Isso forçava outros a fazer o mesmo. Virou uma espiral”, afirma Vital.
Na prática, o mercado entrou em desequilíbrio, com vendedores superando compradores, e as taxas dispararam até 60 pontos-base em um único dia.
Esse tipo de situação é conhecido no mercado como “disfuncionalidade”, quando os preços deixam de refletir apenas fundamentos e passam a ser pressionados por movimentos técnicos e falta de liquidez. Foi nesse contexto que o Tesouro decidiu agir.
Antes mesmo da abertura do mercado na segunda-feira, o órgão anunciou que suspenderia os leilões tradicionais e passaria a atuar com operações extraordinárias de compra e venda de títulos.
“Quando o Tesouro recompra títulos, ele absorve o excesso de venda. Quando vende, supre excesso de compra. Ele ajuda o mercado a voltar a funcionar”, disse Vital.
Por que os juros continuam altos?
Apesar da atuação, os títulos do Tesouro Direto ainda registram taxas elevadas.
“O Tesouro não está ali para baixar juros. Ele tira o excesso, o pânico, mas o nível da taxa continua respondendo ao cenário econômico”, afirmou o estrategista.
O cenário segue pressionado. A guerra no Oriente Médio mantém o preço do petróleo em alta, reacendendo preocupações com a inflação global. Ao mesmo tempo, dados recentes no Brasil vieram mais fortes do que o esperado, somados à alta nos preços de combustíveis da Petrobras e à retirada de impostos sobre o diesel.
Com esse plano de fundo, investidores e casas de análise passaram a rever as apostas para a trajetória da Selic, reduzindo a expectativa de cortes mais intensos.
“A gente está com uma enxurrada de notícias. E o mercado brasileiro já é naturalmente mais volátil”, disse Vital.
Agora, com a redução do estresse, a tendência é que o Tesouro recue e deixe o mercado seguir seu curso. Novas intervenções só devem ocorrer em caso de outro episódio de forte desequilíbrio.
Na prática, isso significa que a volatilidade deve continuar — especialmente em um ambiente ainda dominado por incertezas externas e revisões de expectativas para os juros no Brasil.
“Semana que vem podemos ter mais revisões nos cenários, após a ata do Copom, devemos esperar. Está tudo muito incerto”, pondera.