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Raízen (RAIZ4): As duas decisões da atual gestão que aprofundaram a crise da companhia

11 fev 2026, 7:00 - atualizado em 11 fev 2026, 8:45
raízen raiz4
Segundo fontes ouvidas pelo Money Times, há uma percepção clara de que a entrada de um novo sócio é essencial para uma virada na Raízen (Foto: Divulgação)

A Raízen (RAIZ4) estreou na bolsa em meio ao boom de IPOs de 2021, avaliada em R$ 76 bilhões e com a promessa de liderar uma revolução dos combustíveis verdes, puxada pelo etanol de segunda geração (E2G). Na prática, porém, a tese enfrentou obstáculos relevantes: o arrefecimento do apetite global por investimentos ESG e o avanço do etanol de milho, uma alternativa mais barata e escalável.

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Quatro anos e meio após o IPO, a joint venture entre Cosan (CSAN3) e Shell perdeu 89% do seu valor de mercado e se transformou em uma penny stock, negociada na casa de R$ 0,84 nesta segunda-feira (9). Ao mesmo tempo, a companhia acumulou uma dívida bilionária após um ciclo agressivo de aquisições de ativos.

Na tentativa de reverter essa trajetória, a Raízen iniciou, no fim de 2024, um processo de reestruturação focado na redução da alavancagem. O movimento incluiu uma ampla troca no comando executivo, com a chegada de Nelson Gomes ao cargo de CEO, após passagens por ExxonMobil, Cosan, Compass, Comgás e Moove.

Porém, o mercado e os investidores seguem céticos quanto à capacidade da empresa de promover uma virada consistente.



Os esforços de desinvestimento — incluindo a venda de usinas e outros ativos — já somam cerca de US$ 5 bilhões. A empresa agora trabalha na venda de seus ativos na Argentina, operação que, segundo analistas, poderia render cerca de US$ 1,6 bilhão.

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Mesmo assim, em um ambiente de Selic que saltou de 11,25% para 15% ao ano e com um cenário estruturalmente mais desafiador para açúcar e etanol, essas vendas não se refletiram em queda da dívida líquida nem da alavancagem.

No terceiro trimestre da safra 2024/2025 (3T25), último balanço sob a antiga gestão, a Raízen reportava dívida líquida de R$ 38,6 bilhões e alavancagem de 3,0 vezes (dívida líquida/Ebitda). Já no balanço mais recente, referente ao 2T26, a dívida líquida saltou para R$ 53,4 bilhões, com alavancagem de 5,1 vezes.

Segundo fontes ouvidas pelo Money Times, há uma percepção clara de que a entrada de um novo sócio é essencial para a companhia endereçar esse cenário. Ainda de acordo com essas fontes, um eventual aporte entre US$ 10 bilhões e US$ 15 bilhões — valor que chegou a ser ventilado no mercado — não seria suficiente, por si só, para resolver o problema de alavancagem.

Vale lembrar que, em setembro de 2025, o BTG Pactual e a gestora Perfin anunciaram um aporte de R$ 10 bilhões na Cosan, num acordo que prevê a possibilidade de o BTG assumir o controle total da holding em até seis anos. Durante a entrevista coletiva que marcou o anúncio da operação, o CFO da Cosan foi enfático ao afirmar que os recursos não seriam destinados à capitalização da Raízen.

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O fim da “veia Shell” dentro da Raízen

Fontes ouvidas pelo Money Times apontam que duas decisões da nova gestão teriam ajudado a afundar ainda mais a Raízen.

A primeira foi o desmonte da área de trading da companhia, que sofreu forte redução de tamanho, perdeu profissionais e passou a ser chamada de “supply”.

Historicamente, o trading sempre foi visto como uma das principais “veias Shell” dentro da Raízen — um segmento profundamente ligado à cultura e à geração de valor da multinacional britânica de petróleo e gás.

Com a decisão da holding de intensificar o corte de custos, a área foi um dos primeiros alvos.

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Segundo pessoas próximas ao tema, por ser simultaneamente uma grande produtora e compradora, a Raízen tinha capacidade de capturar valor não apenas na produção, mas também na negociação de commodities.

O braço de trading atuava em mercados como açúcar, etanol, diesel, gasolina e energia elétrica, conferindo à empresa o perfil de um player ativo de mercado — e não apenas de uma operadora industrial.

A chegada de Nelson Gomes ao comando trouxe um choque cultural evidente. Com mais de 15 anos de experiência na ExxonMobil, companhia conhecida pela forte disciplina operacional, foco em eficiência e rigor no controle de custos, sua visão teria contrastado com a vocação histórica da Shell para trading — herança que havia sido incorporada pela Raízen.

Para efeito de comparação, enquanto a Shell produz cerca de 2 milhões de barris de petróleo por dia no mundo, negocia aproximadamente 10 milhões de barris, enxergando alto valor em operações de arbitragem — algo central ao seu DNA corporativo.

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Na safra 2023/2024, dos R$ 15,3 bilhões de Ebitda da Raízen, cerca de R$ 3 bilhões vieram do trading de açúcar, etanol e energia elétrica

Para fontes próximas à companhia, a decisão de praticamente extinguir essa área representou um erro grave e uma perda estrutural de valor, sobretudo em períodos de maior volatilidade.

Na visão desses interlocutores, a empresa abriu mão da capacidade de gerar resultados adicionais além da produção industrial — além de causar surpresa o fato de a Shell não ter se oposto ao movimento.

Outro ponto ressaltado é que o trading nunca havia gerado prejuízos, mesmo em seus momentos mais fracos, ainda que tenha ficado abaixo de projeções orçamentárias em alguns períodos.

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Na contramão, um analista ouvido pela reportagem avalia que o encerramento do negócio foi uma decisão correta, por se tratar de uma atividade fora do core business da companhia.

“Sem o trading, a Raízen se aproxima de um modelo mais simples, como outros operadores do setor. Era uma área que assumia riscos elevados e, muitas vezes, desnecessários. Ainda assim, a empresa segue com ativos complexos e, operacionalmente, piores do que os pares. O fim do trading, por si só, não resolve o problema”, afirmou o analista.

O fim do risco sacado e os impactos sobre as margens de combustíveis

A segunda mudança estrutural equivocada da nova gestão, destacada pelas fontes, está ligada ao capital de giro, mais especificamente à eliminação do risco sacado.

No encerramento do ano fiscal 2024/2025, em março, a Raízen reportou receita líquida de R$ 255 bilhões. A Petrobras figurava como sua principal fornecedora de combustíveis, com compras mensais entre R$ 15 bilhões e R$ 20 bilhões.

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O prazo de pagamento sempre foi um elemento-chave nessa relação. Durante o governo de Michel Temer (2016-2018), quando a Petrobras (PETR4) passou a cobrar taxas elevadas para conceder prazo — chegando a 3% ou 4% ao mês —, a solução encontrada foi o uso do risco sacado, com bancos intermediando as transações. A prática também foi adotada por concorrentes como Vibra Energia (VBBR3) e Ultrapar (UGPA3), dona dos postos Ipiranga.

Nesse modelo, a Petrobras recebia à vista, enquanto a Raízen passava a dever ao banco, preservando prazos mais longos. O instrumento chegou a representar cerca de R$ 12 bilhões em financiamento bancário, substituindo, na prática, o crédito antes concedido pelo fornecedor.

A atual gestão decidiu encerrar o uso do risco sacado, temendo que essa dívida pudesse ser caracterizada como passível de incidência de IOF. Segundo fontes a par do assunto, a mudança provocou um aumento quase automático da dívida, já que a companhia passou a utilizar seu próprio caixa para pagar fornecedores à vista, alterando de forma estrutural o balanço.

Com a compra à vista e descontos maiores, o custo unitário do diesel e da gasolina caiu — o que, em tese, deveria melhorar as margens do segmento de distribuição. Na prática, porém, esse ganho não se materializou.

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“Quando esse ganho de custo não é bem gerenciado, ele acaba sendo repassado ao revendedor. O mercado absorve a vantagem, e a empresa deixa dinheiro na mesa”, explicaram fontes ouvidas pela reportagem.

Segundo esses interlocutores, a Raízen não conseguiu capturar uma vantagem competitiva frente aos concorrentes.

O corte de custos levou à saída de profissionais experientes, o que pode ter contribuído para decisões equivocadas na gestão de preços e no relacionamento com fornecedores estratégicos, como a Petrobras.

Mudanças estratégicas e o fim da crença no longo prazo

As mesmas fontes apontam que a venda de usinas reduz a disponibilidade de biomassa para bioeletricidade e limita a oferta de açúcar e etanol, enfraquecendo a posição estratégica da companhia.

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Para esses interlocutores, a lógica atual de se desfazer de negócios mais voláteis e de ativos industriais torna os resultados mais previsíveis, mas também sinaliza uma perda de convicção no crescimento de longo prazo — especialmente em projetos como o etanol de segunda geração.

O sentimento predominante é de que esses movimentos, no conjunto, preparam a Raízen para uma eventual venda. A grande questão que fica é sobre quem estaria disposto a comprar uma companhia nessa situação.

Procurada pelo Money Times, a Raízen informou que está em período de silêncio e não falará sobre o assunto.

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Repórter
Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu. Atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por pouco mais de 3 anos no Canal Rural. Em 2024 e 2025, ficou entre os 100 jornalistas + Admirados da Imprensa do Agronegócio.
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Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu. Atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por pouco mais de 3 anos no Canal Rural. Em 2024 e 2025, ficou entre os 100 jornalistas + Admirados da Imprensa do Agronegócio.
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