Cotações por TradingView
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Renascimento das moedas locais e depreciativas na forma digital

22/12/2019 - 9:00
Traduzido e editado por Daniela Pereira do Nascimento
As moedas nacionais/governamentais vão dar espaço para os criptoativos, que oferecem mais segurança e governança e menos volatilidade à população (Imagem: Pixabay)

Este é o quarto de seis textos, pois faz parte de uma série de três artigos em que Andrew Gillick, da Brave New Coin, fala sobre “como o blockchain está remodelando nossas ordens econômicas, ambientais e sociais”.

Essa divisão foi feita para que você compreenda, pouco a pouco, a visão do autor em relação à revolução da tecnologia de blockchain no mercado financeiro internacional e, consequentemente, nas nossas vidas.

Parte 1 / Parte 2 / Parte 3 / Parte 4 / Parte 5 / Parte 6

As moedas locais e as que depreciam com o tempo podem parecer uma ideia radical, mas, de fato, têm uma longa história.

Eram muito usadas nos Estados Unidos e na Europa na forma de câmbio durante a Grande Depressão, quando os governos locais e as jurisdições emitiam sua própria moeda alternativa, já que os bancos nacionais não tinham moeda alguma.

Moedas depreciativas (conhecidas como taxa de sobre-estadia) incentivam a circulação e a velocidade do dinheiro em vez de entesourá-lo e fazer com que as pessoas gastem, sem terem crédito, ou se endividem.

O exemplo mais famoso de uma moeda de sobre-estadia é a worgl, ou “Freigeld” (“dinheiro livre” em alemão), que decresceu em valor a uma taxa de 1% ao mês e era autenticada toda vez que era gasta.

O experimento foi inspirado pelo conceito de “Freiwirtschaft” (“economia livre”), criado pelo economista Silvio Gessel, em que o dinheiro é livre de especulação.

A moeda de sobre-estadia funcionava para atender a cidade de Worgl, na Áustria, durante a Grande Depressão. Foi considerada “o milagre de Worgl”, pois levantou a cidade do seu ponto mais baixo, apesar de ser bem provável que teria sido sustentada.

Colu é uma moeda para comunidades locais que promete mudar a maneira como dinheiro é usado (Imagem: Bitcoin Exchange Guide)

Colu: criando criptoativos locais

Colu é uma startup de blockchain que visa “mudar a cara da sua economia local”. Já emitiu moedas em comunidades no Reino Unido mirando fomentar a atividade econômica local.

Também planeja criar moedas para cidades com sistemas de incentivo para impulsionar um comportamento positivo entre os residentes ao recompensar ações sociais como trabalho voluntário, participação em atividades cívicas ou gasto de suas moedas digitais em produtos locais.

Kintetsu Group Holdings Co. é uma empresa-mãe japonesa de ferrovias fundada em 1910 (Imagem: Alamy)

Kintetsu Harukas Coin: moeda de comunidade corporativa

O conglomerado japonês Kintetsu, que opera uma ferrovia que liga duas grandes cidades e destinos turísticos, emitiu sua própria moeda-piloto comunitária.

A moeda Kintetsu foi aderida em mais de 400 locais do Kintetsu Group, incluindo uma cadeia de lojas de departamento e o observatório Harukas no alto da torre Abeno Harukas, de 300 metros de altura (o maior edifício do Japão, localizado em Osaka).

Os resultados da moeda-piloto foram tão positivos que a empresa adotou a moeda digital.

Lançado em 2017, CoffeeCoin (COF) é o primeiro token do mundo para compra, venda, rastreamento e certificação de café usando a tecnologia de registro distribuído (DLT) na plataforma Waves (Imagem: CryptoNewsZ)

CoffeeCoin: moeda microeconômica e artesanal

Serviços intermediários como Comércio Justo e órgãos que certificam produtos também vão ser redundantes com as criptomoedas de microeconomia.

O Comércio Justo/orgânico criou um conflito para os consumidores: pagar extra por câmbios tornou o “consumo ético”, ou consumir apenas alimentos sem química tornou-se um luxo.

O custo de certificar um crescimento orgânico ou um comerciante justo com o órgão governamental muda o custo para o consumidor, mas quando as cadeias de fornecimento emitem suas próprias moedas, elas podem salvar o custo da certificação e, talvez, teremos que confiar nessa procedência.

CoffeeCoin (COF) tem a função de um utility token no seu CoffeeChain, ecossistema de blockchain, como uma representação nominal de um quilo de café arábica verde no blockchain da Waves, com um fornecimento total de 40m COF.

Ao ligar produtores de cafés especializados na Indonésia com o comprador final, além de uma plataforma de negociação de café para aqueles na cadeia inteira, da fazenda para a xícara. O valor da criptomoeda pode ser interpretado como a confiança na procedência dos bens no sistema.

Não há dúvidas de que a próxima moeda de reserva internacional vai ser um criptoativo (Imagem: Getty Images)

Criptoativos vão encerrar a missão histórica de criar uma moeda autônoma

A busca para criar uma moeda como um meio de câmbio desligado de uma reserva de valor vem sendo realizada há muito tempo.

O economista John Maynard Keynes foi um dos primeiros defensores. Ele afirmou que o papel duplo do dinheiro cria conflitos de interesse entre os mais ricos e os mais pobres e atribuiu isso à desigualdade.

Desaprovou o uso especulativo de moedas tradicionais e de arbitragem de taxas de juros e foi um defensor das taxas de juros negativas em alguns casos.

Nos anos 1940, Keynes propôs uma unidade de reserva global supranacional de prestação de contas chamada “Bancor” como precursor dos direitos especiais de saque do FMI.

Mesmo não sendo uma moeda, foi usada como uma unidade não especulativa para o acordo de negociação internacional: as pessoas não poderiam deter dinheiro ou negociar no Bancor.

Os Estados Unidos pretendeu adotá-lo, mas, após a Segunda Guerra Mundial e o Bretton Woods, o dólar se tornou a moeda de reserva mundial.

Iterações contemporâneas também foram propostas baseadas no Bancor de Keynes. O economista Bernard Lietaer propôs Terracoin (TRC), a moeda de referência para negociações.

Criada em outubro de 2012, a TRC é uma moeda descentralizada que visa ajudar o mundo através de doação, dando governança descentralizada aos usuários (Imagem: Bitcoin Exchange Guide)

Criada em 2000 como uma iniciativa de moeda complementária supranacional, visava funcionar em paralelo com o sistema monetário internacional vigente, pois era livre de influências geopolíticas e especulativas das moedas nacionais.

“Foi criada para contrariar os fortalecimentos e fracassos do ciclo empresarial e estabelecer a economia global. Sobretudo, irá solucionar o conflito entre os juros financeiros a curto prazo e a sustentabilidade a longo prazo”, afirma o whitepaper do Terra.

TRC é uma moeda de sobre-estadia que deprecia em 4% por ano para evitar o entesouramento e incentivar seu uso como uma unidade de “trocas compensatórias”, de prestação de contas para negociação internacional.

Lietaer foi considerado o “maior operador de moedas do mundo” pela Business Week em 1992 e é mundialmente conhecido como o “Arquiteto do Euro”. Ele pretendia usar o euro como uma moeda comum de uso pan-europeu, e não para substituir moedas nacionais.

“[Terra é] uma moeda complementária global criada para fornecer um padrão internacional de valor resistente à inflação, para estabilizar o ciclo econômico a nível global e para realinhar os interesses dos acionistas com sustentabilidade a longo prazo.”

Tanto a proposta de Keynes como a de Lietaer tomaram forma no blockchain por meio dos projetos de criptoativos epônimos: Bancor Protocol (BNT) e a stablecoin Terra. De forma irônica, Bernard Lietaer foi o arquiteto monetário chefe para a Bancor Protocol Foundation.

DAOs vão criar as primeiras economias nativamente digitais

DAO (empresa autônoma descentralizada) se refere a uma organização representada por regras codificadas em um programa de computador que é transparente, controlado pelos acionistas e não é influenciada por um governo central (Imagem: ICO Brothers Media)

Dinheiro Terra

Apesar de Basis, o famoso projeto abandonado, ter sido o mais famoso (agora infame) dos “bancos centrais algorítmicos”, para estabilizar moedas e ativos descentralizados, continua a tentativa de criar uma moeda completamente autônoma e estável.

Talvez, por inspiração da proposta física de Lietaer, a stablecoin Terra visa ser a primeira criptomoeda global não especulativa ao focar em ser um meio de câmbio, e não uma reserva de valor, para ser usada como a moeda principal no comércio virtual da Ásia.

Propõe uma economia de dois tokens, em que Terra é a moeda estável, inicialmente fixada por uma cesta de moedas que refletem os direitos especiais de saque do FMI (41,73% para dólar, 30,93% para euro, 10,92% para yuan, 8,33% para iene e 8,09 para libra) com commodities adicionais a serem integradas pela cesta, como metais, grãos e ativos descentralizados.

A stablecoin Terra prevê uma economia descentralizada parecida, essencialmente, com o fracasso da stablecoin Basis, e sua segunda moeda, “Luna”, é o token de incentivo para usuários, para manter “depósitos” na Terra Foundation e recompensar com as taxas de transação geradas da Terra.

Terra prevê se tornar um token nativo para um grande ecossistema de dapps (aplicações descentralizadas) e DAOs (empresas autônomas descentralizadas) a serem usados no futuro, como um método de pagamento on-line ou de pontos de venda.

Lançada em 2016, Aragon dá autonomia às pessoas para organizarem e colaborarem livremente sem fronteiras ou intermediários, a fim de criar organizações, empresas e comunidades globais e sem burocracias (Imagem: ICObuffer)

Aragon

Aragon não é necessariamente uma stablecoin, mas planeja criar a primeira jurisdição digital mundial estritamente para DAOs, a fim de operar da mesma forma que as organizações físicas, com legislação e acordos contratuais.

“Aragon permite que você organize e colabore livremente sem fronteiras ou intermediários. Crie empresas e comunidades globais livres de burocracia.”

Seu token ERC-20, ANT, é a moeda nativa da economia e seu valor é estável (mas não fixado), da mesma forma que Basis ou Terra, ao ajustar algoritmicamente o fornecimento de sua reserva de estabilidade.

Aragon pode ter um papel significativo, pois as comunidades querem recuperar o que é delas (terra, ar, água, recursos naturais) das corporações por meio da tokeconomia, para migrar para uma economia eficiente.

A internet deu início à mudança da economia de compartilhamento com a revolução de código aberto e, apesar de ser anexada por alguns gigantes corporativos (empresas FANG), está voltando para sua visão inicial de descentralização.

Esse ethos de livre acesso também se encaixa com a visão clássica do capitalismo, onde o aluguel dos proprietários da internet, Facebook e Google, foi retirada da governança dos recursos abertos.

Essa mudança também é incorporada por reguladores ao redor do mundo, que estão multando grandes empresas de tecnologias e suprimindo seus modelos empresariais baseados em propaganda.

A expansão da dívida baseada em fiduciárias interrompeu o fluxo de produção e consumo, o que levou a uma redução econômica, e vai se tornar mais evidente quando a próxima recessão acontecer. Nesse ponto, vai ser inevitável uma ordem econômica, ambiental e social completamente nova se reemergir.

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Última atualização por Daniela Pereira do Nascimento - 09/06/2020 - 12:59