Rendimentos de 15% e potencial de R$ 1 trilhão até 2029: por que os ETFs de renda fixa são os queridinhos do momento?
Os ETFs de renda fixa deixaram de ser um produto de nicho na bolsa brasileira para se transformar em uma das principais apostas da indústria financeira em 2026. Embalados pelo cenário de juros elevados e pela busca dos investidores por alternativas mais vantajosas e simples de acessar títulos públicos e crédito privado, esses fundos negociados em bolsa vivem um verdadeiro “boom” na B3.
Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Os ETFs registraram a segunda maior captação líquida entre todas as classes de fundos no primeiro trimestre deste ano, segundo dados da Anbima. Foram R$ 17,8 bilhões em entradas líquidas entre janeiro e março, o melhor resultado para o período nos últimos cinco anos. Os produtos ligados a renda fixa responderam por R$ 15,5 bilhões do total.
O movimento também aparece na quantidade de produtos lançados nos últimos anos. Levantamento exclusivo produzido pela Elos Ayta para o Money Times mostra que os ETFs de renda fixa começaram de forma tímida na bolsa brasileira, com poucos produtos até 2021. O cenário mudou radicalmente a partir de 2024, em meio ao avanço da demanda por aplicações conservadoras em um ambiente de juros elevados e à maior compreensão do mercado sobre as vantagens tributárias desses produtos.
Somente entre 2025 e o início de 2026, a B3 recebeu uma enxurrada de novos ETFs de renda fixa de bancos, gestoras e plataformas como BTG Pactual, Itaú Unibanco, Bradesco, XP, Genial e muitos outros.
Hoje, o mercado reúne desde produtos atrelados à taxa Selic e ao CDI, até ETFs de inflação, prefixados, de crédito privado e, principalmentre, títulos públicos de diferentes prazos.
Além da expansão da oferta, alguns produtos já movimentam bilhões de reais em volume. É o caso do LFTB11, ETF de títulos pós-fixados lançado em novembro de 2024, que já acumula mais de R$ 4 bilhões em negociações em 2026. Outros exemplos são o LFTS11 e o LLFT11, ambos com volumes superiores a R$ 3 bilhões.
A rentabilidade também ajudou a impulsionar o interesse do investidor. Em um ambiente de juros elevados, os ETFs passaram a entregar retornos competitivos com praticidade operacional e taxas menores do que muitos fundos tradicionais.
Entre os destaques do levantamento da Elos, aparecem ETFs como MARG11, com retorno de 15% em 12 meses, além de outros produtos que acumulam ganhos próximos de 14% no período.
Confira o levamento:
| Código | Indicador | Retorno em 12M | Retorno em 2026 | Primeiro dado | Volume R$ Milhares em 2026 |
|---|---|---|---|---|---|
| FIXA11 | CDI (juros básicos) | 12,54 | 3,35 | 06/09/2018 | 18.988 |
| IMAB11 | Inflação geral (NTN-B) | 12,26 | 5,22 | 17/05/2019 | 1.047.100 |
| IRFM11 | Prefixado médio | 13,62 | 3,92 | 23/09/2019 | 318.885 |
| IB5M11 | Inflação curta | 12,19 | 4,79 | 23/09/2019 | 241.793 |
| IMBB11 | Inflação geral | 12,06 | 4,92 | 11/12/2019 | 92.236 |
| B5MB11 | Inflação longa | 12,10 | 4,55 | 11/12/2019 | 158.629 |
| B5P211 | Inflação longa | 11,95 | 5,42 | 16/11/2020 | 1.154.049 |
| DEBB11 | Crédito privado (CDI) | 13,89 | 4,31 | 28/06/2022 | 371.904 |
| LFTS11 | Tesouro Selic | 14,73 | 4,77 | 09/11/2022 | 3.120.451 |
| NTNS11 | Inflação longa (Tesouro) | 12,18 | 5,52 | 19/06/2023 | 102.466 |
| BDAP11 | Juros vs inflação (DAP) | 14,78 | 5,24 | 26/09/2023 | 840 |
| PACB11 | Inflação longa | 13,20 | 5,07 | 12/07/2024 | 104.430 |
| IDKA11 | Prefixado curto | 13,60 | 3,83 | 30/10/2024 | 223.875 |
| PACG11 | Juros geral (mix) | 12,19 | 5,20 | 01/11/2024 | 57.414 |
| PACC11 | Inflação curta | 12,14 | 5,59 | 01/11/2024 | 92.165 |
| LFTB11 | Tesouro Selic | 14,74 | 4,79 | 05/11/2024 | 4.184.674 |
| PHIP11 | Inflação (IPCA+) | 12,28 | 4,87 | 10/03/2025 | 3.184 |
| MARG11 | Crédito privado | 15,00 | 4,70 | 24/03/2025 | 80.645 |
| LLFT11 | Tesouro Selic | 8,05 | 4,74 | 13/06/2025 | 3.102.355 |
| LTNB11 | Prefixado médio | 7,28 | 3,65 | 15/07/2025 | 31.084 |
| PACL11 | Inflação curta | 4,97 | 4,84 | 22/07/2025 | 34.959 |
| AREA11 | Juros diversificado | 2,88 | 3,30 | 26/09/2025 | 34.702 |
| LFIN11 | Inflação | 3,57 | 4,81 | 30/09/2025 | 298.844 |
| SFIX11 | Prefixado | 2,95 | 5,48 | 02/10/2025 | 14.081 |
| HYBR11 | Juros misto | 4,02 | 3,77 | 10/10/2025 | 62.971 |
| HGBR11 | Juros global | 2,86 | 4,00 | 10/10/2025 | 41.611 |
| GICP11 | Crédito incentivado | 2,50 | 3,41 | 10/10/2025 | 9.832 |
| GLFT11 | Tesouro Selic | 2,88 | 4,76 | 16/10/2025 | 768.029 |
| NCDI11 | CDI | 2,84 | 4,76 | 17/10/2025 | 9.102 |
| BPRE11 | Prefixado | 2,86 | 3,91 | 17/10/2025 | 21.109 |
| BOL511 | Juros + bolsa | 2,56 | 5,61 | 17/10/2025 | 59.976 |
| BLFT11 | Tesouro Selic | 2,77 | 4,72 | 17/10/2025 | 244.373 |
| WEJR11 | Inflação (juros reais) | 3,35 | 4,84 | 20/10/2025 | 8 |
| XB5011 | Inflação muito longa | 0,12 | 5,17 | 16/12/2025 | 58.184 |
| XB3511 | Inflação longa | 0,54 | 4,37 | 16/12/2025 | 49.080 |
| T10R11 | Juros EUA (10 anos) | -0,04 | 3,67 | 16/12/2025 | 17.407 |
| AUPO11 | Prefixado | 0,35 | 4,93 | 16/12/2025 | 590.133 |
| NLFA11 | Crédito bancário | 0,27 | 4,74 | 17/12/2025 | 84.401 |
| LFTI11 | Tesouro Selic | 0,06 | 4,92 | 26/12/2025 | 58.360 |
| XB6011 | Inflação diversificada | – | 1,92 | 04/03/2026 | 1.840 |
| XB4511 | Inflação longa | – | 2,89 | 04/03/2026 | 2.894 |
| 5PRE11 | Prefixado (5 anos) | – | 3,16 | 26/03/2026 | 31.023 |
| LTBX11 | Selic otimizado | – | 1,03 | 06/04/2026 | 30.072 |
| POSB11 | Selic + inflação | – | 1,09 | 07/04/2026 | 89.617 |
| LFTX11 | Tesouro Selic | – | 1,04 | 07/04/2026 | 2.953 |
| XB3011 | Inflação média | – | 0,86 | 09/04/2026 | 15.179 |
Levantamento feito no dia 6 de maio. Fonte: Elos Ayta
Um “pacote” de renda fixa na bolsa
Para Bruno Stein, responsável pela área de ETFs da Galapagos Capital, o avanço da indústria acontece porque o produto passou a oferecer uma forma mais simples, barata e eficiente de acessar investimentos já tradicionais no mercado.
“O Brasil é um país de renda fixa”, afirmou em entrevista ao Money Times. “O ETF não cria demanda, ele atende demanda. Ele é um veículo eficiente para atender uma demanda de alocação numa classe de ativo que já existe”.
Segundo Stein, os ETFs deixaram de ser um nicho e passaram a disputar espaço diretamente com Tesouro Direto, CDBs e fundos tradicionais de renda fixa.
Na avaliação do executivo, três fatores explicam o crescimento acelerado do produto: eficiência tributária, custo mais baixo e democratização do acesso. “O ETF é eficiente, transparente e fácil”, resumiu.
A leitura é semelhante à de Rodrigo Araújo, especialista de ETF da Itaú Asset. Segundo ele, o crescimento dos ETFs de renda fixa acompanha uma mudança no comportamento do investidor brasileiro, que passou a olhar menos para produtos isolados e mais para a construção de portfólio.
“O investidor acabou saindo um pouco mais da visão produto e indo para uma visão muito mais portfólio”, afirmou. “O ETF entra muito dentro desse protagonismo porque entrega liquidez, transparência, diversificação e agilidade operacional”.
A principal vantagem, segundo Stein, está na tributação. Diferentemente dos fundos tradicionais, os ETFs de renda fixa não possuem come-cotas semestral e, em sua maioria, já começam com alíquota de 15% de Imposto de Renda. “Ele não tem IOF, não tem come-cotas e já parte de uma alíquota de 15% no primeiro minuto”, afirmou.
O especialista de ETF do Itaú Asset explica ainda que, nos ETFs, a tributação depende do prazo médio dos títulos da carteira e não do tempo em que o investidor permanece aplicado. “Você acaba tendo uma alíquota definitiva de IR”, disse. Em carteiras mais longas, a tributação pode cair para 15%.
No Tesouro Direto, por exemplo, a menor alíquota só é atingida após dois anos de aplicação por conta da tabela regressiva de imposto. Além disso, Stein destaca que os ETFs permitem adiar o pagamento do imposto ao reinvestirem automaticamente os cupons recebidos pelos títulos públicos.
“Os cupons são reincorporados na cota, então você difere essa tributação para daqui a quantos anos demorar para resgatar”, explicou. “Enquanto o dinheiro não está pago em tributo, ele está trabalhando para você”.
Outro diferencial está nas taxas mais baixas. Segundo o executivo, os ETFs de renda fixa que mais captam recursos atualmente possuem taxas inferiores às cobradas pelo Tesouro Direto.
“O Tesouro Direto custa 0,20% ao ano. Os ETFs de renda fixa que estão captando têm taxa abaixo de 0,20%. Tem ETF com taxa zero”. Nos fundos tradicionais, acrescenta, é difícil encontrar produtos com taxa inferior a 0,5%.
Além do custo reduzido, o acesso facilitado também ajudou a popularizar o produto entre investidores de varejo.
“Com R$ 100 você compra”, disse Stein. “O ETF de renda fixa é o fundo exclusivo antigo que era só do multimilionário, mas que agora é de todo mundo”, diz referindo-se ao ajuste na Lei que tirou a vantagem dos fundos exclusivos pagarem imposto apenas no resgate do dinheiro.
Para Araujo, a ampliação da oferta de produtos também ajudou a acelerar a adoção dos ETFs. Segundo ele, o mercado começou apenas com produtos de renda variável e passou a ganhar tração quando surgiram ETFs ligados à renda fixa, incluindo estratégias pós-fixadas, prefixadas e atreladas à inflação.
“Quanto mais você vai aumentando essa gama de soluções, melhor você atende à demanda do investidor”, afirmou.
Ele também destaca que a praticidade operacional virou um diferencial importante. “Você entra no mercado agora, compra o ETF e consegue negociar durante todo o pregão”, disse. “É uma forma simples, líquida e transparente de montar uma carteira sem precisar selecionar título por título”.
Para o especialista da Galapagos, o mercado já começou a viver uma migração relevante de recursos saindo de produtos tradicionais em direção aos ETFs. Segundo ele, parte importante desse fluxo acontece quando investimentos antigos vencem e o investidor busca novas alternativas.
O movimento, segundo ele, também levou os grandes bancos a acelerarem sua entrada nesse mercado. “Os próprios bancos estão fazendo um movimento enorme de migração de Tesouro Direto para ETF de renda fixa”.
Potencial de trilhões
Na visão do executivo, a expansão da indústria ainda está apenas no começo. Segundo ele, hoje, o mercado brasileiro de ETFs soma cerca de R$ 130 bilhões, enquanto a indústria de renda fixa tradicional movimenta aproximadamente R$ 10 trilhões.
Por isso, Stein acredita que os ETFs podem atingir R$ 1 trilhão até o fim de 2029, com a renda fixa liderando esse crescimento, com captação próxima de R$ 800 bilhões.
Mesmo nesse cenário, ele avalia que o mercado ainda teria amplo espaço para crescer. “Mesmo que chegue a R$ 1 trilhão, ainda será só 10% da indústria”.