Reservas cambiais de US$ 1,4 tri do Japão podem ser reduzidas para financiar contas internas
As enormes reservas em moeda estrangeira do Japão, um caixa estratégico prioritário para futuras intervenções no iene, voltaram a ser alvo de escrutínio à medida que a primeira-ministra Sanae Takaichi busca fontes de financiamento para bancar um plano controverso de suspender o imposto sobre consumo após sua vitória eleitoral esmagadora.
O foco sobre o estoque de US$ 1,4 trilhão, muito maior que o orçamento anual do Estado, destaca a intensa pressão sobre Tóquio para identificar fontes alternativas de financiamento para um déficit estimado de 5 trilhões de ienes (US$ 31,99 bilhões) por ano em arrecadação, uma perspectiva que tem inquietado os mercados financeiros.
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Após a vitória decisiva nas eleições deste domingo (8), Takaichi prometeu acelerar as deliberações sobre a suspensão, por dois anos, do imposto de 8% sobre vendas de alimentos sem a emissão de nova dívida, afirmando que os detalhes precisariam ser discutidos com outros partidos.
Alguns funcionários do governo, que falaram sob condição de anonimato devido à sensibilidade do tema, afirmam que Takaichi pode considerar o uso do excedente das reservas, após ter destacado em um discurso de campanha que as reservas internacionais do Japão foram grandes beneficiárias do iene fraco e estavam “apresentando desempenho muito bom”.
Questionada sobre essa possibilidade, a ministra das Finanças, Satsuki Katayama, disse em entrevista à televisão que era concebível que o grande excedente pudesse ser utilizado.
“No entanto, isso toca na questão da intervenção cambial. Do ponto de vista do interesse nacional, não é desejável divulgar todos os detalhes do que está disponível”, acrescentou.
Os planos de corte de impostos de Takaichi e sua agenda fiscal expansionista provocaram turbulência nos mercados japoneses no mês passado, com os rendimentos dos títulos disparando para máximas recordes diante das preocupações com a capacidade do governo de financiar gastos adicionais em um país com a maior carga de dívida do mundo desenvolvido.
A máquina fiscal não deve depender das reservas cambiais
No último ano fiscal, o Japão registrou um excedente recorde de 5,4 trilhões de ienes em uma conta governamental especial para reservas cambiais, refletindo receitas provenientes de títulos do Tesouro dos EUA acumulados durante episódios anteriores de intervenção com compra de dólares.
Os ativos dessa conta, investidos principalmente em Treasuries, são financiados por títulos emitidos em ienes, com os custos de juros mais do que compensados pelos retornos, graças ao amplo diferencial de juros entre os EUA e o Japão.
Há precedentes de desvio do excedente para financiar políticas emblemáticas. Embora as regras orçamentárias exijam que pelo menos 30% do excedente anual seja mantido na conta como um colchão contra perdas futuras, essa exigência já foi flexibilizada em algumas ocasiões, permitindo a transferência da totalidade do valor para a conta geral.
“As reservas cambiais já foram usadas, em alguns momentos, para fins políticos”, disse um funcionário do governo.
Saisuke Sakai, economista-chefe do Mizuho Research & Technologies, afirmou que “as reservas em moeda estrangeira são, em sua essência, um mecanismo de segurança para garantir a estabilidade cambial”.
“A renda gerada pelas reservas é certamente importante, mas não deve ser utilizada de forma excessiva como fonte permanente de financiamento, pois ela varia conforme os mercados e as taxas de juros”, acrescentou.
Como qualquer excedente adicional provavelmente será pequeno em relação ao déficit de arrecadação, o maior partido de oposição está defendendo medidas mais radicais, propondo reunir as reservas cambiais do Japão e as participações do banco central em ETFs em um fundo soberano, em busca de retornos mais elevados.
“O tamanho das reservas pode ser um pouco excessivo à luz do objetivo de garantir a estabilidade cambial”, disse à Reuters o parlamentar da oposição Isamu Ueda.
“Embora os Treasuries dos EUA sejam ativos extremamente estáveis e ofereçam um certo nível de retorno, acredito que seria possível adotar uma abordagem de investimento um pouco mais proativa, sem necessariamente assumir riscos significativamente maiores”, acrescentou.
Medo de Trump
Vários funcionários do governo rejeitam a ideia em caráter privado, com um deles observando que vendas em grande escala de Treasuries poderiam irritar Washington em um momento em que o mercado de títulos dos EUA permanece sensível. O Japão é o maior detentor de dívida americana.
“Alguns temem que o Japão possa ficar impossibilitado de intervir para conter a fraqueza do iene se suas reservas em moeda estrangeira forem insuficientes”, disse Hiroshi Watanabe, ex-vice-ministro das Finanças para assuntos internacionais, em entrevista recente.
Fred Neumann, economista-chefe para a Ásia do HSBC em Hong Kong, concordou, afirmando que “seria arriscado vender reservas principalmente para fins fiscais, e não para a gestão da taxa de câmbio, pois isso reduziria as reservas disponíveis para uma eventual intervenção futura”.