Tenda (TEND3) cai forte na bolsa em meio a atrasos da Prefeitura de SP e pressão da Caixa; JP Morgan vê cautela no 3T26
As ações da construtora Tenda (TEND3) operam em forte queda nesta terça-feira (29), figurando entre os destaques negativos do pregão.
Por volta das 14h54 (de Brasília), os papéis da companhia recuavam cerca de 4,4% na bolsa de valores, negociados a R$ 27,27.
No mesmo horário, outras incorporadoras voltadas ao segmento de baixa renda, como Cury (CURY3), Direcional (DIRR3) e MRV (MRVE3), operavam em alta, com ganhos de 0,62%, 1,55% e 1,54%, respectivamente.
Já o Ibovespa (IBOV), principal índice da B3, caía 0,1%, aos 182.907 pontos, em um dia de queda nos preços do petróleo, o que pressiona a Petrobras (PETR4), que tem peso relevante no indicador. Acompanhe o tempo real.
A queda das ações da Tenda ocorre no mesmo dia da visita ao canteiro de obras (site visit) do complexo Cittá Vila Prudente, realizada na manhã desta terça-feira pela administração da companhia com analistas e investidores.
Nesse tipo de evento, a empresa detalha o andamento das obras, as estratégias de negócio e a execução de parcerias — como a participação no programa habitacional Pode Entrar, da Prefeitura de São Paulo.
Em documento divulgado ao mercado paralelamente à visita, a construtora destacou que a obra do Cittá Vila Prudente, iniciada em meados de 2024, tem entrega prevista para novembro deste ano.
O complexo em construção, que é vinculado ao Pode Entrar, fica localizado na zona Leste da capital paulista e contará com 25 torres e 1.984 unidades.
Tenda tem R$ 75 milhões a receber
No mesmo documento, porém, a Tenda apontou que possui R$ 52,7 milhões em valores atrasados a receber da Prefeitura de São Paulo – montante relacionado justamente ao programa habitacional.
A Prefeitura da capital paulista acumula ainda R$ 21,79 milhões em cifras extras referentes a correção, juros e multa, resultando em um total de quase R$ 75 milhões em pagamentos em atraso à TEND3.
No caso somente do complexo Cittá Vila Prudente, R$ 281,9 milhões já foram pagos, mas há R$ 31,3 milhões em atraso e R$ 83 milhões a vencer, além de R$ 13 milhões em correção, multas e juros.
Greve da Caixa
A companhia também apontou, no documento, que medidas recentes adotadas pela Caixa Econômica Federal (CEF) tendem a impactar seus indicadores operacionais.
Entre elas, a construtora citou a greve dos funcionários do banco, iniciada em 10 de setembro, que provocou represamento burocrático nas agências de financiamento imobiliário.
Segundo a Tenda, a paralisação implica um deslocamento temporal dos repasses entre os meses, embora não deva afetar “o fluxo de caixa do ano caso seja encerrada logo”.
Outro ponto mencionado foi o maior rigor da CEF na concessão de crédito. Como possível implicação operacional, a incorporadora apontou uma redução na conversão de vendas, com maior pressão sobre clientes com renda informal ou mista.
A Tenda também mencionou o expurgo de contratos que não atendam aos critérios de repasse, o que pode resultar em aumento pontual dos distratos.
JP Morgan vê cautela da Tenda no 3T26
Segundo analistas do JP Morgan, a construtora adotou, no site visit, um “tom cauteloso” em relação ao terceiro trimestre de 2026 (3T26), justamente diante dos critérios mais rigorosos de pontuação de crédito da Caixa e dos atrasos recentes nos pagamentos do programa Pode Entrar.
Para o banco norte-americano, inclusive, a velocidade de vendas da Tenda entre julho e setembro deve ser afetada pela maior rigidez da Caixa, que ainda não teria retornado aos níveis observados em junho.
“A companhia comentou que a velocidade de vendas do 3T26 será impactada por um nível de cancelamentos acima da média, refletindo principalmente o aumento da exigência de pontuação de crédito da CEF — o que restringe a consideração de renda informal na análise de crédito — e, em menor grau, a greve dos funcionários”, afirmou o JP.
Sobre o Pode Entrar, os analistas disseram que a Tenda informou que os R$ 75 milhões estão atrasados desde maio, mas que esses valores não impactarão o resultado do terceiro trimestre e devem ser resolvidos “em breve”.
Apesar dos desafios no programa habitacional, o JP Morgan destacou que a construtora demonstrou capacidade de executar as obras de forma eficiente e rápida.
Segundo os analistas, o projeto Cittá Vila Prudente, por exemplo, foi entregue em menos de 24 meses e sem estouro de custos.
A casa também apontou que a administração está atenta à potencial pressão inflacionária decorrente do aumento dos valores do diesel.
De acordo com o banco norte-americano, os preços de mercado estão cerca de 50% abaixo da paridade em razão de subsídios, o que pode exigir uma provisão maior para inflação nos orçamentos de futuros lançamentos.
“A administração da Tenda declarou que, neste momento, não há necessidade de revisar as projeções para o ano todo, mas reconheceu que, em 2027, o crescimento dos lançamentos pode ficar abaixo do esperado”, afirmou o JP.
A casa tem recomendação overweight (equivalente à compra) para TEND3, com preço-alvo de R$ 52,50, o que indica potencial de alta de aproximadamente 94%.