Vale (VALE3): Frete caro acende alerta para setor, mas mineradora mantém custos competitivos, dizem analistas
As pressões dos custos de frete marítimo com a disparada do frete spot (à vista) Brasil-China, que encostou a cotação de US$ 40 por tonelada, acendeu um sinal de alerta para os produtores globais, sendo uma delas a Vale (VALE3).
Em reunião com analistas, o CEO Gustavo Pimenta afirmou que cerca de 120 milhões de toneladas de minério de ferro podem se tornar economicamente inviáveis sob as condições atuais de mercado, sendo que uma parte relevante desse volume fica no Brasil.
Esse montante engloba cerca de 35 milhões de toneladas compradas de terceiros que dependem de contratos de frete favoráveis para o próximo ano, além de aproximadamente 5 milhões de toneladas de produção própria com custos mais elevados.
Apesar da pressão, o Itaú BBA avalia que a mineradora continua “bem protegida” contra o aumento do frete por meio de seus contratos de longo prazo e hedges de bunker, enquanto a administração espera que as tarifas de frete se normalizem ao longo do tempo.
“Proteção” da Vale
Para proteger as margens, a Vale mantém cerca de 75% do frete contratado para 2027, com taxas entre US$ 18 e US$ 20 por tonelada e bunker (o combustível dos navios) a US$ 500 por tonelada.
Além disso, 70% da exposição ao bunker está protegida a um preço equivalente ao Brent de aproximadamente US$ 78 por barril, deixando cerca de 25% em aberto — que serão contratados oportunisticamente ou transportados às tarifas spot, principalmente no segundo semestre de 2027, segundo a empresa.
Com o combustível spot a US$ 750 por tonelada, o custo sobe cerca de US$ 4 por tonelada.
Para 2028, a Vale também não está desprotegida e mantém cobertura estrutural significativa.
Apesar disso, os analistas do Itaú BBA destacam que “a administração indicou que as tarifas atuais não oferecem um ponto de entrada atraente para adicionar novas proteções”.
China como a principal incerteza
Do lado da demanda, a Vale continua a ver a China como a principal incerteza para os negócios.
Isso porque as discussões sobre estímulos e reduções da capacidade de aço continuam, mas a gestão ainda não viu evidências significativas de nenhum dos dois, enquanto as exportações seguem sendo um importante canal de escoamento para a produção chinesa de aço.
Ao mesmo tempo, as exportações continuam sendo um importante canal de escoamento para a produção chinesa de aço com a forte demandano Sudeste Asiático — destacando vendas de 10 milhões de toneladas para o Vietnã e 15 milhões de toneladas para a Índia — , o que pode limitar o impacto de uma demanda doméstica mais fraca sobre a produção das siderúrgicas do país.
O que esperar de Vale
O CEO da mineradora, na reunião com analistas, manteve a indicação de que qualquer decisão sobre dividendos ou recompras dependerá do desempenho até o fim do ano.
“Dada a incerteza atual, o tom foi compreensivelmente mais cauteloso, embora a posição financeira da Vale siga sólida”, avalia o BTG Pactual.
Em um cenário “mais desafiador” para as mineradoras, com preços do minério sendo negociados na faixa de US$ 95 a 98 por tonelada, custos e fretes elevados, o banco afirma que Vale se destaca pela qualidade superior de seus ativos e de seu mix de produtos, bem como por sua estratégia de frete, “que deve sustentar custos significativamente mais competitivos em relação aos pares”, segundo os analistas.
Para a equipe de analistas, a principal alavanca potencial de expansão de múltiplos segue sendo o cobre. “A gestão argumenta que a Vale tem maior opcionalidade de crescimento do que os pares e que, se a companhia entregar com sucesso seu plano de aproximadamente dobrar a produção de cobre, o diferencial de valuation deve eventualmente diminuir”, afirmam em relatório.
O BTG Pactual tem recomendação de compra com preço-alvo de R$ 90 — o que implica em um potencial de valorização de 23% sobre os níveis atuais.
O Itaú BBA também tem recomendação de compra com preço-alvo de R$ 94 no final de 2027, o que representa um potencial de valorização de 28% sobre o preço de fechamento anterior.