Vem aí? Por que o BTG vê novo ciclo de IPOs nos EUA após seca de emissões
O mercado de ofertas públicas iniciais (IPOs) dos Estados Unidos entrou nos estágios iniciais de um novo ciclo de emissões, impulsionado pela estabilização dos juros, melhora das condições financeiras e por uma fila crescente de empresas privadas que adiaram seus planos de abertura de capital durante o período de retração do mercado.
A avaliação faz parte de um relatório publicado pelo BTG Pactual, que aponta sinais de recuperação após uma das maiores paralisações do mercado de IPOs da história recente. Segundo o banco, a combinação de taxas de juros mais estáveis, recuperação das bolsas americanas e abundância de liquidez criou um ambiente mais favorável para novas listagens.
Para os analistas do BTG, o movimento atual difere significativamente do boom observado entre 2020 e 2021. Naquele período, a combinação de juros próximos de zero e excesso de liquidez permitiu que empresas sem histórico consistente de rentabilidade acessassem o mercado com avaliações elevadas. Agora, os investidores passaram a exigir maior disciplina financeira, lucratividade ou uma trajetória clara de geração de caixa.
O banco destaca que o congelamento das emissões entre 2022 e 2023 acabou produzindo um efeito colateral relevante: muitas empresas utilizaram o período para fortalecer governança, melhorar indicadores financeiros e aumentar a eficiência operacional antes de buscar uma listagem.
Segundo o relatório, essa fila inclui companhias ligadas a inteligência artificial, pagamentos, infraestrutura de dados, segurança cibernética, tecnologia de defesa e tecnologia espacial — segmentos considerados entre os principais vetores de crescimento da próxima década.
O mercado americano viveu uma forte contração após o Federal Reserve iniciar o ciclo de aperto monetário em março de 2022. O aumento acelerado dos juros comprimiu os múltiplos de valuation e reduziu o apetite por ativos de crescimento, provocando uma queda abrupta na atividade do mercado primário.
Os números ilustram a dimensão do movimento. Em 2021, auge da euforia pós-pandemia, os Estados Unidos registraram 1.078 IPOs, com captação de US$ 203,7 bilhões. Em 2022, o volume caiu para 202 operações e US$ 21,6 bilhões. Em 2023, foram 169 emissões, que levantaram US$ 23,8 bilhões. Já em 2025, a atividade voltou a ganhar força, com 374 IPOs e captação total de US$ 70,1 bilhões.
Para o BTG, a recuperação observada desde 2024 sugere que a janela para novas ofertas foi reaberta de forma estrutural, e não apenas pontual.
O relatório também contesta uma percepção recorrente entre investidores de que uma onda de IPOs poderia drenar liquidez do mercado acionário. Historicamente, afirma o banco, os períodos de forte emissão ocorreram justamente quando havia abundância de capital, condições financeiras favoráveis e elevada demanda por ativos de risco.
Além disso, o volume de recompras de ações realizado pelas empresas americanas continua superando com folga os recursos esperados para novas ofertas públicas, reduzindo o impacto das emissões sobre a liquidez do mercado.
Entre os fatores que sustentam a retomada estão a estabilização dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano de dez anos na faixa de 4% a 4,5%, a manutenção de condições financeiras consideradas acomodatícias e o avanço do ciclo de investimentos em inteligência artificial.
O banco avalia que a próxima geração de empresas listadas poderá surgir justamente dos setores ligados à infraestrutura de IA, segurança cibernética, tecnologia espacial, defesa e infraestrutura digital.
Apesar da visão positiva para o mercado primário, os analistas defendem seletividade. Segundo o relatório, a história dos IPOs mostra que os melhores retornos de longo prazo costumam ser gerados por um grupo restrito de empresas com vantagens competitivas duradouras, capacidade de execução e disciplina na alocação de capital, e não necessariamente pelas companhias que registram maiores ganhos nos primeiros dias de negociação.