Mercados

Wall Street em recorde e Ibovespa em queda: Até onde vai o trade de IA e quais as perspectivas para as ações brasileiras?

04 jun 2026, 9:00 - atualizado em 03 jun 2026, 20:55
bolha IA ações bolsa de valores (Imagem: matejmo/ istockphoto)
(Imagem: matejmo/ istockphoto)

Os mercados afastaram os temores em relação a uma “bolha de inteligência artificial” após os resultados robustos de big techs nos Estados Unidos no primeiro trimestre de 2026, como os da Nvidia (NVDA). A avaliação é de analistas consultados pelo Money Times.

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Com o movimento, os índices de Wall Street, principalmente o S&P 500 e o Nasdaq, que possuem em peso ações de tecnologia, registraram fortes ganhos nos últimos meses. Em maio, por exemplo, o Nasdaq saltou mais de 8%, o S&P 500 subiu 5% e o Dow Jones avançou quase 3%.

Na contramão, o Ibovespa (IBOV), principal índice da bolsa brasileira, teve uma sequência de dois meses de perdas. Em maio, o IBOV tombou 7,23%, o pior desempenho mensal registrado desde fevereiro de 2023 (-7,49%), após uma leve queda de 0,08% em abril.

Isso acontece porque a bolsa brasileira está mais ligada a commodities, o chamado trade de ativos pesados, baixa obsolescência (HALO, em inglês), enquanto outros mercados emergentes, como Taiwan e a Coreia do Sul, são mais atrativos em meio ao rali de IA.

Além disso, o fundo negociado em bolsa (ETF, em inglês) GENB11 do BTG Pactual, que mede a inovação de empresas pelo índice S&P 500/B3 Ingenius e é listado na B3, saltou 12,94% apenas no último mês.

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Até quando vai o ‘trade de IA’?

A tendência do “trade de IA”, no entanto, enfrenta desafios de sustentabilidade no médio prazo, avaliam os analistas.

O estrategista da Empiricus Research Matheus Spiess considera que a empolgação com as ações ligadas à IA é um “frenesi” de curto prazo, uma vez que a alta do S&P 500, por exemplo, está concentrada em poucos nomes do setor de tecnologia.

“No médio prazo, talvez o mercado comece a questionar o valuation das ações quando começar a ver uma reversão de atratividade de capital”, avalia Spiess.

Antes, explica o estrategista da Empiricus, era observada uma maior seletividade de ativos norte-americanos, com parte do excedente se dirigindo para as economias emergentes, como o Brasil, acompanhada de resultados fracos do setor de tecnologia e da estabilização do dólar. Agora, porém, há uma inversão do movimento, com a retomada da tração da IA e vetores de alta para a moeda norte-americana no radar.

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“Mas isso vai continuar dependente da saúde dos resultados corporativos de empresas ligadas à inteligência artificial”, diz Spiess.

Hoje, na avaliação de Spiess, o diferencial dos EUA é o setor de tecnologia, com a disrupção da inteligência artificial e o retorno sobre capital (ROE) das empresas sendo convertido em investimentos em IA (capex). Segundo ele, a dúvida é por quanto tempo as empresas conseguem manter esse nível de despesas. “O capex arrefecendo poderia proporcionar algum tipo de correção”, afirma.

Ativos estão caros

Na avaliação do analista Gabriel Mollo, da Daycoval Corretora, o rali de IA deve continuar no curto prazo após os fortes resultados das empresas norte-americanas de tecnologia. No entanto, uma manutenção por mais tempo é difícil, dado que o preço das ações está muito alto, o que exige maior cautela do investidor, uma vez que a maioria dos players já está posicionada há algum tempo.

“Se vierem novos resultados positivos de empresas de tecnologia, esse movimento pode ser sustentado por mais tempo. Ele está vivendo de balanço em balanço”, afirma.

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Mollo menciona, ainda, que, além do trade de ações ligadas à IA, outros fatores puxaram o Ibovespa para baixo no curto prazo: o cenário eleitoral, a alta do petróleo e a expectativa de juros mais elevados no Brasil, diante dos riscos inflacionários.

“Neste momento, como temos a alta do petróleo se alastrando para a economia, afastou-se a ideia de que os juros vão cair rápido no Brasil, o que acaba aumentando o custo de capital das empresas”, detalha.

Concentração de portfólio

Já segundo o estrategista-chefe de ações do Itaú BBA, Daniel Gewehr, por ora, não há gatilhos claros que sustentem um cenário-base de reversão do rali ligado à IA, nem de seus potenciais impactos sobre o apetite a risco para equities domésticos.

“Nesse contexto, o Brasil apresentou desempenho relativo inferior no curto prazo, refletindo tanto a rotação global em direção ao setor de tecnologia quanto uma dinâmica macroeconômica menos favorável. A política monetária permanece restritiva — estimamos a Selic encerrando o ano em 13,75% —, o que impõe um viés mais pressionado para as projeções de lucros das empresas domésticas”, afirma Gewehr.

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No entanto, o estrategista-chefe do Itaú BBA afirma que, em interações recentes com investidores, é observado um crescente desconforto com o elevado grau de concentração temática dos portfólios, à medida que a exposição ao tema dominante se torna mais relevante.

“Nesse sentido, uma eventual reversão desse movimento — ainda que sem gatilhos claramente definidos no momento — poderia resultar em ajustes potencialmente relevantes nos preços desses ativos”, explica.

O IBOV pode se recuperar à frente?

Para Gewehr, do Itaú BBA, em um cenário de menor incerteza macroeconômica global — como um ambiente de menor pressão inflacionária ou resolução de choques geopolíticos, como a guerra no Irã —, haveria espaço para uma retomada da diversificação de portfólios, o que poderia beneficiar mercados como o Brasil.

“Atualmente, o país negocia com desconto em torno de 15% em relação ao histórico e oferece exposição a setores de qualidade menos correlacionados ao tema dominante, como infraestrutura, financeiro e real estate“, acrescenta.

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No mesmo sentido, Mollo, da Daycoval Corretora, estima que o Ibovespa possa alcançar os 205 mil pontos no fim de 2026, caso a guerra no Oriente Médio chegue ao fim, o petróleo volte a recuar e um ciclo de cortes maior na Selic volte a estar no radar.

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Jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). É repórter de mercados do Money Times. Antes disso, atuou na cobertura de macroeconomia na Broadcast/Agência Estado.
Jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). É repórter de mercados do Money Times. Antes disso, atuou na cobertura de macroeconomia na Broadcast/Agência Estado.
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