Juros altos expõem os riscos do crédito privado; veja os setores preferidos dos gestores
Juros altos funcionam como uma faca de dois gumes para os investidores de renda fixa. De um lado, aumentam os retornos, especialmente nos títulos atrelados à Selic ou ao CDI. De outro, elevam o custo da dívida das empresas, comprometem a geração de caixa e aumentam o risco de crédito.
Com a taxa Selic em 14,25% ao ano, o financiamento fica mais caro para as companhias. Ao mesmo tempo, o consumo desacelera, pressionando as receitas e tornando ainda mais difícil cumprir compromissos financeiros.
E o que isso tem a ver com a renda fixa?
No mercado de crédito privado, em que investidores emprestam dinheiro para empresas em troca de uma remuneração, juros elevados têm um custo. As companhias passam a destinar uma fatia maior do caixa para o pagamento de dívidas e reduzem a capacidade de investir no próprio negócio.
Para os investidores, isso significa mais risco e exige uma seleção mais criteriosa dos emissores.
Neste momento, a maior parte dos agentes financeiros espera apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual na Selic. Depois disso, o espaço para novas reduções é visto como mais incerto. (leia mais aqui)
Os setores mais seguros da renda fixa
O relatório Perspectiva dos Gestores, elaborado pela Empiricus em julho, perguntou aos gestores de crédito quais setores da economia oferecem as melhores e as piores oportunidades de investimento.
As 20 maiores gestoras de crédito do país, que somam cerca de R$ 2 trilhões em patrimônio sob gestão, indicaram onde enxergam mais otimismo — e mais cautela — para alocação nos próximos meses.
O resultado mostra que apenas três setores aparecem de forma consistente entre os favoritos: transmissão de energia, financeiro e saneamento.
Esses segmentos figuram entre as escolhas otimistas desde outubro do ano passado. O setor financeiro teve um breve recuo para a classificação neutra em abril, mas voltou ao grupo dos preferidos em julho.
Os segmentos de geração e distribuição de energia também seguem bem avaliados, embora com menor consistência. Mineração e óleo e gás passaram a receber avaliações mais positivas a partir de janeiro.
Com juros altos, alguns setores ficam para trás
Na outra ponta, agropecuária e consumo — principalmente o consumo discricionário, ligado a bens e serviços não essenciais — continuam entre os setores menos atrativos para os gestores.
Ambos aparecem na lista de maior cautela desde o ano passado. Como dependem mais de financiamento para crescer, acabam sendo especialmente afetados pelo elevado custo do crédito.
Imobiliário, saúde, indústria, logística, transportes e educação também figuram entre os setores menos recomendados para investimentos em crédito privado.
Telecomunicações e materiais básicos, por sua vez, receberam avaliação neutra.
Fonte: pesquisa Empiricus com 13 gestoras de crédito, realizada entre 2 e 9 de julho de 2026. (clique para ampliar)
Crédito é, acima de tudo, uma questão de escolha
O principal desafio para os gestores hoje é identificar empresas capazes de manter receitas estáveis e gerar caixa suficiente para honrar suas dívidas, mesmo em um ambiente de juros elevados e inflação persistente — cenário que já dura mais de dois anos.
Energia e saneamento, por exemplo, têm uma vantagem importante: prestam serviços essenciais. Além da demanda relativamente estável, muitas empresas desses setores contam com contratos de longo prazo e reajustes indexados à inflação, o que reforça sua previsibilidade de receita.
No setor financeiro, bancos também operam negócios considerados resilientes, capazes de atravessar períodos de juros elevados sem grandes perdas de rentabilidade — e, em alguns casos, até se beneficiar desse cenário.
Desempenho da indústria
Depois de meses de desempenho fraco, os fundos de crédito voltaram a apresentar resultados consistentes em junho. Cerca de 87% dos fundos de crédito corporativo e 64% dos fundos de crédito multiestratégia superaram ou igualaram o CDI, referência da categoria.
Embora abaixo dos 93% registrados em maio, o resultado reforça a continuidade da recuperação da indústria.
Outro sinal positivo veio das captações.
Em junho, os fundos de crédito tradicional interromperam meses de saídas líquidas e encerraram o período com entradas de R$ 9,4 bilhões.
A maior parte desse fluxo foi direcionada aos fundos de alta liquidez, conhecidos como D0 e D1, que permitem resgate no mesmo dia ou em um dia útil. Os fundos D60+ também registraram saldo positivo, com quase R$ 300 milhões em captações líquidas.
Já os fundos de debêntures incentivadas, que oferecem isenção de Imposto de Renda sobre os rendimentos, seguiram na direção oposta.
A categoria registrou resgates líquidos de R$ 23 bilhões em junho, marcando o terceiro mês consecutivo com saídas superiores a R$ 20 bilhões.