Violência

Além do PCC e CV: em pouco mais de um ano, Trump rotulou 14 grupos criminosos da América Latina como terroristas

29 maio 2026, 6:28 - atualizado em 29 maio 2026, 4:26
América do Sul, Brasil, Globo
(Imagem: Unsplash/@kronemberger)

As facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) foram consideradas grupos terroristas internacionais pelo governo dos Estados Unidos nesta quinta-feira (28). Desde que voltou à Casa Branca, Donald Trump já classificou 14 grupos criminosos da região dessa forma. A medida será efetivada no próximo dia 5 de junho.

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A designação opõe os governos dos Estados Unidos e do Brasil e virou um tema de atrito na preparação da viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Washington, que ocorreu no início deste mês.

A medida será efetivada à revelia do governo Luiz Inácio Lula da Silva, e após pedido expresso e apoio político do pré-candidato de oposição ao Palácio do Planalto e senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Procurado, o Itamaraty ainda não se manifestou.

A diplomacia americana havia afirmado ao Estadão, em março deste ano, que o PCC e o CV eram ameaças significativas à segurança regional. O órgão liderado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, um político republicano com raízes familiares cubanas e base eleitoral latino-americana, já designou como terroristas grupos envolvidos em crimes de seis países da região: México (6), Colômbia (1), Venezuela (2), Equador (2), El Salvador (1) e Haiti (2).

Desses, apenas o Equador, de Daniel Noboa, e El Salvador, de Nayib Bukele, têm governos ideologicamente alinhados a Trump e considerados em Washington como parceiros diretos no combate à criminalidade organizada transnacional. Os demais mantêm colaboração, mas seus governos divergem politicamente de Trump.

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Noboa e Bukele estavam entre os líderes regionais convidados por Trump para a reunião Escudo das Américas, que discutiu combate à criminalidade.

No comunicado desta quinta-feira, Rubio afirma que as duas facções possuem influência e conexões ilícitas que “se estendem muito além das fronteiras do Brasil, da nossa região e estão dentro do nosso País (EUA)”.

“A administração Trump vai continuar a usar todas as ferramentas disponíveis para proteger a nossa nação e a os nossos interesses de segurança mantendo drogas ilícitas longe das nossas ruas e acabando com os fluxos de rendas que financiam narcoterroristas violentos”, escreveu Rubio.

O objetivo da designação é facilitar o congelamento de ativos do narcotráfico, a investigação e o monitoramento de membros das facções, a troca de informações de inteligência, a aplicação de sanções financeiras, o banimento de vistos e a criminalização do apoio material, com armas, dinheiro ou treinamento, entre outros.

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Embora a lei americana não autorize ataques militares a partir de tal designação, é comum que organizações tachadas de terroristas sejam alvo militares dos EUA fora de seu território.

Foi o que aconteceu recentemente nos últimos meses no Caribe e no Pacífico, quando o Comando Sul das Forças Armadas americanas atacaram barcos que supostamente pertenciam a cartéis venezuelanos e mexicanos.

Trump vem sendo questionado também por não pedir aval do Congresso ou do Conselho de Segurança das Nações Unidas para ataques militares.

Esse é um temor do governo brasileiro. Antes da operação militar em Caracas para capturar o ditador Nicolás Maduro, os EUA designaram como terroristas as facções venezuelanas Tren de Aragua e Cartel de Los Soles. O Departamento de Justiça dos EUA chegou a acusar formalmente Maduro de liderar Los Soles, mas depois recuou.

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O argumento do combate ao narcotráfico foi usado pelo governo Trump para posicionar embarcações e aeronaves no Mar do Caribe. Eles bombardearam barcos de pequeno porte acusados de transportar drogas, sem que tenham demonstrado a atividade ilegal ou violenta deles, e posteriormente serviram de base para o ataque que derrubou Maduro.

Interlocutores da diplomacia citam ainda o risco de que o sistema financeiro brasileiro seja alvo de sanções americanas, por causa do fluxo de dinheiro do crime organizado, mesmo que bancos não tenham conhecimento da origem ilícita dos recursos.

Lista de organizações terroristas estrangeiras designadas pelo Departamento de Estado, a partir do segundo mandato de Donald Trump até a presente data:

  • 20 fev 2025 – Cartel de Sinaloa (México)
  • 20 fev 2025 – Cartel de Jalisco Nueva Generación – CJNG (México)
  • 20 fev 2025 – Cartel del Noreste (México)
  • 20 fev 2025 – La Nueva Familia Michoacana (México)
  • 20 fev 2025 – Cartel del Golfo (México)
  • 20 fev 2025 – Carteles Unidos (México)
  • 20 fev 2025 – Tren de Aragua (Venezuela)
  • 20 fev 2025 – Mara Salvatrucha – MS-13 (El Salvador)
  • 05 mar 2025 – Ansarallah
  • 05 mai 2025 – Viv Ansanm (Haiti)
  • 05 mai 2025 – Gran Grif (Haiti)
  • 12 ago 2025 – Balochistan Liberation Army (BLA)
  • 05 set 2025 – Los Choneros (Equador)
  • 05 set 2025 – Los Lobos (Equador)
  • 18 set 2025 – Harakat al-Nujaba (HAN)
  • 18 set 2025 – Kata’ib Sayyid al-Shuhada (KSS)
  • 18 set 2025 – Harakat Ansar Allah al-Awfiya (HAAA)
  • 18 set 2025 – Kata’ib al-Imam Ali (KIA)
  • 24 set 2025 – Barrio 18
  • 20 nov 2025 – Antifa Ost (aka Hammerbande)
  • 20 nov 2025 – Informal Anarchist Federation / International revolutionary Front (FAI/FRI)
  • 20 nov 2025 – Armed Proletarian Justice
  • 20 nov 2025 – Revolutionary Class Self-Defense
  • 24 nov 2025 – Cartel de los Soles (Venezuela)
  • 17 dez 2025 – Clan del Golfo (Colômbia)
  • 14 jan 2026 – Lebanese Muslim Brotherhood
  • 16 mar 2026 – Sudanese Muslim Brotherhood
  • 28 mai 2026 – Primeiro Comando da Capital (PCC)
  • 28 mai 2026 – Comando Vermelho (CV)

PPC e CV estavam na fila há meses

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Apesar da designação um dia após o encontro de Flávio Bolsonaro e seu irmão Eduardo Bolsonaro Rubio, a gestão Trump já estudava há meses o enquadramento dos dois grupos e mantinha diálogo com o governo brasileiro sobre a intenção de efetivar esse plano.

Flávio e a base bolsonarista no Congresso Nacional defendem a classificação das facções como terroristas, algo rejeitado pelo Palácio do Planalto. O governo brasileiro entende que a designação permitiria, no limite, que os EUA promovessem uma operação militar em território nacional.

Essa contrariedade já havia sido manifestada por Lula a Trump e seus secretários. Em visita à Casa Branca, o presidente brasileiro propôs a cooperação bilateral entre os dois países como alternativa para evitar a classificação das facções como organizações terroristas e sinalizou que o Brasil trata o tema como prioridade. Mas a decisão do Departamento de Estado não dependia da concordância do Brasil.

Flávio relatou, por sua vez, ter dito a Trump que apoiaria a medida se for eleito e que também vai levar o Brasil a aderir à coalizão política e militar Escudo das Américas, lançada em março pelo republicano com apoio de 17 países para promover ações militares no combate ao narcotráfico. Flávio Bolsonaro afirmou que fez um “pedido expresso” a Trump para enquadrar as facções PCC e CV.

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Estadão Conteúdo é uma agência de notícias que pertence ao grupo O Estado de S. Paulo e fornece notícias, análises, colunas e cotações, entre outros conteúdos, para veículos de imprensa de todo o Brasil.
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