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Economia

Análise: A era do dinheiro barato acabou? O novo cenário que ameaça governos e empresas

26 set 2026, 8:00
dólar câmbio
(Imagem: Pexels)

No início de setembro, o Tesouro americano anunciou a recompra de US$ 6 bilhões em títulos de longo prazo. A operação, normalmente destinada a prover liquidez ao mercado, tinha, na prática, o objetivo de conter a forte alta dos rendimentos dos papéis norte-americanos. As taxas dos títulos de 30 anos alcançaram 5,30%, o maior patamar desde antes da Grande Crise Financeira de 2008.

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O movimento está longe de ser uma particularidade dos Estados Unidos. Na Zona do Euro e no Reino Unido, os rendimentos dos títulos de longo prazo se encontram nos níveis mais elevados em duas décadas. Mesmo o Japão, após uma longa era de inflação baixa, juros próximos de zero e abundância de liquidez, passou a enfrentar as consequências desse novo ambiente.

A elevação do custo de financiamento dos governos não é um fenômeno meramente conjuntural. Ela reflete transformações profundas na economia mundial, que vêm revertendo as condições que sustentaram a chamada “Grande Moderação” a partir dos anos 1990. A expansão do livre comércio, a redução das barreiras aos fluxos de capitais e a disseminação de bancos centrais independentes contribuíram para um prolongado processo de queda da inflação e, consequentemente, das taxas de juros.

A Crise Financeira de 2008 e, posteriormente, a pandemia alteraram drasticamente esse quadro. Diante do risco de uma nova Grande Depressão, os governos recorreram a estímulos fiscais vultosos, enquanto os bancos centrais adotaram políticas monetárias ultraexpansionistas, com juros próximos de zero — ou até negativos — e programas maciços de aquisição de títulos.

Essas políticas foram bem-sucedidas em evitar um colapso econômico, mas deixaram graves sequelas, sobretudo na forma de uma expressiva deterioração das contas públicas e de uma inflação que se mostrou muito mais persistente do que se imaginava. Entre 2007 e 2025, a dívida pública norte-americana saltou de 62% para 122% do PIB. O pagamento de juros deverá encerrar 2026 em cerca de US$ 1,2 trilhão, superando pela primeira vez os gastos com defesa.

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Uma segunda transformação está relacionada à expansão do setor de tecnologia, que passou a disputar de forma cada vez mais intensa com os governos os recursos disponíveis no mercado de capitais. A partir de 2025, as grandes empresas do setor ampliaram significativamente o recurso ao endividamento para financiar seus projetos. Segundo estimativas da Goldman Sachs, os investimentos associados à Inteligência Artificial deverão corresponder, em 2027, a quase 3% do PIB — quase o dobro do observado no auge do ciclo de tecnologia da informação no início dos anos 2000.

Essa mudança altera a própria dinâmica de equilíbrio entre poupança e investimento. Durante décadas, o setor público pôde financiar déficits crescentes em um ambiente de abundância de poupança e demanda relativamente limitada das empresas por capital.

A revolução da Inteligência Artificial acrescenta mais um ponto nessa equação: Estados e companhias passam a disputar simultaneamente recursos para sustentar volumes extraordinários de investimento para a construção de datacenters, com toda a infraestrutura de apoio, e a produção de componentes eletrônicos, pressionando o custo do capital.

Igualmente relevante é o ressurgimento das tensões geopolíticas como força determinante na organização da economia e das finanças internacionais. O redesenho das cadeias de suprimento, combinado à proliferação de barreiras tarifárias e não tarifárias, vem colocando a segurança econômica e militar à frente da eficiência. A consequência tende a ser um mundo menos integrado, com custos de produção mais elevados e maior pressão inflacionária.

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No campo financeiro, a crescente utilização de sanções econômicas pelos Estados Unidos e pela União Europeia — como as impostas à Rússia após a invasão da Ucrânia — evidenciou que ativos denominados nas moedas das economias avançadas também carregam risco geopolítico. Em resposta, a China vem diversificando suas reservas em direção a outros ativos, sobretudo o ouro. Esse processo reduz, na margem, uma importante fonte de demanda por títulos públicos e contribui para elevar os prêmios exigidos pelos investidores.

A esses fatores soma-se a disrupção no mercado de energia provocada pelo conflito no Oriente Médio. Com o petróleo voltando a colocar “lenha na fogueira” de uma inflação que há cinco anos permanece acima da meta de 2%, o Federal Reserve será forçado a se juntar a outros grandes bancos centrais e iniciar um novo ciclo de alta dos juros. O choque energético funciona, assim, como catalisador conjuntural de forças que já pressionavam as taxas de longo prazo.

Há poucas razões para acreditar que esse quadro será revertido no horizonte próximo. No campo fiscal, não há sinais de que as democracias modernas estejam preparadas para implementar ajustes significativos, em um contexto no qual os orçamentos enfrentam pressões crescentes da transição demográfica, das mudanças climáticas, dos gastos militares e das tensões sociais associadas ao aumento das desigualdades.

No setor privado, a corrida pela liderança em Inteligência Artificial deverá manter elevados os investimentos e a competição com o setor público por uma oferta limitada de poupança. Ao mesmo tempo, a fragmentação geopolítica deverá continuar reduzindo a eficiência das cadeias globais e enfraquecendo tradicionais fontes externas de demanda por títulos soberanos.

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O resultado é uma combinação particularmente desafiadora: Estados mais endividados e com necessidades crescentes de recursos; empresas demandando volumes extraordinários de capital; uma economia mundial menos integrada e mais inflacionária; e investidores cada vez mais cautelosos diante de desequilíbrios fiscais persistentes.

Nesse ambiente de crescente fragilidade das contas públicas, aumenta também o risco de que governos recorram a diferentes formas de repressão financeira para administrar níveis elevados de endividamento — por meio de políticas destinadas a manter artificialmente baixo o custo de financiamento da dívida, direcionar a poupança doméstica para títulos públicos ou permitir que a inflação reduza, ao longo do tempo, o valor real dos passivos. A perspectiva de interferências dessa natureza tende, paradoxalmente, a tornar os investidores ainda mais cautelosos, levando-os a exigir prêmios maiores para carregar dívida soberana.

Mais do que um episódio passageiro de volatilidade, portanto, a elevação das taxas de longo prazo representa um novo regime macroeconômico, caracterizado por prêmios de risco mais elevados, maior pressão inflacionária e capital estruturalmente mais caro.

Para o Brasil, esse cenário torna a lição ainda mais urgente. Sem um compromisso inequívoco com a responsabilidade fiscal e com reformas estruturais, o próximo governo enfrentará um ambiente externo mais adverso, no qual o preço da hesitação continuará sendo cobrado na forma de juros prolongadamente elevados, câmbio pressionado e menor dinamismo econômico, deixando o país vulnerável a crises recorrentes.

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É economista chefe do Grupo CVPAR.
É economista chefe do Grupo CVPAR.

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