Ibovespa a 240 mil pontos e dólar a R$ 4,80: a mudança de apostas da Armor após o 1º turno
A Armor Capital mudou a estratégia para os ativos brasileiros após o resultado do primeiro turno das eleições. Antes vendida em Bolsa brasileira e comprada em real e bolsa norte-americana, agora a gestora mantém uma posição comprada tanto no real quanto em ações brasileiras.
“A gente ainda tem espaço de apreciação” do real e “ainda vê upside na Bolsa”, afirmou Paula Moreno, co-CIO e sócia da gestora em entrevista ao Money Times.
Segundo ela, o resultado que colocou Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno das eleições surpreendeu o mercado e abriu espaço para uma nova rodada de reprecificação dos ativos.
“A surpresa do Flávio à frente do Lula no primeiro turno e essa probabilidade bastante alta de ele ser o vencedor na eleição fez com que o mercado fizesse uma primeira reclassificação”, disse.
Ontem (5), no dia seguinte ao primeiro turno das eleições, o principal índice da bolsa brasileira, o Ibovespa (IBOV), saltou cerca de 15 mil pontos e renovou o recorde nominal histórico intradia. Segundo levantamento da consultoria Elos Ayta, essa foi a maior alta pós-1º turno desde as eleições presidenciais de 2002.
O câmbio também refletiu o forte apetite a risco do mercado e voltou ao nível de R$ 5.
Até onde vai o Ibovespa?
Para Paula Morena, da Armor, a Bolsa brasileira ainda negocia com desconto em relação à média histórica de múltiplos, mesmo com a disparada aos 200 mil pontos ontem. “Ainda tem espaço para subir para 215 a 220 mil pontos”, afirmou.
Para além disso, a gestora avalia que é necessário que um eventual governo Flávio Bolsonaro avance com uma agenda econômica mais liberal, mudanças no arcabouço fiscal e medidas capazes de melhorar a trajetória da dívida pública.
Nesse cenário, o mercado poderia promover um re-rating mais amplo dos ativos brasileiros, o que levaria o Ibovespa entre 230 mil e 240 mil pontos em meados do próximo ano, estima a Armor.
Dólar a R$ 4,80
No câmbio, a Armor também vê espaço para uma valorização adicional do real.
Na visão da especialista, parte da descompressão do prêmio de risco já apareceu com o dólar próximo de R$ 5, mas ainda há espaço para o real avançar caso uma mudança de governo se confirme.
“Caso um novo governo avance na mudança do arcabouço fiscal, haveria espaço para uma queda maior dos juros no próximo ano. Nesse cenário, que antes considerávamos com uma Selic entre 12,5% e 13% no fim de 2027, passamos a enxergar espaço para a taxa chegar a algo entre 11% e 11,5%”, diz.
Para ela, embora uma Selic mais baixa, isoladamente, possa reduzir o diferencial de juros e pressionar a moeda brasileira, a gestora aposta que uma eventual melhora da política fiscal reduziria o prêmio de risco do país e compensaria esse efeito.
Diante disso, a gestora considerada a cotação de R$ 4,80 por dólar “um nível razoável” para a moeda brasileira.
Se o jogo mudar?
Apesar da vantagem atribuída atualmente a Flávio, Paula ressalta que uma eventual vitória de Lula não pode ser descartada e poderia gerar uma nova reprecificação dos ativos.
Nesse caso, a Bolsa poderia sofrer uma correção, já que parte relevante do mercado passou a incorporar uma probabilidade elevada de vitória de Flávio. Por outro lado, a gestora avalia que o Congresso mais à direita poderia limitar mudanças mais negativas na agenda econômica.
A escolha de um ministro da Fazenda moderado também poderia reduzir a reação negativa dos mercados em um eventual quarto governo Lula.
Nesta segunda-feira, a Reuters noticiou que o presidente avalia indicar Geraldo Alckmin ao Ministério da Fazenda em uma eventual reeleição. Na avaliação de Paula, isso seria um sinal de moderação.
“Hoje, temos um Congresso muito mais à direita e [Lula] vai precisar negociar muito mais a agenda. Então, quando ele fala que poderia ter o Alckmin na Fazenda, acho que é uma forma de mostrar esse sinal de moderação.”
O risco que vem de fora
Apesar do otimismo com os ativos brasileiros, a Armor ressalta que o cenário externo exige cautela. Os juros reais dos Estados Unidos estão próximos de 3%, enquanto o Treasury, título do Tesouro norte-americano, de 10 anos está em torno de 5,30%.
Além disso, a forte necessidade de financiamento das empresas de tecnologia norte-americanas, principalmente as ligadas à inteligência artificial (IA), aumenta a competição global por recursos.
“É preciso levar esse cenário em consideração quando comparamos o Brasil com os últimos anos. Uma sinalização de controle de gastos, com um novo arcabouço fiscal e maior visibilidade de que a relação dívida/PIB pode se estabilizar e cair, traz mais conforto para o mercado”, considera Paula Moreno.
Segundo ela, esse cenário se torna ainda mais relevante diante da dificuldade de encontrar países que estejam conseguindo estabilizar ou reduzir a dívida. “Isso é bastante positivo para o Brasil, ainda mais considerando que hoje temos um Congresso extremamente liberal e pró-mercado.”