Banco do Brasil (BBAS3): Ação encosta nas mínimas — mas um projeto do Senado promete dar uma ‘ajudinha’; entenda
O Banco do Brasil (BBAS3), que parecia ter encontrado o fundo do poço, descobriu um alçapão. Em meio a novos alertas para o agronegócio, que vive um momento delicado desde o ano passado, o banco voltou a negociar abaixo dos R$ 20 — patamar visto pela última vez no auge da crise do setor em agosto do ano passado.
Os resultados do primeiro trimestre e a revisão do guidance (projeções) mostraram que o banco ainda deve enfrentar dificuldades antes de se recuperar da piora dos calotes. Além disso, o El Niño, fenômeno climático que pode prejudicar culturas como soja e milho, tende a agravar a situação de produtores já ‘machucados’ pelos impactos da guerra entre Irã e Israel e EUA.
Diante desse cenário, o Senado não ficou de braços cruzados. Com uma bancada forte na Casa, o agronegócio reagiu e conseguiu aprovar um projeto de lei que promete dar uma “força” ao setor. Entre os principais pontos da proposta está a criação de uma linha de crédito especial financiada pelo Fundo Social (FS) e outros fundos, com critérios de elegibilidade mais amplos do que os previstos nos projetos aprovados pela Câmara dos Deputados.
Agora, a medida contempla não apenas eventos climáticos, mas também impactos decorrentes de eventos geopolíticos globais. Na prática, isso significa que custos mais elevados com insumos também poderão ser elegíveis para refinanciamento. Além disso, foi aprovada uma emenda que prevê a criação do Fundo de Garantia para o Agronegócio (FG-Agro).
E o Banco do Brasil com isso?
Como maior financiador do agronegócio no país, o BB pode ganhar algum alívio no curto prazo. Pelo menos essa é a avaliação do JPMorgan. Segundo os analistas, os investidores podem reagir positivamente às ações do banco caso o projeto seja aprovado, já que a medida, na prática, adia parte dos problemas enfrentados pelo setor.
Mas a questão está longe de ser simples. Primeiro, porque o projeto ainda precisa passar pela Câmara dos Deputados. Segundo, porque o próprio governo pode vetar a proposta ou questioná-la judicialmente. O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, por exemplo, afirmou que a medida pode acabar restringindo a oferta de crédito ao agronegócio.
“O que está transparecendo é que, de fato, está se querendo trazer uma questão política maior, e que, de fato, não vai resolver. Vai, de fato, criar problemas, inclusive para o próprio agronegócio, o que é um compromisso meu de não prejudicar o setor. Tenho feito todo o esforço para que a gente não prejudique o setor.”
Risco moral
Outro ponto levantado pelo JPMorgan é que a medida parece apenas adiar o problema, sem resolvê-lo. Os analistas lembram que o banco já possui cerca de um terço da carteira de agronegócio com algum grau de inadimplência, e o projeto pode ampliar ainda mais o volume de empréstimos renegociados, refinanciados e reestruturados.
Além disso, existe a questão do risco moral: a percepção de que produtores inadimplentes serão sempre socorridos, o que pode acabar incentivando novos atrasos nos pagamentos.
“Não temos certeza se a realização constante desses programas de refinanciamento não gerará risco moral no setor. O Banco do Brasil já refinanciou R$ 38 bilhões por meio da MP 1314”, destacam os analistas.
Promulgada no ano passado, a medida permitiu ao BB renegociar R$ 71 bilhões em empréstimos reestruturados e R$ 63 bilhões em operações prorrogadas. Somados aos refinanciamentos realizados, o banco acumula cerca de R$ 172 bilhões em “empréstimos problemáticos”.