Cadillac de R$ 3 milhões liga ex-sócio da Fictor, fundo de investimento e preso por lavagem de dinheiro do tráfico
Texto atualizado às 15h03, do dia 04/08/2026, para inserção de novo posicionamento da Planner
Texto atualizado às 20h50 para inserção dos posicionamentos da Planner e da Redwood (Disponíveis na íntegra ao final)
Uma operação envolvendo um Cadillac Escalade 2025, avaliado em cerca de R$ 3 milhões, colocou Rafael Paixão, ex-sócio da Fictor, no centro de uma estrutura financeira que envolve uma empresa ligada a um preso pela Polícia Federal (PF) em investigações sobre lavagem de dinheiro de organizações criminosas e um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios).
Segundo documentos de um processo em tramitação na Justiça Federal de Santos, Paixão tenta reaver o veículo, bloqueado em uma investigação que envolve a Quadri, companhia que tem como sócia-administradora Clara Ramos de Souza Morgado, esposa de Rodrigo de Paula Morgado.
Morgado apareceu recentemente em outra investigação da PF que apura o uso de uma concessionária de veículos de luxo para lavar recursos supostamente ligados a organizações criminosas.
Os documentos apresentados pelo próprio Paixão indicam que, antes da venda, o Cadillac pertencia à Quadri. Paixão afirma ter adquirido o veículo “de forma onerosa e de boa-fé”, por meio de contrato firmado com uma empresa intermediária. O pagamento teria sido dividido em 24 parcelas de R$ 125 mil.
Após a compra, direitos relacionados ao contrato foram cedidos ao Araguaia FIDC, administrado pela Planner e gerido pela Redwood. O veículo foi dado em garantia da operação por meio de alienação fiduciária.
A Planner contestou a interpretação inicial publicada pela reportagem de que a Quadri teria cedido os créditos e antecipado o recebimento das parcelas. Segundo a administradora, o termo de cessão identifica a empresa vendedora do veículo como cedente. A instituição afirma que a Quadri não cedeu créditos, não antecipou valores e nada recebeu do fundo.
Prints do registro no sistema B3/SNG presentes no próprio processo, entretanto, informam o CNPJ da Quadri no campo “principal recebedor do pagamento”, em uma operação com valor principal de R$ 3 milhões.
Procurada para explicar a divergência e a função desse campo, a Planner voltou a responder, afirmando que o valor no sistema da B3/SNC “se refere à compra do mencionado veículo pelo sr. Rafael Paixão, que o adquiriu justamente da Quadri, não tendo, portanto, qualquer relação com o fundo, a Planner ou a B100”.
A cessão de recebíveis, por si só, é comum no mercado de crédito estruturado. No entanto, os documentos do processo não permitem comprovar integralmente os pagamentos realizados, a origem do veículo e o contexto das investigações envolvendo pessoas ligadas ao negócio.
A documentação apresentada pela defesa também não permite reconstruir integralmente a movimentação dos cerca de R$ 3 milhões. Em vez dos 24 boletos e dos respectivos comprovantes de pagamento, foram anexadas apenas capturas de tela de três pagamentos.
A reportagem não conseguiu contato com Rafael Paixão e com a Quadri. A Planner não respondeu até a publicação.
O que a Operação Fallax investiga
A combinação de fatores observada na operação do Cadillac reúne elementos que lembram os descritos pela PF na Operação Fallax.
O fundador da Fictor, Rafael Góis, foi alvo da primeira fase da operação. Segundo a Polícia Federal, uma organização criminosa teria atuado mediante a cooptação de funcionários de instituições financeiras e o uso de empresas de fachada para movimentar recursos ilícitos.
Há cerca de uma semana, a Justiça de São Paulo determinou o compartilhamento das provas da investigação com o processo de recuperação judicial da Fictor e ordenou uma análise detalhada dos fluxos financeiros do grupo, incluindo contas ligadas a acionistas e pessoas relacionadas.
Segundo a investigação, o esquema seria baseado em empresas de fachada, contabilidades fabricadas, pagamentos cruzados de boletos, transferências internas e registros contábeis destinados a criar uma aparência artificial de faturamento e capacidade financeira.
Ainda de acordo com a PF, parte dos recursos circulava entre empresas antes de ser convertida em bens de luxo e criptoativos, dificultando seu rastreamento.
A investigação atribui à Fictor um papel central na engrenagem, apontando que o grupo teria atuado como núcleo financeiro responsável por irrigar empresas utilizadas para movimentar e ocultar recursos. A PF também afirmou que mecanismos semelhantes de lavagem de dinheiro também teriam sido utilizados por integrantes de facções criminosas.
A Fictor afirmou, na época, que não tinha conhecimento de qualquer relação com a organização criminosa mencionada na investigação e disse que prestaria esclarecimentos após ter acesso aos elementos do inquérito.
Em manifestação apresentada no processo, o Ministério Público Federal (MPF) afirmou que a combinação entre intermediação empresarial, cessão de direitos creditórios e alienação fiduciária pode dificultar a rastreabilidade patrimonial.
O MPF também destacou que Paixão não promoveu imediatamente a transferência do veículo perante o órgão de trânsito, circunstância que, segundo eles, enfraquece a alegação de que a aquisição ocorreu de forma plenamente regular.
O órgão também defendeu a manutenção da indisponibilidade do Cadillac, sustentando que os documentos apresentados não seriam suficientes para afastar a possível vinculação do veículo aos fatos investigados.
Outras ligações e salto de patrimônio
O Araguaia, como mencionado, é um fundo administrado pela Planner.
A Fictor ganhou as manchetes após tentar comprar o Banco Master, em novembro do ano passado. Já a Planner foi citada, mais recentemente, em outra investigação da Polícia Federal, como uma das instituições que teriam atuado como ponte em um suposto esquema envolvendo o Banco Master e o Rioprevidência.
Dados da CVM mostram que o Araguaia FIDC possuía patrimônio líquido de aproximadamente R$ 780 milhões em junho deste ano, ante R$ 470,1 milhões no mesmo mês de 2025.
O fundo possui estrutura concentrada. Uma de suas subclasses tem apenas dois cotistas pessoas físicas, enquanto a cota subordinada pertence ao Araguaia Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado, também administrado pela Planner e gerido pela Redwood.
Esse multimercado também possui apenas dois cotistas pessoas físicas, responsáveis por 100% do patrimônio. Seu patrimônio saltou de R$ 38,3 milhões em junho do ano passado para R$ 233,1 milhões neste ano. Em junho de 2026, cerca de R$ 197 milhões — aproximadamente 84% do patrimônio do fundo — estavam aplicados no Araguaia FIDC.
Os informes públicos da CVM, contudo, não permitem identificar se Rafael Paixão, pessoas ligadas à Fictor ou terceiros envolvidos na operação do Cadillac figuram entre os cotistas dos fundos.
O que dizem Planner e Redwood
Confira a nota da Planner na íntegra:
A Planner registra, inicialmente, que a reportagem foi publicada às 18h50 (de acordo com a publicação) de hoje, antes do prazo de 19h estipulado pela própria equipe de reportagem para o envio de manifestação — razão pela qual o texto consigna, indevidamente, que “a Planner não respondeu até a publicação”. Solicita-se a inclusão imediata deste posicionamento.
A Planner rechaça, ademais, um erro central da reportagem, desmentido pelos próprios documentos do processo que ela cita: a afirmação de que a Quadri teria atuado como “principal vendedor” e antecipado o recebimento de parcelas ao vender crédito ao fundo.
O termo de cessão anexado aos autos identifica como cedente — única parte que recebe recursos do fundo numa operação de FIDC — a empresa vendedora do veículo.
A Quadri não cedeu créditos ao fundo, não antecipou valores e dele nada recebeu.
A inversão publicada atribui à estrutura exatamente o oposto de sua mecânica, em prejuízo direto da reputação da administradora.
Solicita-se a correção imediata do trecho.
No mais, a Planner esclarece que fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) não realizam aquisição de veículos ou bens de consumo.
Fundos dessa classe operam exclusivamente com direitos creditórios, na forma da regulamentação da CVM, e somente podem vir a deter a propriedade de um bem em função da execução de garantias por inadimplência — procedimento regular de proteção ao patrimônio dos cotistas.
Na antecipação de recebíveis, o fundo desembolsa recursos exclusivamente ao cedente; o sacado dos títulos não recebe qualquer valor do fundo — ao contrário, torna-se devedor dele.
Por força da Lei Complementar nº 105/2001 e das normas de sigilo aplicáveis, a Planner não comenta operações específicas, nem a identidade de cotistas, cedentes ou devedores de fundos sob sua administração. Esses esclarecimentos são prestados exclusivamente às autoridades competentes, com as quais a instituição colabora e permanece à disposição.
A Planner registra que não foi procurada por qualquer autoridade a respeito do tema.
Todas as operações dos fundos administrados pela Planner submetem-se a processos de diligência, análise de lastro e prevenção à lavagem de dinheiro, conforme as normas da CVM, do Banco Central e da ANBIMA.
Confira a nota da Redwood:
A Redwood, na qualidade de gestora de fundos de investimento, esclarece que suas decisões restringem-se à gestão de carteiras, na forma da regulamentação da CVM, cabendo a administração fiduciária, a custódia e a controladoria dos fundos a instituições distintas e independentes, conforme a segregação de funções exigida pela Resolução CVM nº 21.
Em operações de direitos creditórios, a gestora avalia a aquisição de créditos ofertados por empresas cedentes, observados os critérios de elegibilidade e os procedimentos de diligência previstos nos regulamentos dos fundos.
Os recursos são desembolsados exclusivamente aos cedentes; os sacados dos títulos não recebem valores dos fundos — tornam-se, ao contrário, devedores deles. Por força das normas de sigilo aplicáveis, a Redwood não comenta operações específicas, nem a identidade de cotistas, cedentes ou devedores das carteiras sob sua gestão. Esses esclarecimentos são prestados exclusivamente às autoridades competentes, com as quais a gestora colabora e permanece à disposição.
A Redwood registra que não foi procurada por qualquer autoridade a respeito do tema.